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PT falha na busca por outsiders contra a direita nas eleições

Ex-jogador de futebol, sambista e ator global. O cardápio do PT para outsiders — pessoas associadas como sendo de fora do ambiente habitual da política — de olho nas eleições de 2026 parecia promissor no eixo Rio-São Paulo, mas o ano eleitoral não terá muitas novidades em relação aos candidatos de esquerda exteriores ao circuito tradicional da política.

Diferente do movimento à direita, que adotou uma posição antissistema nas últimas eleições e passou a influenciar o debate político nas redes sociais, a esquerda ainda tem dificuldade em modular o discurso para os meios digitais e tentou recorrer a nomes da TV, da música e do futebol na tentativa de se aproximar do eleitorado.  

O único nome petista entre os outsiders é o ator José de Abreu, cotado como pré-candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro pelo vice-presidente nacional do PT, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá. Nome conhecido do público brasileiro pelas novelas da Rede Globo, Abreu é um antigo militante de esquerda, que coleciona polêmicas por causa da postura radical.

No início de fevereiro, Quaquá elogiou Abreu nas redes sociais e deu a entender que o ator — amigo pessoal do dirigente petista — irá disputar o cargo de deputado federal pela sigla em outubro. Em 2024, o prefeito reeleito de Maricá convidou Abreu a ocupar o cargo de diretor municipal de projetos de artes cênicas e audiovisual. Um ano antes, os dois viajaram juntos para Cuba.

A tentativa de emplacar o ator televisivo como candidato a deputado federal vem depois da frustração do vice-presidente petista em lançar um dos maiores nomes da história do carnaval carioca como pré-candidato ao Senado. O sambista Neguinho da Beija-Flor foi cortejado pelo PT durante 2025 com a pré-candidatura defendida por Quaquá para fazer oposição à reeleição do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — na direita, este cenário também se alterou com o lançamento da pré-candidatura presidencial do filho do ex-presidente da República Jair Bolsonaro.

Dentro do PT fluminense, havia resistência ao plano de Quaquá, pois o nome do sambista da Beija-Flor de Nilópolis poderia inviabilizar a candidatura ao Senado da ex-governadora e deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ). Com a desistência de Neguinho da Beija-Flor no início deste ano, ela deve ser a candidata petista.

Enquanto isso, a direita ainda procura um nome para substituir o ex-governador Cláudio Castro (PL), que perdeu os direitos políticos ao ser condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Raí foi cotado para disputar Senado e compor chapa ao governo  

Ídolo do São Paulo Futebol Clube, o ex-jogador Raí foi cotado entre as figuras de fora da política partidária tradicional que poderiam reforçar o time petista nas eleições de 2026. O tetracampeão mundial pela seleção brasileira estreitou a proximidade com a esquerda nos últimos anos e chegou a fazer campanha para Lula durante o segundo turno nas eleições de 2022.

Raí possui um longo histórico de militância, influenciado pelo irmão Sócrates, que morreu em 2011. O craque, que fez história no Corinthians e liderou o movimento da “Democracia Corintiana”, era um entusiasta do regime cubano do presidente Fidel Castro e apoiou Lula desde a primeira eleição direta, em 1989.

Interlocutores de partidos de esquerda confirmaram à Gazeta do Povo as conversas entre Raí e o PT paulista, mas o ídolo tricolor não se filiou ao partido até a data-limite para a disputa eleitoral. Conforme a legislação, os candidatos do pleito marcado para o dia 4 de outubro devem estar filiados pelo período mínimo de seis meses na legenda que representará nas urnas.

Além do Senado, o nome do ex-jogador de futebol foi cotado como candidato a vice-governador em uma chapa encabeçada pela ex-ministra Simone Tebet, que migrou do MDB para o PSB. Tebet teve outro destino: a disputa ao Senado por São Paulo após trocar de sigla e domicílio eleitoral.

A composição seria um “plano B” à pré-candidatura ao governo paulista do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP), que foi confirmada com a saída dele do governo federal, com o objetivo de assegurar um palanque para Lula no estado que é o maior colégio eleitoral do país.

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Nomes alternativos da direita e da esquerda possuem perfis diferentes, analisa pesquisadora

Consultora em marketing político e pesquisadora em comunicação política, Vanessa Marques lembra que os nomes que foram cotados pelo PT, como José de Abreu e Raí, são conhecidos pela atuação política, apesar de não ocuparem cargos públicos. Essa característica distancia a esquerda do discurso antissistema, que marca o movimento da direita desde a vitória de Jair Bolsonaro na corrida eleitoral em 2018.

“A direita soube explorar essa crise de representação. Ela usou uma linguagem muito mais personalizada, mais performática, na questão do antissistema, associado ao crescimento das redes sociais para representar, para aproximar o diálogo com o próprio eleitor”, avalia.

Por outro lado, a esquerda apresenta dificuldades na comunicação efetiva com o público mais engajado nas redes sociais. “Ela opera mais na densidade programática, na mediação, e menos no discurso da antipolítica. Ou seja, a esquerda pensa mais [nas eleições] sobre a lógica da renovação política. São duas lógicas de construção totalmente distintas”, compara.

Com uma característica mais próxima do discurso “institucional partidário”, ela afirma que o PT tem dificuldade em “criar narrativas competitivas no espaço digital”.

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Dentro do sistema, políticos mantêm discursos de outsiders

Segundo a pesquisadora, políticos eleitos podem manter o discurso de outsiders mesmo após passar a fazer parte do poder público ou de ser eleito pelas urnas. Em 2018, de acordo com ela, o ex-presidente Bolsonaro se vendeu como um outsider, mas estava na política há mais de 30 anos.

“O fato não é estar na política. É fazer a comunicação com base em um programa de antipolítica, de antissistema e de confronto. São elementos que fazem ele adquirir essa roupagem de outsider”, opina Marques.

Nas próximas eleições, a pesquisadora cita o presidenciável Romeu Zema (Novo-MG) como um exemplo de alguém considerado de fora do meio habitual e que mantém o discurso de antipolítica, mesmo após ocupar o cargo de governador mineiro por dois mandatos. O empresário foi eleito em 2018, após se filiar ao partido Novo para disputar aquela que foi a sua primeira eleição.

“O Zema tenta se apropriar dessa nova roupagem. Diz que não tem medo, que é o único pré-candidato que faz críticas diretas ao STF e que administra como se o estado fosse uma grande empresa”, diz a pesquisadora. “Também é um pouco da lógica do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), quando ele afirma que o país precisa de um CEO [diretor-executivo]”, completa.

Fonte: Gazeta do Povo

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