Está marcado para daqui a pouco mais de três meses o julgamento de mais três réus acusados de participação em um dos crimes de maior notoriedade dos últimos anos no Brasil e que revelou o tamanho da infiltração do crime organizado nas forças de segurança pública de São Paulo: o assassinato de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach.
Após a morte, no aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024, Gritzbach ficou conhecido como o delator da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Até agora, 11 PMs que participavam da escolta particular ilegal de Gritzbach que “faltou” no dia do crime foram condenados.
A Vara do Júri de Guarulhos do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) marcou para o período entre 22 e 26 de junho o júri popular de três policiais militares (PMs) acusados pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) de serem os executores do crime contra Gritzbach.
Eles também são acusados de matar o motorista de aplicativo Celso Novais, que estava no aeroporto trabalhando e morreu baleado, e ainda tentar matar duas pessoas, que ficaram feridas — nem o motorista nem as duas vítimas feridas tinham relação com o delator ou os assassinos, foram apanhados em meio ao tiroteio no aeroporto.
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O cabo Dênis Antônio Martins, o soldado Ruan Silva Rodrigues e o tenente Fernando Genauro da Silva estão presos e negam participação no assassinato. Segundo o MP-SP, Martins e Rodrigues seriam os atiradores que descem do carro e fuzilam Gritzbach à queima-roupa na via em frente ao terminal de desembarque nacional do Aeroporto Internacional de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.
Silva seria o motorista do carro utilizado pelo grupo para chegar ao aeroporto e fugir do local do crime. Ao longo da investigação, eles foram identificados por câmeras de segurança, coleta de material genético no veículo de fuga e geolocalização de aplicativos em aparelhos celulares e pelas torres de telefonia, segundo a acusação do Ministério Público.
As defesas dos três réus afirmam que eles são inocentes e esperam provar isso aos jurados durante o julgamento. Em nota, a defesa do tenente Genauro afirma que demonstrará em plenário todos elementos que comprovem que ele não teve nenhuma participação no fato.
Já a do cabo Denis Antônio disse que está confiante na sessão plenária e que “será o momento de comprovar a inocência de seu cliente”. A defesa de Ruan Silva Rodrigues afirma que a determinação do juiz para indicar as testemunhas que pretende que sejam ouvidas em plenário foi atendida, e isso deve ajudar a esclarecer o caso a favor dos PMs.
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Gritzbach delatou PCC e acusou policiais de corrupção semanas antes de ser morto
Poucas semanas antes de ser executado, Gritzbach havia delatado ao MP-SP um esquema de tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo criminosos do Primeiro Comando da Capital (PCC), do Comando Vermelho (CV) e policiais corruptos. Em troca da delação que estava em curso no MP, o empresário receberia o benefício da redução da pena caso fosse condenado por lavagem de dinheiro para as facções.
De acordo com o MP-SP, baseado na investigação da Polícia Civil, Gritzbach foi jurado de morte depois da delação de traficantes ligados ao PCC e ao Comando Vermelho (CV): Emilio Castilho, o “Cigarreira”, e Diego Amaral, o “Didi”. Além deles, a investigação do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil de São Paulo apontou o envolvimento de Kauê Coelho, o “Jubi”, que teria seguido o delator dentro do aeroporto e dado informações aos executores sobre a chegada dele.
Cigarreira, Didi e Kauê também foram acusados pelo MP, mas num processo separado dos três PMs que vão a júri no mês de junho, por envolvimento no caso dos crimes contra Gritzbach e as demais pessoas no aeroporto. A Justiça também os tornou réus, mas não marcou o julgamento deles, que seguem foragidos e são procurados pela polícia.
Pouco após o assassinato de Gritzbach, sete policiais civis delatados por ele antes de morrer, incluindo dois delegados, foram presos em uma operação conjunta do MP-SP e da Polícia Federal e em seus desdobramentos nas semanas seguintes. Também foram presos pelo menos dois empresários e um advogado. De acordo com a PF, este grupo movimentou R$ 72 milhões oriundos de corrupção, lavagem de dinheiro e elos com o PCC nos últimos cinco anos.
R$ 40 milhões de propina: o que Gritzbach delatou antes de ser morto
Em sua delação, Gritzbach acusou os policiais de cobrarem R$ 40 milhões de propina para não responsabilizá-lo pelos assassinatos de dois membros do PCC. O empresário era investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) por suspeita de ter mandado matar Anselmo Becheli Santa Fausta, o “Cara Preta”, e Antônio Corona Neto, o “Sem Sangue”, executados a tiros em 2021.
Em dezembro do ano passado, o Tribunal de Justiça Militar de São Paulo já havia condenado 11 PMs paulistas por organização criminosa — eles eram integrantes da escolta armada privada de Gritzbach, que no dia do assassinato se atrasou para buscá-lo no aeroporto por um suposto problema em um dos veículos e chegou ao local depois do crime — com penas de cinco a sete anos de prisão.
Na ocasião, todas as defesas afirmaram que iriam recorrer. Eles estavam presos desde o final de 2024 e agora cumprem a sentença em regime semiaberto.
SP bateu recorde de PMs presos em 2025.
De acordo com a sentença, os PMs condenados sabiam do envolvimento de Gritzbach com o PCC, segundo provas colhidas nos telefones celulares deles. Além disso, prestar serviços de segurança particular, mesmo em dias de folga, é ilegal e proibido pelas normas internas da polícia, apesar de ser uma prática corriqueira no estado.
Em 2025, o número de policiais militares presos no estado de São Paulo foi o maior em quatro anos. Ao todo, foram 223 PMs presos no ano, de acordo com informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação e publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo. O número reflete tanto um número alto de casos de policiais presos por homicídios quanto por corrupção e envolvimento com organizações criminosas.
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Fonte: Gazeta do Povo



