sábado, março 7, 2026
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usuários criticam ‘pedágio’ previsto para o Aeroporto de Salvador

A futura implantação do sistema Kiss & Fly (beija e voa) no Aeroporto Internacional de Salvador, que prevê cobrança para veículos que permanecerem mais de 10 minutos nas áreas de embarque e desembarque, já começa a provocar reação entre motoristas e passageiros que circulam pelo terminal.

A proposta prevê cobrança para veículos que ultrapassarem o tempo de permanência de 10 minutos nas áreas de embarque e desembarque, que pode gerar uma cobrança de cerca de R$ 18.

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O projeto, no entanto, ocorre em meio a uma polêmica administrativa e jurídica revelada com exclusividade pelo Portal A TARDE. Documentos oficiais obtidos pela reportagem mostram que órgãos da própria Prefeitura de Salvador emitiram pareceres contrários à instalação do sistema, apontando possíveis impactos na mobilidade urbana e questionando a legalidade da cobrança.

Apesar das divergências, as obras para instalação das cancelas seguem em andamento e já são visíveis na área externa do aeroporto, chamando a atenção de quem passa pelo local.

Motoristas temem impacto no trabalho

O Portal A TARDE foi até o Aeroporto de Salvador conversar com motoristas e passageiros que passam pelo local. Entre os usuários mais preocupados estão os motoristas que dependem do aeroporto para trabalhar, especialmente os que atuam por aplicativos.

A motorista Lilian da Silva Pinto, que também é professora de capoeira, afirma que não concorda com o projeto e que situações comuns do dia a dia podem fazer o tempo estourar rapidamente.

“Às vezes o passageiro ainda está pagando no Pix, a internet falha ou demora para sair com as malas. Se passar de 10 minutos, vamos ter que dar uma volta no quarteirão para tentar outro tempo e não pagar cerca de R$ 20. Não compensa para quem trabalha”, afirmou em entrevista ao Portal A TARDE.

Lilian da Silva Pinto – motorista por app e professora de capoeira | Foto: Ravi / Grupo A TARDE

Ela defende que a tolerância deveria ser maior. “Trinta minutos seria um tempo mais justo, principalmente quando o passageiro é idoso ou tem muita bagagem.”

O trabalhador da indústria Augusto César, que já rodou em plataformas de transporte, acredita que o tempo de tolerância proposto não corresponde à realidade da atividade. “Para quem usa diretamente vai pesar no bolso. Nos aplicativos você tem uma tolerância de cerca de 15 minutos para iniciar a corrida. Se o limite aqui for de 10 minutos, fica injusto.”

Já o taxista Lauzemi Almeida do Nascimento acredita que a cobrança desconsidera os profissionais que trabalham diariamente no aeroporto.

Somos nós que movimentamos o aeroporto. Deveria haver uma exceção para quem presta serviço aqui

Lauzemi Almeida do Nascimento, taxista

Passageiros também criticam tempo e valor

A possibilidade de cobrança também preocupa passageiros que costumam buscar familiares ou amigos no aeroporto. O empresário Everton Conceição Santos acredita que o tempo proposto não acompanha a dinâmica de chegadas e partidas.

“Para mim, eu acho um absurdo isso, até porque temos o direito de ir e vir. Já temos a fiscalização da Semop, da Transalvador que fiscaliza aqui o trânsito. Sem falar que quem vem de voo internacional carregando muita bagagem demora. É um abraço, é aquele beijo da namorada… E acaba levando mais tempo que 10 minutos. Por isso, eu acho que ia ser uma cobrança indevida e que não deveria existir”.

Everton Conceição Santos - empresário

Everton Conceição Santos – empresário | Foto: Ravi / Grupo A TARDE

Já o estudante de medicina Edson Ricardo classificou o tempo de tolerância como insuficiente. “Dez minutos não dá tempo nem de a pessoa sair do avião, pegar a mala e chegar ao carro.”

Alguns passageiros, defendem, ainda, que o fluxo de veículos poderia ser organizado por meio de medidas educativas, em vez de cobrança.

Esse problema não se resolve com pagamento. Poderiam existir avisos orientando as pessoas a embarcar mais rápido. Educação resolve mais do que pesar no bolso

Dayana Santa Cruz, analista de sistemas

Pareceres técnicos questionam legalidade da cobrança

A polêmica em torno do Kiss & Fly ganhou força após a revelação de que pareceres técnicos e jurídicos de órgãos municipais apontaram problemas no projeto.

Entre os posicionamentos contrários estão análises da Transalvador, que alertou para impactos negativos na mobilidade urbana e riscos à segurança viária, além de questionamentos da assessoria jurídica do órgão.

Outro ponto levantado nos documentos diz respeito à possibilidade de exploração econômica de uma via pública. Técnicos apontaram que não haveria previsão no contrato de concessão do aeroporto para cobrar pelo uso do meio-fio nas áreas de embarque e desembarque.

Além disso, a Procuradoria Geral do Município (PGM) chegou a determinar, em 2025, a suspensão do processo administrativo para esclarecimentos sobre como o alvará foi concedido diante de pareceres contrários.

Mesmo assim, posteriormente houve avanço no processo e a concessionária responsável pelo terminal seguiu com a instalação das estruturas necessárias para o novo sistema.

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Usuários sugerem soluções sem cobrança

Apesar das críticas predominantes, parte dos usuários vê possibilidade de organização. Alguns entrevistados consideram que o sistema pode ajudar a organizar o fluxo de veículos.

“Pode otimizar o uso do espaço. Em aeroportos maiores existe bastante dificuldade nessas áreas”, diz a advogada Bruna Dandara, de São Paulo, que acredita que a medida pode aumentar a rotatividade no embarque.

Comissão da ALBA entra em alerta contra cobrança

O projeto também tornou-se o novo foco de embate na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). O deputado estadual Diego Castro (PL) anunciou que vai levar o caso à Comissão de Defesa do Consumidor, classificando a iniciativa da concessionária Vinci Airports como “abusiva” e prejudicial à mobilidade urbana.

O que diz a concessionária

Em nota, a concessionária responsável pela administração do Aeroporto Internacional de Salvador informou que o sistema ainda não está em funcionamento.

Segundo a empresa, o objetivo do Kiss & Fly é “organizar o fluxo de veículos, aumentar a segurança e evitar congestionamentos nas áreas de embarque e desembarque”.

A concessionária também afirma que o início das operações será comunicado previamente e que haverá período de adaptação e orientação aos usuários, assim como os valores exatos serão definidos. A previsão, é que o projeto comece a valer ainda esse nano.

Confira a opinião de outros usuários do aeroporto

  • Dayana Santa Cruz – analista de sistemas

“Péssimo, de verdade. Eu não concordo. Acho que esse problema não se resolve com pagamento. Ter que pagar para deixar o carro mais de 10 minutos ali não faz sentido. Poderiam existir avisos orientando as pessoas a embarcar mais rápido. Educação resolve mais do que pesar no bolso.”

  • João Teixeira Cavalcante – artista plástico

“Salvador está toda privatizada. Zona azul, aeroporto… cada vez mais lugares onde a gente precisa pagar.”

  • Genivaldo Cerqueira de Souza – motorista

“Eu não sabia disso. Nem imaginava que estavam colocando aqueles portões eletrônicos ali. Estou sabendo agora. Dez minutos é muito pouco.”

  • Caroline Conrado – arquiteta

“Essa área de embarque e desembarque é de fluxo rápido. Não faz muito sentido transformar isso em cobrança.”

Kiss & Fly

O Kiss e Fly é um sistema de controle de acesso que cobra taxas para veículos que estacionam nas áreas de embarque e desembarque do aeroporto, visando organizar o tráfego e otimizar o fluxo de passageiros.



Fonte: A Tarde

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