Tonny, Rita e Sheila Carvalho –
Por trás do glamour dos trios elétricos e das luzes dos camarotes, o Carnaval de Salvador é sustentado por mãos calejadas e histórias de resistência que começam muito antes do primeiro acorde de guitarra baiana.
Uma dessas histórias atende pelo nome de Rita de Cássia, a “Negona de Boa” como é conhecida. Há 19 anos, o seu endereço oficial entre dezembro e fevereiro é o Morro do Gato, no circuito Barra-Ondina.
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Neste sábado, 14, Rita atinge uma marca impressionante: são 61 dias de estadia nas ruas. Ela chegou ao local no dia 15 de dezembro para garantir o ponto que ocupa há quase duas décadas. Até a Quarta-feira de cinzas, terá acumulado 65 dias de uma jornada que mistura cansaço, fé e um objetivo concreto: a renda da festa será usada para consertar o telhado de casa e, finalmente, “bater a laje”.
O encontro
Mas o Carnaval de 2026 reservou um presente especial para a veterana de 30 anos de serviço informal. Por intermédio do Grupo A TARDE, a “Negona de Boa” realizará hoje o sonho de conhecer seu ídolo, Tony Salles, em pleno Morro do Gato. O encontro humaniza a estatística e traz um respiro de alegria para quem enfrenta o sol e a chuva para servir o folião.
Tradição que atravessa gerações
A trajetória de Rita é o retrato da sucessão familiar no asfalto. Quando começou, sua filha, hoje conhecida como “De Boinha”, tinha apenas 5 anos e cresceu entre os isopores. Hoje, é “De Boinha” quem leva a própria filha para o circuito, perpetuando uma linhagem de mulheres que movem a economia invisível da festa.
Veja vídeo do momento:
Avanços
Apesar do clima de celebração, o cenário para os ambulantes ainda é de contrastes. Relatos de falta de banheiros químicos antes da abertura oficial e insegurança — com caixas arrombadas e furtos — levantam o debate sobre as condições dignas de trabalho.
Por outro lado, o Carnaval de 2026 apresenta avanços logísticos e sociais significativos oferecidos pela Prefeitura de Salvador e patrocinadores:
- Salvador Acolhe: Creches 24h para filhos de ambulantes (0 a 17 anos), permitindo que crianças saiam da exposição direta dos circuitos.
- Estrutura de Apoio: Sete centros de convivência com banho, áreas de descanso e alimentação gratuita em restaurantes populares exclusivos.
- Kit Ambulante: Entrega de vestuário com proteção UV, protetor solar e equipamentos com cadeado.
Números
Segundo a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), a operação deste ano é robusta:
- Quatro mil licenciados nos circuitos oficiais (Dodô, Osmar e Batatinha).
- Mais de 8 mil trabalhadores cadastrados ao somar carnavais de bairro, baleiros e festas pré-carnavalescas.
“Estamos aqui porque queremos”
Para Rose Pley de Jesus, companheira de jornada de Rita, o termo “trabalho escravo” não cabe na realidade de quem vê na festa sua maior chance de independência. “A gente está aqui porque quer. Ninguém toma o dinheiro das nossas mãos. Estamos aqui porque temos um objetivo”, afirma.
Entre a exaustão das jornadas prolongadas e a euforia de ver o ídolo de perto, os ambulantes seguem como a espinha dorsal do Carnaval, pedindo apenas o que Rita de Cássia sempre defende: reconhecimento e dignidade.
Fonte: A Tarde



