O Dia Internacional da Mulher, oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU), na década de 1970, nasceu das greves, das marchas e das vozes que se ergueram quando o silêncio era imposto.
Se no início a luta era, sobretudo, por igualdade salarial, hoje ela ecoa contra o machismo, a violência e todas as desigualdades que ainda tentam limitar o lugar das mulheres no mundo.
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E, mais do que uma data no calendário, o 8 de Março é símbolo da resistência de quem não aceita menos do que respeito, oportunidade e dignidade.
Com voz ativa e coragem coletiva, ao longo do século XX, as mulheres ocuparam as ruas, transformando dor em mobilização e reivindicações em direitos conquistados, abrindo assim caminhos para que as próximas gerações encontrem portas menos fechadas e horizontes mais amplos.
Esse mesmo movimento, que nasceu nas praças e assembleias, ultrapassou os espaços de protesto e alcançou profissões antes consideradas exclusivamente masculinas.
Engenharia, aviação, segurança pública, construção civil e, até o volante de um ônibus interestadual, tornaram-se territórios de afirmação e conquista, onde ambientes marcados pela força, hoje também revelam a competência, a sensibilidade e a firmeza feminina.
É neste cenário que começa nossa série especial: “Oito de Março, Oito Mulheres, Oito Histórias”. E a primeira parada é na garagem Cidade Sol, em Salvador, onde uma mulher conduz muito mais do que passageiros, conduz sonhos, superações e futuros.
A menina que aprendeu a dirigir com o pai
Aos 45 anos, Letícia Sacramento é motorista de ônibus intermunicipal e instrutora. Divorciada, mãe de dois filhos – Amanda, de 21, e Maurício, de 16 -, ela carrega no olhar e na docilidade da voz a serenidade de quem já enfrentou tempestades na estrada e na vida. São 17 anos de profissão.
Ela conta que começou a carreira por influência do pai, que a ensinou a dirigir. Aprendeu na categoria B, mas a curiosidade falava mais alto. Não queria apenas dirigir, queria ir além. Acrescentou a categoria D à habilitação e decidiu tentar uma vaga em uma empresa de ônibus urbano de Salvador.
Entrei em uma empresa de ônibus urbano em Salvador, fui a primeira motorista a dirigir nessa empresa. Fiquei super feliz, foi a minha primeira assinatura da carteira. Cheguei em casa radiante
Foram longos anos fazendo linha nos bairros Cajazeira 8, Ribeira, Campo Grande, Estação Pirajá, Aeroporto, Boca da Mata e Pituba, até decidir realizar outro sonho: empreender. No entanto, com a chegada da pandemia, precisou fechar o negócio. Foi então que o volante a chamou de volta.
“Decidi voltar a dirigir ônibus. Entreguei meu currículo na Cidade Sol, que me acolheu e confiou no meu trabalho. Entrei como motorista, depois fiz o curso para orientadora e atuei nessa função por um período. Em seguida, me qualifiquei como instrutora e hoje estou aqui, exercendo as duas funções na empresa”, completa.
Da cidade para a estrada: novos horizontes
“Hoje, trabalho como instrutora de motoristas, mas quando necessário, assume rotas intermunicipais para Alagoinhas, Irará, Santo Amaro, Maragogipe, Bom Jesus da Lapa e outras cidades atendidas pela empresa”, explica, orgulhosa.
Ao falar sobre o que a motiva a seguir na profissão, Letícia afirma com convicção que é extremamente gratificante conhecer novas paisagens, explorar diferentes cidades e encontrar pessoas diversas ao longo do caminho.
Segundo ela, dirigir ônibus oferece uma experiência que vai muito além do “pedacinho de trecho” dentro da cidade, permitindo-lhe explorar novos horizontes e observar o mundo se abrir diante do para-brisa.
A única mulher no pátio
Atualmente, Letícia é a única motorista mulher da empresa. “Fui a primeira a entrar aqui na Cidade Sol também, fui a primeira motorista. Logo depois de mim entraram outras mulheres, só que não se adaptaram e saíram da empresa. Hoje, estou novamente sendo a única motorista da empresa”, afirma.
Ela conta ainda que, mesmo sendo qualificada para o cargo e contribuir para a formação de outros motoristas, ainda enfrenta, infelizmente, preconceito na profissão. Letícia revela que, embora enfrente situações que a entristece, o apoio e acolhimento de alguns colegas a ajudam a seguir firme em seu propósito.
Além de motorista, Letícia é também instrutora
“Infelizmente, é o machismo, uma palavra feia. Muitos me acolhem, outros, infelizmente, querem me colocar para baixo. Mas, é uma coisa que eu tenho em mente, levantar a cabeça, erguer a minha cabeça e fazer o meu trabalho. Porque eu sei que o trabalho que eu faço é para me ajudar e para ajudar eles também [colegas]”, pontua.
Ainda sobre preconceito, Letícia lembrou de uma situação que passou no início da carreira, quando dirigia ônibus urbano. Ela contou que uma passageira se recusou a embarcar ao vê-la dirigindo, o que a deixou arrasada.
“Contei para meu pai e ele disse: ‘você vai continuar, você vai continuar, porque você é capaz. Você não pilota só fogão, você pilota fogão, carro, ônibus, o que botar para você pilotar, você pilota”, explica ela de onde veio o apoio para seguir.
Superando medos
A motorista lembra que nem mesmo um dos episódios mais assustadores de sua vida a fez desistir. Ainda no início da carreira e grávida de seis meses e meio, dirigiu sob a mira de um revólver calibre 38, na BR-324, durante um assalto.
“Estava grávida, na época, do meu menino [Maurício]. Aquele momento, foi um momento que me deixou bastante angustiada. Mas, pedi forças a Deus e Deus me tirou daquela situação”.
Para as mulheres que sonham
Quando questionada sobre que conselho daria a outras mulheres que sonham em dirigir ônibus, mas têm medo, ela é firme: “coloquem seus obstáculos de lado e persista. As mulheres precisam colocar isso na mente, que todas nós, mulheres, podemos e somos capazes de exercer aquela função na qual nós temos o desejo. Não importa o que vão dizer, o que importa é que ela tenha capacidade e que ela saiba que pode colocar aquilo ali em prática no dia a dia”.
Sobre seus sonhos, Letícia confidencia, entre sorrisos, que ainda guarda ambições maiores e se permite imaginar novos horizontes: “quem sabe pilotar um avião no futuro?”, pergunta ela, deixando transparecer a coragem e a curiosidade que marcam toda a sua trajetória.
O que a move
Se há algo que a impulsiona todos os dias, além do amor pela profissão, são os filhos. Ela fala com orgulho de Amanda e Maurício. Diz que são sua força. Que acorda de madrugada e encontra neles apoio, ajuda e parceria para continuar conduzindo a própria história com firmeza, fé e coragem.
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Para Letícia, cada marcha trocada é também uma quebra de paradigma. Cada viagem concluída é uma afirmação silenciosa de que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive ao volante de um gigante sobre rodas.
Neste 8 de março, enquanto o mundo relembra as lutas que deram origem ao Dia Internacional da Mulher, histórias como a de Letícia nos lembram que a revolução também acontece na estrada.
Fonte: A Tarde



