Se as paredes dos casarões e igrejas do Comércio falassem, elas seriam capazes de contar parte importante da história de Salvador. A origem do bairro remonta diretamente ao nascimento da capital baiana, mas, ao longo de sua existência, a região já foi um dos principais centros econômicos do País e hoje é uma zona reconhecida e famosa por sua vocação turística. Personagens emblemáticos do bairro – comerciantes, artesãos, capoeiristas – e frequentadores assíduos contam histórias que ilustram bem as peculiaridades do lugar e são unânimes em pelo menos um ponto: entre tantos tesouros, é necessário preservar a história do Comércio e, com isso, a da própria cidade de Salvador.
Tudo começou por conta do contato direto de Salvador com a Bahia de Todos os Santos que possibilitou conexão com o Atlântico e os continentes da África e Europa, e por isso, o surgimento da primeira capital portuguesa na América. É nessa relação entre porto, comércio e a Bahia de Todos os Santos que surge a capital baiana, e consequentemente o bairro do Comércio.
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O historiador Rafael Dantas explica que a região foi de extrema importância não só para a antiga capitania da Bahia, mas também para o país, porque era um ponto de diálogo com todo o mundo naquele contexto.
Em 1549, durante as primeiras atividades para criação da fortaleza de Salvador, foi naquela região que as náus atracavam para fazer reparos, buscar água, quando ainda não havia os aterros, e sim uma praia no local. Mas já nas primeiras décadas do século XVI isso mudou: a região passou por sucessivos aterros para criação de um porto.
Um dos maiores portos do hemisfério sul do mundo
Ao longo dos séculos XVII e especialmente XVIII o porto se aproxima do que temos hoje, com uma larga expansão no decorrer de 1700 como aponta o historiador. “É quando ele vai atingir não só o status de grande porto da América, mas também de um dos maiores portos do hemisfério sul do mundo. O século XVIII vai ser o momento de consolidar as atividades mercantis e portuárias da região, com a importação do açúcar e outras mercadorias que vinham e saiam daqui, além do tráfico de escravizados”, comenta Rafael Dantas.
Neste momento o local já contava com grandes aterros, construções significativas de até quatro pavimentos (andares), casarias, trapiches, grandes mercados e casas de relevância arquitetônica para o período. Mais tarde, no século XIX, o porto manteve a posição de destaque no país ao lado da estrutura do Rio de Janeiro e a partir de 1912/1913 foi inaugurado o novo porto, com docas e novo processo de aterramento. Além disso, Rafael destaca a maior profundidade do porto que possibilita o trato com embarcações mais sofisticadas e modernas.
Já nos anos iniciais do século XX a região do Comércio passou por um processo de “embelezamento”, cuja ideia era europeizar a área, porque era o lugar de maior importância econômica na cidade. A região do Comércio foi ao longo de séculos o centro econômico de Salvador e sustenta ainda hoje uma composição com prédios do século XVIII, XIX e XX, de diferentes escolas arquitetônicas. Ali estavam as finanças, os prédios públicos, o comércio, por isso o espaço é de fundamental importância histórica e necessita de maior conservação, pontua Rafael.
“Ali é tão importante como Largo do Pelourinho, como Centro Histórico de Salvador, pena que os casarios estão em situação mais deteriorada. Sem a mesma atenção de outras regiões de Salvador”.
A região já foi chamada de Porto, Zona Comercial e só depois de Comércio. Rafael recorda que no século XX, a área foi nomeada de Bairro das Nações, homenagem feita às nações amigas da Bahia. Por isso, as ruas seguem com nomes de países, como Rua da Bélgica, por exemplo. Hoje a região conta com diferentes estágios de preservação.
Importância arquitetônica
Esses diferentes momentos do bairro e da própria cidade estão desenhados nas edificações do local, que contam uma história sobre modas, vanguardas e influências arquitetônicas que moldaram o bairro. O casario que vai da Conceição da Praia até o Elevador Lacerda, por exemplo, está ali desde a fundação da cidade, aponta o professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Nivaldo Andrade. Claro que houve mudanças como modernizações, desabamentos e ampliações, mas parte desta história está preservada.
“Temos edificações dos primeiros séculos de ocupação da cidade como é o caso do Forte São Marcelo, da Igreja da Conceição da Praia, da Igreja do Corpo Santo, até obras importantes, como talvez a mais importante do neoclassicismo aqui, que é a Associação Comercial da Bahia (ACB). São arquitetura de vários períodos, além do Elevador Lacerda, que é o símbolo máximo de Salvador, um marco da arquitetura moderna e Art Déco”, afirma Nivaldo.
Ele aponta que a região do Comércio é tão relevante do ponto de vista arquitetônico que até mesmo edifícios de períodos mais recentes já foram tombados como patrimônio. Entre os principais marcos da área está o Mercado do Ouro, hoje conhecido como Mercado Modelo, considerado o último mercado remanescente do século XIX em Salvador. Localizado na hoje Praça Visconde de Cairu, mas antes conhecida como Largo do Cais Dourado, a área era dos capoeiristas – que eram estivadores que trabalhavam na zona portuária -, como o besouro Mangangá, um dos maiores capoeiristas que a Bahia teve no século XIX.
Preservação
Salvador passa por transformações urbanas e de expansão a partir dos anos 60 que possibilitam a ocupação de novos espaços, que assumem esse protagonismo no lugar do Comércio. Iguatemi, Tancredo Neves e adjacências se destacam como novo centro econômico de Salvador, enquanto o Comércio perde essa relevância que já teve em Salvador, na Bahia e no mundo, indica Rafael Dantas.
As proximidades diretas ao Mercado Modelo são zonas vistosas e turisticamente reconhecidas, inclusive com a adição de equipamentos recentes, como a Cidade da Música, inaugurada em 2021. Contudo, nas ruas internas do bairro a falta de preservação das edificações é motivo de preocupação por conta do risco de patrimônio histórico, mas comerciantes e transeuntes temem também por sua segurança.
É o caso do gerente da MS Sports, Sérgio Rodrigues, 49. “A gente fica decepcionado, triste, porque o pessoal vê hoje isso aqui cheio de ruínas, prédios que estão caindo e a cada dia a gente vê a situação piorar”, afirma.
O espaço na vida das pessoas que hoje é disputado por centros comerciais, shoppings e as compras online, em Salvador, era dominado pela região do Comércio, que antes era vista como um local para se encontrar tudo que se possa imaginar. A perspectiva atual do bairro é diferente, como indica o historiador Rafael Dantas e comerciantes da área.
“A diferença do Comércio de hoje e ontem é essa, que antes era um lugar de pujança e hoje necessita de maior atenção por parte do Poder Público e investimentos da área do privado”, diz Rafael.
Histórias do Comércio:
Sérgio Rodrigues, 49, gerente da MS Sports
Troféus, coletes, bolas e todos os outros equipamentos necessários para a prática esportiva estão na Rua do Corpo Santo no Comércio, zona que representa a história e a vocação do bairro. Com lojas esportivas dos dois lados da calçada, o local é um daqueles points que já foi badalado, mas que hoje é uma sombra do que já foi, segundo o gerente da MS Sports, Sérgio Rodrigues, de 49 anos e há quase quatro décadas no local.
Sérgio diz que a queda de circulação de pessoas no bairro, dificuldades de acessar a área devido à falta de linhas de ônibus e a necessidade de políticas de revitalização diminuíram progressivamente o movimento na rua. “Quem conhece ainda vem buscar o grosso dos esportes. Ainda temos essa clientela, que é a mais antiga, mas só”, conta.
Ele aponta ainda que esses mesmos fatores afetam outros setores comerciais que atuam no bairro e a “rua dos esportes” é um dos poucos pontos que ainda geram movimento. Porém o sentimento é de que as novas gerações não conhecem o local.
“A cada dia que passa o Comércio está se deteriorando, se acabando. Se não fosse essa rua aqui a área era muito mais morta. Antes no meio do dia isso aqui tava cheio. Se não houver uma política, uma preocupação, isso aqui, esse comércio, não tem mais 10 anos”, clama Sérgio.
Mestre Gajé capoeirista Mercado Modelo
Se hoje a capoeira é tratada como um produto vistoso que atrai e encanta turistas, a realidade nem sempre foi essa – conta Mestre Gajé da tradicional roda do Mercado Modelo. Sem muita certeza nas datas, ele imagina que joga capoeira na área há mais ou menos 65 anos e revela ter visto muitas mudanças.
“Quando comecei era proibido. A polícia via capoeira e tinha que conduzir (pra delegacia), dizia que o jogo era proibido, que era malandragem. Era assim porque era mais negro, mas foram chegando as pessoas de cor (brancos) e foi mudando”.
Ele revela que só não largou a capoeira durante os momentos de dificuldade porque era sua única forma de sustento. Agora, turistas de diferentes origens param pra acompanhar a roda de capoeira, tirar fotos, participar, e viver essa experiência única, enquanto Mestre Gajé passa o legado dessa tradição para os jovens.
“Continuei em frente porque era minha sobrevivência. Não tenho outro trabalho, vivo só de capoeira. Quando começamos não éramos valorizados. As pessoas tinham até medo de falar com a gente. Sempre fizemos a roda aqui. Hoje temos até apoio de Ministério da Cultura”, afirma.
Barbara Maria Corvelo, 63, artesã
Durante o verão e com a chegada dos navios o movimento no Comércio é intenso, já nos meses mais chuvosos quase nulo. Essa é a rotina da artesã Barbara Maria Corvelo, 63, que já atua há 34 anos no bairro, na área em frente ao Mercado Modelo.
“O Comércio desvalorizou muito, mudou muita coisa. Antes as pessoas vinham e procuravam as artesãs, hoje está mais banal, pra gente fica um pouco apertado”, revela. Além dos desafios relacionados à circulação no bairro, ela conta que a internet afetou muito seu negócio e de seus colegas que atuam no local.
“Já vivemos muita coisa aqui, muito perrengue e períodos de temor. Sempre fiz artesanato. Hoje está um pouco difícil por conta dessa coisa de internet, o pessoal compra muito por lá”, diz.
Geonélio Amorim, 50, dono da Lanchonete e restaurante Bom Sabor
A região do Comércio é reconhecida por diversas iguarias, entre elas seus deliciosos sanduíches de pernil, que marcam a história do bairro e também o olfato e paladar de quem circula pelo local. Porém, após a pandemia de Covid-19, a percepção é de que o movimento no bairro teve uma redução acentuada, diz Geonélio Amorim, 50, dono da Lanchonete e restaurante Bom Sabor – um dos locais que vendem lanches de pernil.
“Agora está pouco frequentado. Depois da pandemia parece que muita gente passou para o home office e hoje o fluxo de pessoas é menor”. Geonélio entende que a mudança tem a ver também com outros movimentos na capital baiana. “O centro financeiro era exclusivo aqui. Aí, com o decorrer do tempo, ficou dividido entre a Avenida Tancredo, Manoel Dias e outras. Isso afetou o bairro”, diz.
Há 25 anos trabalhando no local, Geonélio se preocupa com o futuro do bairro Comércio, que considera um dos mais bonitos de Salvador, entretanto o vê esquecido e necessitando de cuidados. Essa é a síntese da percepção de comerciantes de diferentes setores. A lembrança é de tempos áureos, com bairro vivo e movimento intenso, enquanto a realidade é de preocupação e dúvida acerca do futuro.
Fonte: A Tarde



