quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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Vinho europeu com preço de nacional? Saiba como tratado histórico vai mexer no seu bolso

A partir do segundo semestre de 2026, milhares de produtos europeus podem entrar no Brasil com um preço mais atraente à medida que se aproxima a fase definitiva do acordo Mercosul-União Europeia.

O tratado, que teve hiato de 26 anos, finalmente avança nas salvaguardas bilaterais e na criação de um mecanismo de reequilíbrio econômico de compensação unilateral.

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As negociações preveem a eliminação gradual em até 30 anos das tarifas de importação ou exportação, o que poderá baratear produtos brasileiros e europeus. Após os prazos estipulado para diversos setores, mais de 5 mil produtos podem ter tarifas zeradas.

O Portal A TARDE já mostrou que a medida pode forçar o barateamento de carros, mas também pode impactar negativamente a classe trabalhadora, que pode começar a enfrentar um aumento do desemprego.

Essa nova estratégia comercial vai facilitar o comércio de bens e serviços e fortalecer a integração e a competitividade das empresas. O setor de alimentos deve ser o mais beneficiado, à medida que a redução de tarifas e barreiras comerciais seja aplicada de forma clara e gradual.

“Além do preço mais baixo, outro benefício é ganhar mercado externo, gerar maior previsibilidade para exportadores na medida em que não se tem tarifas. Essa movimentação permitirá estímulo a investimentos no agro e na indústria de alimentos. São ganhos específicos”, descreve Juliana Ianhz, economista da Insper ao Portal A TARDE.

Mercado de vinho mais atrativo

Os vinhos europeus devem ganhar destaque nesse cenário, tanto com a presença mais ampla em solo europeu, quanto acesso a preços mais baratos no Brasil.

Apesar do destoante cenário entre os setores nos blocos, o Brasil se destacou com uma forte recuperação da safra. Entre os destaque de acordo com relatório da Organização Mundial de Vinhos e Vinhas (OIV), estão:

  • Alta de 38% em relação à pequena safra de 2024
  • Alta de 15% acima da média dos últimos cinco anos

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Isso possibilitou que o país produzisse cerca de 2,9 milhões de hectolitros no ano, mesmo diante de um verão quente e ondas de calor repetidas em janeiro e fevereiro, que levaram ao amadurecimento precoce e à redução da produção.

Entretanto, o impacto no setor com o acordo pode ser mais sensível. O motivo? A alta competitividade da União Europeia na produção de vinhos.

Brasil se destacou com uma forte recuperação da safra em 2025 | Foto: Rodinaldo Goularte / Divulgação

“Eles produzem com muita escala e com alta qualidade do produto. Já é um setor subsidiado historicamente, então o custo do vinho é baixo. Os vinhos europeus podem chegar realmente mais baratos ao Brasil”, explica a especialista.

Os consumidores aqui vão agradecer, mas isso aumenta a concorrência no mercado interno. Hoje muita gente compra vinho nacional porque tem um custo muito mais baixo do que os vinhos importados que tem uma qualidade excepcional em muitos casos

Juliana Ianhsz – economista

Quem não se prepara pode sofrer

Entretanto, essa nova fase comercial entre dois grandes blocos econômicos, preocupa especialistas quando o assunto é um cenário de competitividade entre pequenos produtores, que terão que competir em preço menores e com uma boa qualidade de produção.

“É um ponto de atenção, mas isso não significa que o setor vai para a bancarrota [situação de insolvência ou quebra de uma empresa, caracterizada pela incapacidade de honrar dívidas] porque também se pode criar oportunidades”, disse ela.

Mas independentemente de oportunidades comerciais, a competitividade é algo atemporal e oportuno para o mercado, principalmente para o setor de vinhos no Brasil. É o que a vinícola Vaz, localizada em Morro de Chapéu, região da Chapada Diamantina, na Bahia, vem fazendo há mais de 10 anos.

A vinícola cultiva sete diferentes variedades de uvas viníferas:

Vinhos Tintos:

Vinhos Brancos:

  • Chardonnay
  • Sauvignon Blanc
  • Viognier
  • Muskat Petit Grain

Em 2007, a empresa começou a se enraizar diante de um solo propício e as variações de temperatura vantajosas, diante de 1.200 metros de altitude, para a produção de uvas viníferas francesas.

“Meu pai sempre foi apaixonado pela região e ele acreditou no potencial enoturístico e da viticultura aqui na região, porque nós somos os pioneiros por aqui. E hoje a região já conta com mais de quatro vinícolas para visitação, a Santa Maria, a Sertânia, a Reconvexo e a Vaz, todas na região da Chapada”, diz a empresária.

Yanna reconhece que o cenário pode ser ainda mais competitivo no Brasil diante da escala diferente de produção entre os blocos, mas avalia o acordo com otimismo, diante da possibilidade de diferenciação do vinho.

Com o acordo se trazer oportunidades importantes para o setor a título brasileiro e pode abrir novos mercados. A gente pode trabalhar na valorização da identidade dos vinhos nacionais, principalmente. O tratado por aumentar a concorrência com os vinhos europeus, que já tem uma tradição, mas eu creio que para o Brasil, isso pode inclusive estimular ainda mais a busca pela qualidade e a diferenciação dos nossos rótulos locais

Yanna Vaz – empresária da vinícola Vaz

Tradição e identidade podem superar desafios

Especialistas apontam que com as medidas do acordo, a competição desigual entre os blocos pode ser uma entrave ainda mais forte para pequenos produtores de vinhos brasileiros. De acordo com Juliana, aqueles que dependem muito de proteção tarifária podem sofrer mais para se posicionar na concorrência do setor. Mas o mercado pode ser vantajoso e facilmente adaptável às adversidades do setor para quem já está com marca bem posicionada e tem uma produção de boa qualidade.

Ela explica ainda que em cenários como esse, os produtores possam ser mais seletivos e comecem a trazer mais qualidade ao produto. Sem as barreiras tarifárias que vão ser eliminadas de forma gradual, os produtores poderão aumentar as vendas e ganhar mais mercado.

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Acho que o impacto maior pode ser uma mudança realmente estrutural na produção: quem tiver só competindo por preço, vai perder espaço, mas quem tiver tentando competir por qualidade por agregação de valor, pode conseguir uma relevância significativa com esse acordo, mas claro, ao longo do tempo, nada disso acontece do dia para noite

Juliana Ianhsz – economista

Yanna Vaz concorda. Diante de décadas de posicionamento no mercado com produção de vinhos finos e destaque do enoturístico, a empresária está otimista quanto a possível presença do produto em território europeu.

“É uma questão de trabalhar mesmo, de investir em qualidade, fortalecer as nossas marcas, e ter uma organização da cadeia produtiva para valorizar os produtos de origem. Então a gente tem a parte de dinheiro turismo e a conexão direta com o consumidor. As pequenas vinícolas principalmente vão se destacar muito mais pela valorização do seu produto, principalmente de forma mais artesanal, mais regional e tudo e com a valorização da identidade mesmo, tanto regional, produção artesanal, a nossa experiência enoturística”, finaliza ela.

FAQ: O que muda para o consumidor e o produtor?

  1. Quando os preços começam a cair? A previsão é que o impacto comece a ser sentido a partir do segundo semestre de 2026, com a implementação gradual das salvaguardas do acordo.
  2. O vinho nacional vai acabar? Não. Especialistas acreditam que as vinícolas nacionais que focam em qualidade, identidade regional e enoturismo (como as da Chapada Diamantina) terão espaço garantido, competindo por valor e não apenas por preço baixo.
  3. Quais outros produtos serão beneficiados? Além dos vinhos, o setor de alimentos em geral, queijos finos, azeites e bens de consumo tecnológicos europeus devem ter redução de tarifas.
  4. O que é o enoturismo citado na matéria? É o turismo focado na experiência de visitação a vinícolas, degustação e conhecimento do processo de produção. Regiões como Morro do Chapéu já contam com quatro vinícolas abertas à visitação: Santa Maria, Sertânia, Reconvexo e Vaz.



Fonte: A Tarde

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