Nos últimos oito meses, ao menos seis vereadores de diferentes cidades da Bahia foram presos em operações que investigam ligação com facções criminosas, tráfico de drogas, homicídios e lavagem de dinheiro. Entre os investigados, parte mantém conexão direta com os grupos Bonde do Maluco (BDM) e Primeiro Comando da Capital (PCC), enquanto outros têm vínculo com o Comando Vermelho (CV), mostrando a presença de redes criminosas com alcance interestadual.
As investigações, conduzidas por forças integradas da Polícia Civil, Militar, Federal e pelo Ministério Público, resultaram em prisões, bloqueio de bens, apreensão de armas e documentos. Os órgãos apontam que os mandatos eletivos teriam sido utilizados como instrumentos de facilitação de atividades ilícitas e de movimentação financeira milionária, incompatível com a renda declarada dos investigados.
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Especialistas em segurança pública avaliam que o cenário se aproxima do conceito de “narcoestado”, em que instituições políticas e judiciárias são influenciadas ou instrumentalizadas por organizações criminosas, com agentes públicos atuando simultaneamente como representantes do Estado e integrantes de redes criminosas.
Presidente da Câmara preso e ligação com facção
Um dos casos mais recentes ocorreu nesta quarta-feira, 08, no extremo-sul baiano. O presidente da Câmara de Guaratinga, Paulo Chiclete (PSD), foi preso durante a Operação Vento Norte, conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público da Bahia.
As investigações apontam que o vereador teria ligação com o chamado Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), grupo associado ao Comando Vermelho (CV). Durante o cumprimento dos mandados, uma pistola calibre .380 foi encontrada na residência do parlamentar.
A operação teve alcance regional, com prisões e buscas em cidades como Eunápolis, Guaratinga e Itagimirim. Ao todo, foram cumpridos 12 mandados de prisão, além do bloqueio de R$ 3,8 milhões distribuídos em 26 contas bancárias ligadas aos investigados. Parte dos mandados também foi executada dentro do sistema prisional, em diferentes estados.
Vereador apontado como líder de facção
Outro caso que reforça o alerta sobre a presença do crime organizado na política envolve o vereador conhecido como “Nem Nem de Augusto” (MDB), de Cabaceiras do Paraguaçu.
Ele foi preso em Salvador, em fevereiro deste ano, após meses foragido. De acordo com a Polícia Civil, o parlamentar é apontado como líder do Bonde do Maluco (BDM) na região, além de ser suspeito de participação direta em homicídios.
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No momento da prisão, tentou fugir pelo telhado do imóvel onde estava escondido. As investigações indicam envolvimento no assassinato de um homem encontrado morto na zona rural de Governador Mangabeira, além de atuação no tráfico de drogas.
Vereadores do BDM
Em outubro do ano passado, no sul da Bahia, a Operação Frater Dominus revelou um esquema estruturado com atuação em dois estados, ligação direta com facção criminosa e presença de agentes públicos.
A ofensiva foi coordenada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO/Ilhéus), com participação das polícias Civil, Militar, Federal e Penal, além de forças de Sergipe. Mais de 150 policiais participaram da ação.
Foram cumpridos 20 mandados de prisão e 16 de busca e apreensão em cidades da Bahia e de Sergipe. As investigações indicam que o grupo movimentou mais de R$ 20 milhões em atividades ligadas ao tráfico de drogas, armas, homicídios e lavagem de dinheiro.
Segundo a polícia, a organização criminosa tem ligação com o Bonde do Maluco (BDM), uma das principais facções em atuação no estado, com ramificações e alianças interestaduais.
Entre os alvos, estavam dois vereadores:
- Em Ubaitaba, George Everton Santana (PCdoB) foi preso em flagrante com R$ 130 mil em espécie. O valor é analisado como possível produto de lavagem de dinheiro.
- Em Maraú, Jeazi Assunção, conhecido como “Cara de Nike” (Avante), foi alvo de mandado de busca, dentro do mesmo inquérito.
As investigações apontam que o grupo possuía estrutura hierarquizada, com divisão de funções e participação de agentes públicos apontados como facilitadores do esquema criminoso.
Esquema bilionário e núcleo político
A Operação Anátema revelou um dos cenários mais complexos já investigados no estado, com movimentação estimada em mais de R$ 4,3 bilhões e atuação direta de uma estrutura ligada ao crime organizado.
De acordo com a Polícia Civil, o grupo criminoso tem ligação com o Bonde do Maluco (BDM), facção baiana que mantém conexão com o Primeiro Comando da Capital (PCC), ampliando sua atuação para além do estado e consolidando uma rede interestadual de tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.
As investigações apontam que essa associação entre facções fortalece a capacidade operacional do grupo, com divisão de territórios, compartilhamento de rotas e suporte logístico entre organizações criminosas.
Coordenada pelo Departamento de Repressão ao Crime Organizado (Draco), a operação identificou uma estrutura dividida em três núcleos:
- Operacional, responsável pelo tráfico de drogas, armas e execução de crimes violentos;
- Financeiro, voltado à lavagem de capitais por meio de empresas de fachada;
- Político, formado por agentes e lideranças com influência institucional, responsáveis por facilitar a atuação da organização e ampliar sua proteção.
Entre os alvos desse núcleo político estão:
- O vereador Ailton Leal (PT), de Santo Estevão, foi preso em setembro de 2025, sob suspeita de utilizar um posto de combustíveis como instrumento de lavagem de dinheiro para a organização criminosa ligada ao BDM. No local, foram apreendidos valores em espécie, cheques, contratos e identificados indícios de sonegação fiscal.
- O vereador Marcão do Pipa (PSB), de Jaguarari, inicialmente alvo de busca e apreensão, acabou sendo preso em dezembro de 2025, durante a segunda fase da operação. Ele é investigado por integrar um braço do esquema responsável por movimentações financeiras ilícitas destinadas à facção.
Segundo a polícia, o envolvimento de agentes políticos nesse tipo de estrutura evidencia um nível mais sofisticado de infiltração do crime organizado, em que o poder público passa a ser utilizado como suporte estratégico para atividades ilegais.
Fonte: A Tarde



