Foi sem alarde que, no início dezembro, o Ministério da Saúde anunciou o encerramento da “sala de situação” criada dois meses antes para monitorar e atuar diante da crise provocada pela explosão de casos de contaminação de pessoas pela substância química altamente tóxica metanol, especialmente no estado de São Paulo, notificados pelo menos desde o final de outubro do ano passado.
Desde então, foi “oficialmente” considerada encerrada uma crise de saúde pública na qual algumas das piores facetas da debilidade da segurança pública brasileira — com sua expressão máxima, as facções criminosas — se encontram por acaso para deixar um rastro devastador de vítimas e prejuízos.
O último caso confirmado de intoxicação por metanol foi registrado em 26 de novembro de 2025 e era relativo a uma pessoa que apresentou os primeiros sintomas no dia 23 do mesmo mês. Com a redução expressiva de novos casos e óbitos, o ministério considera que um cenário de estabilidade epidemiológica está consolidado.
Entre 26 de setembro e 5 de dezembro de 2025, foram registradas 890 notificações relacionadas à intoxicação por metanol. Até o dia 18 de dezembro, foram confirmadas 23 mortes por intoxicação por metanol: 11 em São Paulo; 3 no Paraná; 5 em Pernambuco; 1 na Bahia e 3 em Mato Grosso. Outros 9 óbitos ainda estão em investigação — 5 em São Paulo, 3 em Pernambuco e 1 em Alagoas.
Quando dois crimes se encontram por acaso, quem paga a conta em dobro é o consumidor.
Na parte policial, a crise revelou-se tanto um problema estrutural quanto fruto do acaso, um encontro natural dentro da situação de descalabro que vive a segurança pública brasileira: quadrilhas de falsificação de bebidas alcóolicas, inadvertidamente, teriam utilizado em seus produtos falsos álcool combustível (etanol), adquirido em postos de gasolina da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que por sua vez teria sido falsificado com metanol importado ilegalmente, dando origem às intoxicações.
A situação expôs o entrelaçamento de intrincadas redes operadas por facções criminosas que vão desde a importação ilegal de metanol, passando por centenas de postos de gasolina e falsificação de combustíveis, até a falsificação de bebidas e sua assustadora penetração no setor de bares, restaurantes e distribuidores de bebidas alcoólicas no geral, como adegas.
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Crise do metanol provocou prisões e interdições de distribuidoras de bebidas irregulares
Em São Paulo, epicentro da crise, o governo e a polícia agiram rápido em diversas frentes, em uma força-tarefa. Até o dia 14 de outubro, cerca de 20 dias após o início da crise, as polícias Civil e Militar registraram 57 prisões por venda irregular ou adulteração de bebidas, além do fechamento de pelo menos quatro grandes fábricas de bebidas falsificadas, principalmente na região metropolitana da capital.
Também foram interditadas distribuidoras irregulares de bebidas e fechados ou multados centenas de estabelecimentos comerciais pela comercialização de bebidas alcoólicas sem confirmação de procedência, como nota fiscal. Uma investigação da Polícia Civil apontou que a maioria das bebidas alcoólicas adulteradas envolvidas na crise do metanol pode ter origem em uma mesma fábrica clandestina, administrada por uma família na região metropolitana de São Paulo.
Segundo a apuração, os suspeitos compravam etanol adulterado com metanol de dois postos de combustíveis da região, usados como fornecedores da matéria-prima tóxica, que por sua vez pertenciam à facção criminosa PCC. O delegado-geral da Polícia de São Paulo, Artur Dian, disse no final de outubro que todas as bebidas adulteradas com metanol no estado saíam de uma fábrica clandestina gerenciada por uma família em São Bernardo do Campo.
A principal responsável pelo esquema foi presa em flagrante ainda em outubro. “Todas as bebidas saíram do círculo familiar dessa suspeita”, afirma Dian. “Esse círculo (de investigação) foi fechado. Nós temos essas comprovações”, completou.
O então ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, havia anunciado a criação de um comitê para discutir os casos de intoxicação por metanol, coordenado pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), e determinado que a Polícia Federal abrisse inquéritos para investigar a origem do metanol nas bebidas adulteradas.
“O que aconteceu foi uma ocorrência gravíssima, que trouxe grande reflexos na saúde pública. (…) A estabilidade que alcançamos agora é resultado de todo o esforço e empenho dos envolvidos, principalmente do governo do Brasil”, disse o ministro na ocasião.
Entre as ações da PF, em 16 de outubro foi deflagrada a operação Alquimia, que teve como alvo 24 empresas do setor sucroalcooleiro e importadores e distribuidores de metanol em cinco estados. As amostras coletadas foram sendo analisadas pelo Instituto Nacional de Criminalística e comparadas com as bebidas adulteradas.
Crise do metanol instigou a realização de operações Brasil afora
A operação Fronteira, também realizada pela Receita Federal, em outubro, apreendeu 215 mil litros de bebidas alcoólicas em depósitos clandestinos em Fortaleza (CE) e Maringá (PR). Durante a operação, foram apreendidas centenas de garrafas de aguardente, insumos utilizados na adulteração — como álcool etílico e corantes — e recipientes lacrados contendo as bebidas.
Entre 29 de setembro e 27 de novembro, o Ministério da Agricultura e Pecuária fez 137 ações de fiscalização, que resultaram na apreensão de impressionantes 793 mil litros de bebidas alcóolicas irregulares, avaliados em aproximadamente R$ 11,8 milhões. Nesse período, também houve o fechamento cautelar de 22 estabelecimentos, além da lavratura de autos de infração, intimações e coleta de amostras para análise laboratorial.
Além disso, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, atuou desde o início da crise, emitindo orientações voltadas aos Procons, varejistas e distribuidores de bebidas sobre como evitar a comercialização de produtos fraudados. Por fim, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), do mesmo ministério, capacitou peritos e compartilhou protocolos técnicos para a identificação do metanol nas bebidas.
A crise passou, a insegurança não
Nesse cenário de tentativa de retomada de controle da situação, a crise passou, mas a sensação de insegurança, não. Enquanto consumidores, bares e vendedores de maneira geral tentam retomar a vida normal, o Ministério da Saúde repassou aos estados insumos clínicos essenciais para o atendimento de intoxicações por metanol.
Foram enviadas 1,5 mil ampolas de fomepizol e 4.806 unidades de etanol aos estados. A distribuição priorizou áreas com maior número de casos e circulação de bebidas adulteradas. O Ministério da Saúde mantém ainda estoque estratégico de 2,6 mil ampolas de antídoto aos estados.
O prejuízo com adulteração de bebidas cresceu R$ 67,6 bilhões entre 2020 e 2025, segundo dados do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade. Considerando todos os tipos de produtos falsificados e a sonegação de impostos, o Brasil perdeu R$ 468,3 bilhões com o mercado ilegal no ano passado. De todo esse prejuízo, R$ 85,2 bilhões foram apenas com a falsificação de bebidas alcoólicas — ou seja, cerca de 18,2% do montante total.
Fonte: Gazeta do Povo



