O estado de Santa Catarina está construindo as suas primeiras áreas de escape em rodovia estadual, dispositivo de segurança projetado para evitar tragédias com veículos que perdem freio em descidas e consolidado em regiões serranas de outros estados. As obras na Serra Dona Francisca (SC-418) estão na metade do planejamento de execução, com investimento divulgado no valor de R$ 40 milhões, de acordo com o governo catarinense.
São duas estruturas que estão sendo implantadas entre os quilômetros 15 e 17, no trecho de curvas íngremes e sinuosas da SC-418 em que, em março de 2015, um ônibus despencou por uma ribanceira e matou 51 pessoas — uma das maiores tragédias rodoviárias do estado. O grupo seguia em excursão religiosa de União da Vitória (PR) e Porto União (SC) com destino a Guaratuba, no litoral paranaense.
Perícia técnica apontou que o veículo trafegava a 90 km/h em um trecho com limite de 30 km/h e que houve falha no sistema de freios por superaquecimento na penúltima curva da serra. Na queda, o ônibus atingiu 120 km/h no momento do impacto.
O caso emblemático está longe de ser isolado neste que é um dos pontos mais críticos da rodovia, marcado por declives acentuados, tráfego intenso de caminhões e histórico recorrente de acidentes. De acordo com a Secretaria da Infraestrutura e Mobilidade de Santa Catarina, a previsão de conclusão das duas áreas de escape da Serra Dona Francisca é no próximo mês de junho, prazo que pode sofrer alteração caso hajam “intercorrências climáticas” durante a execução da obra.
A Serra Dona Francisca liga principalmente Joinville a Campo Alegre, conectando o litoral ao Planalto Norte catarinense, além de facilitar o acesso a municípios como São Bento do Sul e à região de Mafra. É um corredor estratégico tanto para o escoamento da produção industrial e agrícola quanto para o turismo, com tráfego diário de caminhões.
Como funcionam as áreas de escape
As áreas de escape são dispositivos projetados para receber veículos que perdem o controle dos freios em descidas prolongadas, especialmente caminhões. O sistema consiste em uma pista de acesso pavimentada que leva a um leito de desaceleração preenchido com material granular de alta resistência ao rolamento, capaz de absorver a energia do veículo e reduzir a velocidade de forma progressiva até a parada total.
As estruturas em implantação na SC-418 seguem padrões técnicos adotados em rodovias de serra com tráfego intenso de cargas, que incluem:
- pista de acesso sinalizada para entrada controlada em situação de emergência;
- leito de frenagem com material especial de absorção de energia;
- sistemas de drenagem profunda e superficial, permitindo funcionamento mesmo sob chuva intensa;
- dispositivos de contenção lateral para evitar a saída involuntária dos veículos;
- sinalização vertical e horizontal específica, com placas de orientação antecipada;
- área de estabilização ao final do leito, destinada à parada segura do veículo.
Além das áreas de escape na Serra Dona Francisca, a Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade tem planos de implantar uma nova estrutura de segurança na SC-480, no trecho conhecido como Goio-Ên, em Chapecó, região oeste catarinense. A perspectiva é que a obra seja executada em parceria com a prefeitura. Ainda não há previsão para início da obra.
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Casos confirmam risco elevado na Serra Dona Francisca
Dados da Polícia Militar Rodoviária (PMRv) reforçam a situação crítica do trecho. No acumulado do último ano, foram registrados 59 acidentes na SC-418 entre os kms 10 e 18, correspondente à Serra Dona Francisca. No período, 56 pessoas ficaram feridas, incluindo uma morte.
Conforme os registros da polícia, 42% dos sinistros envolveram veículos pesados — foram 22 acidentes com caminhões e três com ônibus. A curva do km 16,700, a primeira no sentido de descida da serra, concentra as ocorrências mais graves.
A corporação fiscaliza a velocidade na região com radares eletrônicos móveis, e avalia que as áreas de escape funcionam como uma camada adicional de segurança. A PMRv considera que é uma ferramenta crucial de prevenção, especialmente para veículos de grande porte em situações de emergência, reduzindo a severidade dos acidentes.
A Gazeta do Povo questionou a Polícia Militar Rodoviária (PMRv) e a Secretaria de Infraestrutura (SIE) sobre os prejuízos financeiros provocados por acidentes de trânsito na Serra Dona Francisca. No entanto, Santa Catarina não dispõe de estudos que mensurem o impacto financeiro desses acidentes nas rodovias do estado.
A Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina (Fetrancesc) informou que está elaborando um estudo para traçar um panorama geral do setor. Entre os dados previstos, está a estimativa do custo dos acidentes nas rodovias catarinenses porém, nas federais, e não estaduais como é o caso da Serra Dona Francisca.

Setor de transportes vê avanço, mas alerta para limites
Para o presidente da Fetrancesc, Dagnor Schneider, a Serra Dona Francisca reúne um conjunto de fatores que elevam o risco de acidentes: geografia acidentada, curvas fechadas, declives prolongados e tráfego intenso de cargas e veículos leves.
“O histórico da rodovia, incluindo a tragédia de 2015, evidencia que se trata de um trecho com alto potencial de acidentes graves. As áreas de escape são uma solução extremamente relevante e certamente contribuirão para a preservação de vidas”, avalia.
Schneider ressalta, no entanto, que o dispositivo não elimina os riscos. “As áreas de escape atuam em situações específicas, não substituem investimentos contínuos em infraestrutura, fiscalização, manutenção viária e, principalmente, na capacitação dos motoristas. Programas de formação profissional seguem sendo fundamentais”, defende.
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Experiência do Paraná reforça potencial das áreas de escape
No Paraná, a experiência com áreas de escape reforça o potencial do equipamento. Na BR-277, em Morretes, a concessionária EPR Litoral Pioneiro revitalizou a estrutura do km 36 e anunciou a construção de uma nova área no km 46.
Desde março de 2024, o dispositivo foi acessado 32 vezes, o que teria sido peça-chave para potencialmente salvar 107 vidas, segundo cálculo da concessionária. A principal causa relatada pelos motoristas para o acesso foi falha no sistema de freios, em 15 ocorrências.
Os caminhões envolvidos transportavam mais de 370 toneladas de cargas, incluindo soja, açúcar, frango e até 45 mil litros de biodiesel. A área de escape paranaense tem 180 metros de extensão, é preenchida com 360 toneladas de cinasita e tem capacidade para parar um caminhão de 57 toneladas a 140 km/h.
Fonte: Gazeta do Povo



