Dona Suzana, chef e proprietária do Re-restaurante, na Gamboa –
Entre casarões centenários e a vista deslumbrante da Baía de Todos-os-Santos (BTS), o bairro do Comércio vem se consolidando como um polo gastronômico que une tradição e modernidade, atraindo moradores e turistas em busca de sabores que traduzem a alma baiana.
Conhecido por sua importância histórica e arquitetônica, quando o assunto é gastronomia, o bairro do Comércio vai além da comida, onde os restaurantes valorizam a história e o patrimônio arquitetônico, criando experiências culturais, saborosas e memoráveis.
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“O que me fez conhecida foi a minha força”, afirma Suzana de Almeida Sapucaia, proprietária do Ré Restaurante Dona Suzana. Localizado no Solar do Unhão, com uma vista incrível da BTS, o espaço entrega o que há de melhor na região do Comércio: mar, aconchego e boa comida.
Dona Suzana teve sua história contada na Netflix (Street Food: América Latina, 2020) e recebe dezenas de turistas e locais todos os dias. “Sou baiana e minha comida é o que me mantém viva. Hoje, aos 70 anos, sigo trabalhando para sobreviver e sou feliz, porque realizei meu sonho de ter meu próprio negócio e ajudar meu marido com o barco”, conta.
Famosa por sua moqueca – de peixe, polvo, lagosta, camarão ou a que leva tudo isso junto – Dona Suzana acompanhou de perto a mudança da região. Algumas mudanças, inclusive, começaram a partir dela.
“Fui a primeira a abrir um restaurante no Solar e a região só foi crescendo, com muita gente abrindo seus comércios por aqui. Hoje você consegue comer de tudo. A região do Comércio como um todo tem mudado e crescido muito. É um bairro que sempre tem seus altos e baixos, mas acho que agora está em um desses momentos bons”, afirma.
O movimento gastronômico atual vem sendo influenciado pela própria revitalização que o Comércio tem passado, o que só reforça sua vocação como espaço de convivência e lazer. Um bom exemplo são os restaurantes que há cerca de três anos ocupam o Doca1: o Dona Mariquita Casa de Veraneio e o Caramurê – Café, Arte de Livros.
Proprietária do Dona Mariquita, Leila Carreiro conta que, quando foi convidada para instalar o restaurante na região, olhou para a ilha do outro lado da BTS e imaginou um restaurante com base em suas memórias afetivas dos veraneios na ilha, marcada pela abundância de mariscos como peguari, sururu, sarnambi e carangondé.
“Mas o público acabou vindo ao novo restaurante atrás dos clássicos do Dona Mariquita do Rio Vermelho, como sarapatel, rabada, feijoada e moqueca, então precisei adaptar a proposta. Mas não criei nada, meu trabalho é de pesquisa: leio livros antigos e procuro ingredientes, formas de preparo e apresentações que deixaram de ser usadas ou foram descaracterizadas. Foi assim que trouxe a poqueca para o menu, que é uma moqueca servida em folha de bananeira. A receita é de Prado, no extremo sul da Bahia, e duas clientes me ensinaram. É popular entre os clientes mais velhos, pois eles lembram de quando comeram tempos atrás”, explica Leila.
Vizinho da inigualável comida patrimonial do Dona Mariquita, a gastronomia regional e contemporânea do espaço gastronômico criado pela editora de Fernando Oberlaender, o Caramurê, mistura arte, literatura, cultura e boa comida.
“Há 30 anos trabalhamos com literatura e decidimos unir essa arte à gastronomia e à música. Queríamos um espaço que tivesse uma vista aprazível e que refletisse a beleza estonteante da nossa cidade, então nada mais simbólico do que a Baía de Todos-os-Santos. Tem sido incrível estar nesse espaço, mas apostar nessa área continua sendo desafiador”, explica Marzia Chastinet, que junto com o marido Fernando, comanda o restaurante.
Todos os pratos do Caramurê são nomeados com títulos de livros e poemas, há exemplo do arroz de coco cremoso com camarão flambado no whisky e na cachaça, abacaxi, castanhas trituradas e farofinha de castanhas que se chama “Mar que nos abraça” (Marcus Vinícius Rodrigues) e o purê de banana da terra, com fumeiro desfiado, arroz branco e crispy de aipim, que se chama “Segredo das Pipas” (Damário Dacruz).
“O meu preferido é o Navegação Kirimurê, um gnocchi de banana da terra com molho de moqueca de camarão, inspirado no poema de um amigo”, conta Fernando Oberlaender.
Veterano na região do Comércio, o Restaurante Juarez já tem 70 anos, sempre com um prato como carro-chefe, o filé mignon alto: torrado por fora (quase preto) e vermelho/suculento por dentro, o filé é chamado por muitos de diamante negro. Conhecido pelo mundo, muitos turistas – de dentro e de fora do Brasil -, e moradores locais vão até o Comércio só para comer o filé.
“O filé do Juarez é quase uma lenda, né? Minha mãe, por exemplo, que trabalhava no Comércio há uns 30 anos atrás, lembra até hoje dos almoços no Juarez, sempre diz que não existe filé igual ou melhor”, conta a cabeleireira Luísa Santana.
A história do Juarez começa em 1955, quando o italiano Luís Miranda Formigli e o baiano – natural de São Félix – Juarez Zenóbio da Silveira, amigos de longa data, resolveram se tornar sócios e abrir uma cantina. A receita do famoso filé foi ensinada por um amigo de Juarez, que deu alguns toques próprios.
“Na baixa temporada saem em média 30 filés por dia, na alta chega a 80. Vem gente de todo o mundo e clientes antigos sempre falam como o sabor continua o mesmo. Isso é tradição, não é? Temos funcionários com décadas na casa, inclusive nossa cozinheira chefe, que está com a gente há 47 anos”, conta o atual gestor, Agnoel Torres de Freitas, filho de consideração de Juarez.
E falando em Itália… É mostrando o melhor da união entre a comida baiana e a italiana, que o Mistura Contorno está completando 10 anos seguindo a premissa de que o alimento é a base de tudo, entregando uma culinária mediterrânea e a brasileira.
“O Mistura é um restaurante que nasceu na praia, cresceu no mar, bem próximo a colônia de pesca Z6, na Praia de Itapuã, e até hoje mantém uma relação muito forte com os pescadores da região. Exatamente porque o conceito do Mistura Contorno é trabalhar com produtos frescos e trazer para a mesa ingredientes com origem de qualidade, valorizando também as associações e produtores locais”, explica a chef e proprietária, Andréa Ribeiro.
O Grupo Mistura já tem mais de 30 anos em Salvador – com o Mistura Farol de Itapuã sendo o irmão mais velho – e é referência em pescados e frutos do mar.
“O Mistura Contorno é um restaurante para celebrar e contemplar a natureza, pois estamos debruçados sobre a Baía de Todos-os-Santos, próximos a vários cartões postais e culturais do Comércio e do Centro Histórico da capital baiana”, pontua a chef, que conta ser um desafio dizer qual o prato que ela mais gosta.
“O Spaghetti de frutos do mar, por exemplo, tem um charme especial e é um dos preferidos tanto por trazer toda a simbologia da nossa cozinha do mar quanto o conceito da massa italiana, o que me remete ao começo de tudo”, conta.
Mas o carro-chefe do Mistura Contorno é o Grelhado de frutos do mar, que traz diferentes frutos do mar, entregando uma diversidade de sabores e uma apresentação de nos fazer comer com os olhos. Mostra, inclusive, o quão diverso é o alimento que o mar da Bahia nos entrega e nos faz refletir sobre o quanto a nossa gastronomia é rica, mesmo em seus mínimos detalhes.
“Acho que podem falar de tudo do bairro do Comércio, mas a comida que você encontra aqui é boa demais”, afirma a aposentada Antônia Cerqueira (72), que mora no bairro do Uruguai, mas sempre circulou muito pelo Comércio. “Do restaurante mais chique ao mais simples, tudo é delicioso. A verdade é que a comida da Bahia é de outro mundo”, afirma.
Fonte: A Tarde



