“Sirât” é a prova de que o Oscar não será fácil este ano –
Desde quando estreou na competição do Festival de Cannes, ano passado, Sirât já fazia bastante barulho – literalmente. A música eletrônica é um elemento central da trama, potencializada pelas gigantes caixas de som instaladas no meio da paisagem desértica. No entanto, é o tratamento da violência e do sofrimento seu ponto de maior polêmica.
O diretor franco-espanhol Oliver Laxe lança seus personagens no coração do deserto marroquino, em meio a raves lotadas de gente estranha e ensandecida, para criar uma grande alegoria sobre a vida e as dores que colecionamos enquanto tentamos passar pela existência.
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Para tal, elege um pai (Sergi López) com seu filho pequeno (Bruno Núñez) que buscam o paradeiro da filha/irmã mais velha, possivelmente embrenhada por entre festas e curtições no deserto. Nada sabemos dos reais motivos de sua fuga (se é que, de fato, ela fugiu) ou maiores detalhes dos imbróglios de família que os separam. O pai, em especial, parece muito empenhado na busca, emocionalmente precisado de reencontrar a jovem.
Tanto que leva o filho pequeno para um universo que eles pouco conhecem e soam mesmo como corpos estranhos naquele lugar. No entanto, o mais importante aqui é o trajeto que eles irão seguir na sua busca e bem menos as razões ou os desdobramentos do conflito familiar que se desenha ali.
Sirât é uma verdadeira experiência sensorial e sonora, intensa na maneira como o som pulsa na paisagem inóspita e grandiloquente do deserto, na forma como as pessoas se entregam à música e a uma catarse quase espiritual, de transcendência através do som e do movimento do corpo. Mas é também uma provação diante da imprevisibilidade do destino.
O filme demora um pouco para chegar a seu verdadeiro ponto de provação, mas será implacável quando isso acontecer. Por conta disso, tem sido caracterizado como sádico por muitos espectadores.
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Humanismo e violência
Isso porque, se a trama prenuncia tragédias desde o seu início, é apenas por volta da metade que eclode o evento desolador a marcar uma virada inesperada no caminho dos personagens, a grande derrocada em direção ao horror.
A partir daí, até o final acachapante, o filme segue em uma escalada de tensão e adrenalina incapaz de deixar qualquer expectador impassível, para o bem ou para o mal. Pai e filho fazem amizade com um grupo de amigos que estão curtindo a rave. Toda a festa será ameaçada por forças militares que põem fim à alegria, sem muitas explicações contextuais e políticas. Mas o grupo consegue escapar e empreende uma viagem solitária deserto adentro.
É através da jornada desse grupo e das provações que eles enfrentam que Laxe empreende sua visão sobre o calvário da vida. De fato, a narrativa passa pela selvageria do mundo, uma espécie de danação que todos nós, de maneiras bastante distintas, temos que enfrentar. Naquilo que muitos enxergam apenas como violência gratuita, no entanto, é possível perceber a mão trágica do acaso a se abater sobre os Homens.
Sirât está indicado na categoria de Filme Internacional no Oscar e é concorrente direto do brasileiro O Agente Secreto. Apesar de não ameaçar uma possível vitória do norueguês Valor Sentimental, de Joachim Trier, ou mesmo do concorrente brasileiro, mostra como essa categoria vem forte este ano, junto com outro filmaço que é Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi.
Alegoria da vida

A senha está dada já na epígrafe inicial do filme: “sirât” refere-se, segundo a crença islâmica (o Marrocos tem o Islã como religião oficial), à ponte que liga o inferno ao paraíso, uma linha tênue como a lâmina de uma espada que representa o caminho da vida – e da morte também, elas que são faces da mesma moeda.
Quando Sirât revela suas verdadeiras intenções, faz os personagens viverem situações limites e impactos emocionais súbitos.
No entanto, diferente do sadismo de que é acusado (e diferente de certo cinema de choque que vem sendo praticado e comemorado por aí nos últimos anos), Sirât oferece alguma empatia: o filme e seu diretor/roteirista não parecem se divertir com o sofrimento dos personagens, não há prazer em vê-los padecer.
Não há sequer cenas mais gráficas que outros cineastas adorariam estampar como sinal de “provocação”. Pelo contrário, quando a tragédia se apresenta ao grupo, todos sofrem e sentem o peso da dor (do destino?) sobre os ombros, inclusive o espectador. Eles se ajudam como podem, mas entendem que são meras centelhas no universo.
É com pesar e sem cinismo que o filme mira no sofrimento como modo de expiação, sem se esquivar da imprevisibilidade das tragédias e da inevitabilidade das dores. Como metáfora da passagem humana pela existência, a tal ponte entre paraíso e inferno, Sirât nada mais é do que uma jornada existencial bruta travestida de festa.
Em determinado momento, o grupo encontra um jovem pastor de ovelhas, a quem pede ajuda. O rapaz, habitante local, apenas dá as costas e segue seu caminho, como a dizer: “a sua jornada não me diz respeito; eu sigo a minha, sigam a de vocês”. Parece brutal, mas é só a vida acontecendo. E, afinal de contas, a vida não é feita disso, som e fúria, dança e morte?
Sirāt (Idem) / Dir.: Oliver Laxe / Com Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Richard Bellamy, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Tonin Janvier, Jade Oukid / Salas e horários: cinema.atarde.com.br
Fonte: A Tarde



