Jornalista Clara Correa em sua casa no Village em Stella Maris –
Na próxima quarta-feira, 8 de abril, é celebrado o Dia Mundial de Combate ao Câncer. A data costuma vir acompanhada de estatísticas, campanhas e alertas; mas, entre diagnósticos e números, há algo que não cabe em gráficos: a experiência de quem vive a doença.
Relatos de pacientes e de quem já se curou mostram que o câncer não segue um único roteiro. Cada trajetória é diferente, marcada por desafios, adaptações e a busca por seguir em frente.
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A jornalista baiana Clara Corrêa, de 38 anos, tinha 24 quando recebeu o diagnóstico. Estava prestes a embarcar para Barcelona com o namorado quando um exame mudou os rumos. “Foi um grande choque”, lembra. “O chão se abriu assim”. O que parecia um cisto simples revelou-se um carcinoma raro na parótida.
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A partir dali, vieram cirurgias, radioterapia, recidiva e, anos depois, a descoberta de uma metástase. Mais do que a progressão da doença, o que mudou foi a forma de lidar com ela.
“Na metástase eu entendi que aquilo não seria uma fase e que aquilo seria parte da minha vida”, conta. “Eu teria que achar um espaço para viver com câncer co mo uma doença crônica”.
Hoje, Clara não está em remissão, mas também não está em tratamento ativo. Vive em acompanhamento constante – e, de acordo com ela, com uma rotina “praticamente normal”. O processo, no entanto, exigiu um mergulho profundo psicológico e emocional. “Precisei entender como seguir vivendo, como não parar de viver”.
Essa dimensão subjetiva aparece como um dos pontos mais desafiadores. A experiência da psicóloga Dani Rita, que atualmente está em tratamento, ecoa essa percepção. O diagnóstico veio de forma abrupta, durante um autoexame. “Foi um baque”, diz. “Quando eu toquei, eu tive certeza de que estava com câncer”.
O impacto inicial foi imediato e visceral. “Fiquei com muito medo de morrer, a primeira coisa que eu pensei foi no meu filho”, conta. Desde então, a rotina passou a ser marcada por sessões de quimioterapia, efeitos colaterais intensos e uma montanha-russa emocional.
Os dias de tratamento mais agressivo trazem limitações concretas. “Eu ficava dois, três dias completamente de cama. Não conseguia fazer nada a não ser sobreviver”, relata. Ainda assim, Dani destaca a importância de cuidar da saúde mental como parte do processo. “É terapia na veia”, conta, se referindo às sessõe s com um psicólogo.
Apoio
A experiência de Dani também evidencia que a rede de apoio, embora essencial, nem sempre sabe como agir. Muitas vezes, o cuidado oferecido parte mais da intenção de ajudar do que da escuta real das necessidades de quem está em tratamento, segundo a psicóloga.
Ao longo do processo, Dani precisou se posicionar, ajustar relações e reforçar que apoiar, de fato, exige sensibilidade, escuta e respeito ao que o outro sente e pede.
“As pessoas querem fazer por você o que elas acham que é importante, e não o que você precisa”, observa Dani. Para ela, aprender a se posicionar foi essencial: “Aprendi muito durante o tratamento a dar limites para os outros e para mim também”. Ainda assim, é no coletivo que ela encontra sentido: “A gente não se cura sozinho, a gente se cura em bando”.
Essa ideia de cuidado compartilhado ganha uma dimensão concreta no Coral Vozes da Vida, formado por ex-pacientes do Hospital Martagão Gesteira. Criado a partir de uma percepção do músico e maestro Luciano Calazans, o grupo surgiu como uma extensão do cuidado hospitalar.
“Os encontros semanais são terapêuticos”, explica Luciano. “As crianças são apartadas do convívio social durante o tratamento, e a reinserção passa por nuances em que a música ajuda demais”. Mais do que ensaios, o coral se tornou um espaço de pertencimento; de acordo com Luciano, é como se fosse uma grande ter apia de grupo.
A força simbólica do projeto aparece em momentos marcantes, como o relato de uma adolescente durante uma apresentação. “Ela disse que não tinha ovário por causa da doença, mas que estava feliz em fazer parte do coral”, lembra. “Aquilo foi muito impactante”.
Para ele, a experiência vai além da recuperação física, e a cura deixa de ser apenas um evento médico, passando a ser um processo humano, vivido no dia a dia, na respiração compartilhada e na harmonia construída coletivamente.
Família
Essa ampliação do conceito de cura também atravessa o relato do médico Mario Amici, de 58 anos. Como alguém que já enfrentou a doença e também acompanhou de perto a experiência dos pais, ele reúne diferentes perspectivas sobre a doença. “Eu não falo de câncer apenas como médico, falo como filho e como paciente”, diz.
Diagnosticado há cerca de 15 anos, Mario enfrentou um tratamento longo, com recidivas e sequelas. “Houve momentos em que o medo da morte ficou muito presente”, lembra.
Em um deles, após uma nova recidiva, recebeu a notícia na véspera do Ano Novo. “A família estava reunida, pronta para celebrar, e eu com a sensação de que aquele seria m eu último ano de vida”.
Mesmo com o conhecimento técnico, o impacto emocional foi inevitável. “Ser médico traz lucidez, mas às vezes também pesa”. O que fez diferença, segundo ele, foi o suporte ao redor da família e amigos.
Hoje, a relação de Mario com a vida é outra. Ele afirma que já não existe mais a ideia de saúde plena como antes e que sempre permanece algum nível de vigilância. Ainda assim, há um deslocamento de perspectiva: “Eu vivo o presente. Faço planos, sim, mas com outra consciência”.
A experiência recente com a mãe, que também enfrentou o câncer, trouxe uma camada adicional. “Ela conseguiu ter um fim de vida lúcido, sem dor, em paz”, conta. Para ele, isso aponta para um debate necessário: “Não apenas como prolongar a vida a qualquer custo, mas como garantir dignidade e sentido também no seu final”.
Recado
Para Dani Rita, o que atravessa as histórias é menos uma conclusão e mais um modo de seguir. Entre diagnósticos, tratamentos e incertezas, a experiência do câncer parece exigir rearranjos constantes – internos e externos.
Para ela, o processo de adoecimento escancara a necessidade de inverter a lógica da mulher que, comumente, costuma olhar para os outros e menos para si. “Cuidar de si mesma, com gentileza e atenção, passa a ser parte fundamental do tratamento”, lembra.
Dani também reforça a importância de se permitir ser cuidada e reconhecer a própria vulnerabilidade. Ao longo da experiência, ela entendeu que enfrentar o câncer não é um caminho solitário: “Pelo contrário: é na troca, no apoio e na construção coletiva que se encontra força”.
Já Clara faz questão de afastar qualquer romantização do câncer, mas também rejeita o medo paralisante que costuma acompanhar o diagnóstico. Para ela, é importante entender que cada trajetória é única, sem comparações possíveis, e que o processo exige paciência para atravessar um dia de cada vez, res peitando o próprio tempo.
“O que eu diria pra quem está passando por isso é: viva um dia de cada vez”. Para Clara, essa frase resume um aprendizado construído ao longo dos anos, em meio a diferentes fases da doença, e aponta para uma forma mais possível de lidar com as incertezas sem antecipar cenários ou se prender ao que ainda não chegou.
Ao longo desse percurso, Clara também entendeu que enfrentar a doença passa por não fugir dos sentimentos difíceis, inclusive da ansiedade que pode surgir ao buscar respostas rápidas na internet. “A gente precisa ter cuidado com esse excesso de informação, porque isso pode aumentar muito a ansiedade”, aponta, destacando a importância de filtrar o que se consome e focar no próprio processo.
Fonte: A Tarde



