Entre a alta estação no turismo de verão e a maré baixa do inverno, a vila de Morro de São Paulo, no município de Cairu, no baixo sul da Bahia, vive uma tensão que vai além do fluxo de visitantes. Soldados israelenses chegam em massa aos destinos turísticos baiano para passar férias. Mas o que explica a presença massiva deles?
O que motiva o turismo na Bahia?
O fluxo de turismo entre soldados israelenses na Bahia não é novo, mas que se intensificou após uma produção audiovisual estrangeira gravada em Morro de São Paulo anos atrás.
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Essa é a série Malabi Express, inspirada no livro autobiográfico do comediante Miki Geva, ao explicar o aumento da presença de jovens israelenses em Morro de São Paulo.
A produção retrata a viagem de amigos ao Brasil após o serviço militar obrigatório e contribuiu para consolidar a vila baiana como destino entre recém-licenciados das Forças Armadas de Israel.
Vista aérea de Morro de São Paulo, na Bahia
Apagamento cultural
A empresário María Florencia relatou à reportagem do Portal A TARDE a existência de uma desvalorização de serviços, pedidos frequentes de desconto – “10 a menos, 20 a menos[reais]”- e resistência ao pagamento de taxas em restaurantes. Ele também ressalta os conflitos em pousadas e acidentes com quadriciclos.
Segundo María, a Segunda Praia em Morro de São Paulo estaria “setorizada”, com redes de indicação internas e pouco intercâmbio com moradores, já que parte dos comerciantes apagaram a cultura local para criar um cenário voltado ao consumo hebraico.
A empresária, que se declara pró-Palestina, afirma ter sofrido pressão após se manifestar com a ativista Lisi Proença. Diz que grupos teriam fotografado sua barraca e divulgado em redes para boicote. Para ela, há medo entre trabalhadores e uma postura permissiva do poder público diante do peso econômico do grupo.

Turistas chegando a Morro de São Paulo, na Bahia
Vitória Borges, empresária de hotelaria e assessora do movimento Palestina livre Morro de São Paulo – que defende o “turismo ético” -, diz que o desafio é conseguir que as pessoas se posicionem.
Ela afirma que há mais gente irritada do que favorável, no no entanto, muitos dependem financeiramente do turismo e evitam se expor. O Palestina livre Morro SP, de acordo com ela, não é contra turistas, mas contra práticas que consideram desrespeitosas e contra a adaptação irrestrita das regras locais.
Se, de um lado, comerciantes celebram o impacto econômico da presença massiva de turistas israelenses, de outro, moradores e trabalhadores relatam incômodos que vão da mudança na rotina cultural a conflitos pontuais.
Um desses, foi o episódio envolvendo a ativista Lisi Proença, que teve uma bandeira da Palestina tomada por moradores da ilha, no último dia 12. A situação aconteceu na Segunda Praia, e, de acordo com ela, os homens agiram em defesa dos israelenses.
A discussão ganhou força nas últimas semanas, com vídeos circulando nas redes sociais e relatos divergentes sobre comportamento, consumo e convivência. Enquanto parte da população defende o acolhimento irrestrito, outra cobra limites e fala em “turismo ético”.
Impactos nas finanças
A artista Demi Oliveira, moradora de Morro de São Paulo desde 2018, afirma que a temporada marcada pela forte presença de turistas israelenses tem sido motivo de incômodo recorrente.
Segundo ela, ao longo dos anos, passou a notar diferentes prejuízos à comunidade de artistas locai, inclusive financeiros, tanto para ela, quanto para outros artistas que trabalham na vila. Para Demi, falta compreensão sobre o trabalho artístico e o esforço envolvido nas apresentações.
Acho que eles não têm a consciência de como é feito o nosso trabalho: dedicação, repertórios, força física para carregar o material,
Ela lembra que eles [israelenses] sabem da existência da cobrança pela música e que alguns chegam a interagir com a apresentação, mas se recusam a pagar o couvert.
“As vezes, dois, três grupos já enchem o restaurante e, no final, a gente recebe somente mínimo fixado. Já cheguei a me apresentar por 4 horas e, no final, receber zero reais. Desde então, só trabalho com quem paga o mínimo”, conta ela.
Demi afirma ainda que este não é um problema enfrentado só pelos artistas, mas que atinge também outras categorias. “Os caixas e garçons sempre comentam que eles não costumam pagar nem o couvert e nem 10%”.
O desconforto, segundo a artista, vai além dos espaços de apresentação. Ela cita a “bagunça, o lixo e a ocupação das praias com altinhas”, descrevendo cenas em que “não sobra espaço para ninguém, com bolas rolando para todos os lados”.
Ela pontua que a situação tem alterado a dinâmica da orla e impactado diretamente a convivência entre moradores e visitantes.
Outro ponto destacado é o que ela chama de falta de integração com a cultura local. A artista afirma que muitos não demonstram interesse em aprender “o mínimo da nossa língua” e que, frequentemente, “tudo tem que ser adaptado para eles”.
Ela também observa que há pouca procura por comidas típicas baianas, como o acarajé. “A questão do lixo é a que mais me impacta”, diz, relatando que, após a passagem diária dos grupos, a praia “fica surreal”, exigindo equipes de limpeza atuando “de manhã, à tarde, à noite e até de madrugada”.
“Muitas situações são abafadas”
Morador da ilha há 15 anos e trabalhador do comércio local, Everardo Silva classifica a situação como “problemática demais”. Ele afirma que, quase sempre, há tentativas de “ajustar o cardápio” e reclamações na hora de pagar a conta.
Conforme ele, funcionários de pousadas, hotéis e restaurantes “têm medo de falar” por receio de retaliações e que muitas situações de brigas e confusões, terminam sendo “abafadas”.
Embora nunca tenha sofrido agressão, relata ter ouvido histórias de conflitos e consumo excessivo de drogas em festas privadas.
Everardo observa que a maioria é composta por jovens, muitos em férias do serviço militar. Um amigo teria sugerido que o comportamento poderia estar ligado a traumas, hipótese que ele diz não considerar justificativa. O que mais o intriga é o perfil predominante: “É raro ver famílias ou idosos”.
Ainda assim, reconhece que o fluxo ajuda na baixa temporada, mas pondera que “trazem problemas demais que, geralmente, mesmo com a ilha cheia não temos”.
Para ele, não se trata apenas de bagunça, mas de desconforto cultural e político – embora admita que “a maioria das pessoas vai falar da bagunça e do stress, poucos vão entrar em política”.
“Não me sinto confortável sabendo que muitos ali podem ser criminosos de guerra, violações dos direitos humanos, toda a situação que está acontecendo em Gaza, Cisjordânia, Líbano e etc.”, cita ele o conflito armado entre Israel e Palestina.
“A maioria dos trabalhadores aqui se incomodam apenas pela bagunça. Mas, tenho um pensamento mais amplo. Porque pode parecer preconceito de origem, nacionalidade, mas não é”, defende-se o trabalhador.
“Generalizar não é justo”
Do outro lado do debate, empresários defendem o impacto econômico positivo. Alessandro Duque Estrada Farias de Azevedo, de 25 anos, empresário e presidente da Associação de Vendedores Ambulantes, afirma que as críticas “não são verídicas”.
Alessandro defende que são “pessoas jovens que estão viajando para extravasar” e que não fazem nada por mal.

Israelenses vestidos com a farda da empresa de Alessandro para curtir o Carnaval
Ele reconhece diferenças culturais, mas as trata como parte da diversidade. Diz que são “divertidos, comunicativos” e que fomentam diretamente a economia – do carregador de malas aos ambulantes da praia.
Muitos trabalhadores, segundo Alessandro, conseguem atravessar o inverno “financeiramente tranquilos” graças ao movimento desse período.

Para o empresário Alessandro duque, o convívio com os israelenses é amistoso
Sobre o episódio da bandeira palestina, Alessandro considera a situação “muito triste e lamentável”, mas pondera que “não podemos culpar um grupo inteiro pela atitude de dois jovens”. Ele diz que “generalizar não é justo”.
Mike Richard, empresário do setor de passeios de lancha e quadriciclo e presidente da associação do segmento, reforça que não lida com soldados, mas com “o turista estrangeiro israelense”.
Ele avalia o movimento como “muito benéfico”, por mobilizar toda a cadeia turística – do transporte em Salvador às festas e barracas de drinks.
Embora discorde do ato de tomar a bandeira, afirma que episódios assim podem prejudicar a imagem do destino e afastar um público que “nos ajuda bastante nessa época do ano”.
O que diz a prefeitura
Procurada, a Prefeitura de Cairu informou que Morro de São Paulo é um destino internacional que recebe visitantes de diversas nacionalidades ao longo do ano e que Israel está entre os países com fluxo relevante, especialmente na alta estação.
Segundo dados da Secretaria Municipal de Turismo, cerca de 15 mil turistas israelenses passaram pelo destino em 2025, representando aproximadamente 21% do público internacional no período.
No total anual, 82% dos visitantes são brasileiros e 18% estrangeiros, antes da pandemia, esse índice era de cerca de 8%.
Em nota, a gestão afirmou que a presença do público israelense ocorre “dentro da dinâmica natural do turismo internacional” e não configura exclusividade ou predominância institucionalizada.
O município declara permanecer “aberto e acolhedor a visitantes de todas as nacionalidades”, reforçando o cumprimento das normas locais por todos.
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Ainda no documento, o prefeito Hildécio Meireles declarou que o crescimento do turismo internacional é resultado de planejamento e investimentos, e que Morro de São Paulo é um patrimônio que gera emprego e renda para Cairu.
Entre relatos de renda reforçada e queixas sobre comportamento, a ilha vive um debate delicado: como equilibrar diversidade cultural, desenvolvimento econômico e respeito às regras locais.
No paraíso de águas transparentes, a discussão sobre limites, identidade e convivência segue em mar aberto.
Resumo sobre o turismo israelense em Morro de São Paulo
- Crescimento do turismo de soldados israelenses na vila de Morro de São Paulo, impulsionado pela série Malabi Express.
- Desvalorização dos serviços e conflitos culturais entre turistas israelenses e a comunidade local geram tensões significativas.
- A presença massiva de turistas traz aspectos financeiros positivos, mas também provoca descontentamento entre moradores e trabalhadores.
- Comportamentos problemáticos relatados por moradores incluem desrespeito às normas locais e conflitos, ampliando a tensão cultural.
- Prefeitura de Cairu afirma que a presença israelense é parte do turismo internacional e busca o equilíbrio entre cultura local e desenvolvimento econômico.
Fonte: A Tarde



