Advogado e pai de Gabriel Lopes, motociclista de 21 anos que morreu no domingo, 29, na Avenida Paralela, em Salvador, Erieldo Santos vive um novo desafio após a perda do filho. Nesta terça-feira, 31, o suspeito de causar o acidente teve a liberdade provisória concedida após audiência de custódia.
Em entrevista ao portal A TARDE, Erieldo explicou que como advogado, já esperava o resultado. No entanto, como pai, o sentimento é de tristeza e impunidade.
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“A dor que a gente está sentindo é uma coisa imensurável e também em saber que o meliante vai estar na rua e a qualquer momento pode fazer outra família chorar”, lamentou.
O suspeito, Mauro Lázaro Araújo Santana, de 50 anos, havia sido preso em flagrante, momentos após o acidente. No entanto, apesar de ter considerado a prisão legal, a Justiça entendeu que não havia necessidade de mantê-lo detido. Com isso, ele vai responder ao processo em liberdade, mediante o cumprimento de medidas cautelares.
Quais os próximo passos do processo?
Apesar de abalado com a situação, Erieldo se mostra confiante com a Justiça e afirma que o processo está apenas começando.
“A intenção é que ele vá pagar, ficar preso, não ser só essa medida cautelar de não poder sair 10 dias de Salvador antes de comunicar à justiça. Ele vai pagar nos rigores da lei, com certeza”, confirmou.
Além da medida citada pelo pai de Gabriel, Mauro também deve cumprir as seguintes determinações:
- Comparecer a todos os atos do processo sempre que for convocado;
- se apresentar periodicamente à Justiça pelo período de um ano;
- não poderá frequentar locais onde haja comercialização de drogas;
- teve a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) suspensa por seis meses.
A decisão levou em conta o fato de o investigado não possuir antecedentes criminais, além da ausência de pedido do Ministério Público para a decretação da prisão preventiva.
Agora, em ação movida junto aos advogados Dr. Marco Rodrigues e Dr. Braga, Erieldo busca reverter o motivo do inquérito, que foi registrado como acidente de trânsito.
“A gente quer reverter isso daí para um dolo eventual, para o Ministério Público estar pedindo a prisão preventiva dele. Não vamos deixar esse rapazinho solto aí pela rua”, enfatizou.
Defesa garante que motorista não estava bêbado, mas testemunhas dizem o contrário
A defesa de Mauro alega que a informação de que ele estaria bêbado no momento do acidente não procede. De acordo com os representantes legais, “não há, até o momento, laudos ou documentos oficiais que comprovem o consumo de álcool”.
No entanto, a versão é contestada por Erieldo Santos, que garante que testemunhas e policiais presenciaram o suspeito com sinais de embriaguez.
“Não só a testemunha, quanto a guardição que o conduziu, também informa no depoimento que ele apresentava sinais de embriaguez. Ele não conseguia andar coordenadamente, tanto que para levar para a cela teve que ser conduzido pelo policial… tinha os olhos vermelhos, o cheiro forte de álcool, falava tudo embolado, nitidamente sem condição de estar dirigindo, principalmente numa via de alta velocidade”, alegou.
Segundo o pai da vítima, a defesa alegou a falta de elementos suficientes para a constação, porque Mauro teria se recusado a fazer o teste do bafômetro.
“Ele se negou a fazer, se negou a dar depoimento, pediu direito de silêncio. A lei dá esses direitos a ele, só que a defesa esquece que teve testemunha, que muita gente viu o cara bêbado, e isso tudo vai ser provado e vai ser levado pro processo”, garantiu.
Até o momento, não há datas para os próximos passos do processo. “Eu tenho certeza que a gente vai conseguir botar esse meliante no tribunal do júri”, afirmou.
Mauro não entrou em contato com a família de Gabriel para prestar solidariedade, situação que o pai da vítima acredita que nunca vai acontecer.
“O tipo de pessoa que mata uma pessoa, foge do lugar, tenta burlar o processo dizendo que não foi ele que estava dirigindo, nunca vai ter essa humildade de ligar para alguém para poder prestar uma solidariedade”, opinou.
Apesar do sentimento de revolta, ele afirma que discorda das retaliações contra o suspeito, e que não está de acordo com a situação do carro queimado pela população após o acidente. “Em momento nenhum eu quero violência”, disse.
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Primeiros dias sem Gabriel
Três dias após perder o filho, Erieldo Santos está vivendo o processo do luto e contando com o apoio da família para se reerguer. Ele relembra o sentimento do momento em que encontrou Gabriel sem vida.
“Antes de enterrar ainda tinha aquela ilusão na cabeça de que ele ia voltar. No dia que eu me deparei com a cena, ele lá no chão, enroladinho no papel alumínio, eu tinha esperança de que aquele papel se rasgasse, meu filho olhasse pra minha cara, sorrisse e dissesse que tava vivo, que era uma brincadeira. A gente dorme, quando acorda imagina que era só um sonho, mas a vida tem que seguir”, contou.
Como advogado, ele contou ainda que não atuará mais em casos do tipo, defendendo suspeitos de atropelamento, por saber a dor que a situação causa. Ele afirma que Mauro cortou o sonho de três famílias: a dele, a da mãe da vítima e da namorada.
Erieldo contou também que a moto estava no nome da companheira de Gabriel, que agora tem uma dívida.
“O menino tinha começado a pagar o veículo, tá lá com a dívida em nome da namorada, porque se tivesse no nome dele, como ele já era maior, aí ele tava mais tranquilo. Ele morreu e ainda deixou uma dívida, outra pessoa com problema financeiro”, finalizou.
Relembre o caso
Gabriel Lopes dos Santos, de 21 anos, morreu após um acidente de trânsito na Avenida Paralela, em Salvador. Ele mantinha uma rotina dividida entre estudo e trabalho.
Além de trabalhar como entregador por aplicativo nas horas vagas, Gabriel também cursava o 3º semestre de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e era estagiário da Secretaria Municipal de Gestão (Semge), onde atuava no Núcleo de Tecnologia da Informação (NTI).
Sonhador, o jovem tinha como objetivo ingressar na Polícia Militar, interesse que surgiu após o período em que serviu ao Exército, entre 2023 e 2024.
Fonte: A Tarde



