A morte de Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes, no último domingo, 22, durante uma operação militar em Tapalpa, no estado de Jalisco, encerra a trajetória de um dos nomes mais temidos do narcotráfico mundial e abre um novo capítulo de incertezas na segurança pública do México.
Ex-policial e posteriormente apontado como líder de uma das organizações criminosas mais poderosas do planeta, Oseguera era fundador do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG). Ele foi acusado pelas autoridades americanas de comandar uma vasta rede internacional de tráfico de drogas, especialmente fentanil e metanfetamina, com destino principal aos Estados Unidos.
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Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes
Nascido em julho de 1966, no estado de Michoacán, no oeste mexicano, Oseguera migrou para os Estados Unidos na década de 1990. Em 1994, foi condenado na Califórnia por conspiração para distribuir heroína, cumprindo três anos de prisão. Após retornar ao México, trabalhou como policial em Jalisco, mas rapidamente voltou ao submundo do crime.
Sua ascensão dentro do narcotráfico passou pelo Cartel Milenio e pelo Cartel de Sinaloa, onde atuou como chefe de pistoleiros de Ignacio “Nacho” Coronel. Com a prisão de Óscar Nava Valencia, em 2009, o Cartel Milenio se fragmentou, abrindo espaço para o surgimento do CJNG.
O poder de “El Mencho” se consolidou também por meio de alianças estratégicas. Ele se casou com Rosalinda González Valencia, irmã de Abigael González Valencia, líder do grupo Los Cuinis, braço financeiro da organização. Segundo analistas de segurança, essa articulação foi decisiva para que assumisse o comando da nova estrutura criminosa.
Discreto e raramente fotografado, tornou-se um dos fugitivos mais procurados do mundo. Os Estados Unidos chegaram a oferecer recompensa de US$ 15 milhões por informações que levassem à sua captura. Após a prisão de Joaquín Guzmán, o “El Chapo”, ele passou a ser considerado o chefe de cartel mais poderoso do México.
Em fevereiro de 2025, o CJNG foi classificado pelos EUA como organização terrorista estrangeira. Oseguera já havia sido indiciado diversas vezes em tribunais americanos, incluindo acusações formais por conspiração para fabricar e distribuir metanfetamina, cocaína e fentanil destinados ao mercado norte-americano.
Sua morte ocorreu durante uma operação que contou com apoio de inteligência dos Estados Unidos. Segundo autoridades mexicanas, informações repassadas por uma parceira amorosa ajudaram a localizar o narcotraficante. Ele foi morto ao lado de outros oito integrantes do cartel.
Onda de violência após a morte
A morte de “El Mencho” desencadeou uma rápida e violenta reação atribuída a integrantes do crime organizado. Ônibus foram incendiados, rodovias bloqueadas e confrontos armados registrados principalmente no estado de Jalisco, mas também em outras regiões do país.
Imagens mostraram incêndios em Puerto Vallarta, cidade turística no Pacífico mexicano, além de estabelecimentos comerciais atingidos. No aeroporto internacional de Guadalajara, passageiros buscaram abrigo diante da fumaça e do clima de tensão.
De acordo com o secretário de Segurança mexicano, Omar García Harfuch, ao menos 25 integrantes da Guarda Nacional morreram nos confrontos. Uma civil também perdeu a vida e cerca de 30 suspeitos foram mortos. Pelo menos 70 pessoas foram presas em sete estados.

Homens armados bloquearam com carros e caminhões incendiados diversas vias de Jalisco
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que a situação estava sob controle e que “a paz, a segurança e a normalidade estão sendo mantidas”.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump voltou a pressionar o México por medidas mais duras contra os cartéis. O Departamento de Estado americano recomendou que cidadãos buscassem abrigo nas áreas afetadas. Canadá e Reino Unido também emitiram alertas de segurança.
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Companhias aéreas como a American Airlines e a Air Canada suspenderam voos para Puerto Vallarta temporariamente.
Apesar da morte do líder, especialistas avaliam que o impacto estrutural sobre o cartel pode ser limitado. A própria DEA descreve o CJNG como uma organização com modelo semelhante ao de franquias, composta por cerca de 90 grupos associados, o que dificulta seu desmantelamento completo.

Operação do Exército desencadeou uma onda de violência em vários estados
Quem é o Cartel Jalisco Nova Geração
Fundado oficialmente em 2009, o Cartel Jalisco Nova Geração é apontado como uma das organizações criminosas de crescimento mais acelerado no México.
O grupo atua fortemente na produção e exportação de metanfetamina e fentanil, mantendo ligações com fornecedores de precursores químicos na China e controlando portos estratégicos para importação desses insumos. Segundo autoridades americanas, é um dos principais fornecedores de fentanil ilícito para os Estados Unidos, movimentando bilhões de dólares.
Além do tráfico internacional de drogas, o CJNG expandiu suas atividades para extorsão, roubo de combustível e tráfico de pessoas. O Departamento de Estado dos EUA afirma que a organização possui conexões em mais de 40 países nas Américas, na Ásia e na Oceania.
O cartel também ganhou notoriedade por sua capacidade militar. Em 2015, reagiu a uma operação de segurança com bloqueios simultâneos e chegou a derrubar um helicóptero militar. O grupo é considerado pioneiro no uso de drones para lançamento de explosivos e na instalação de minas terrestres artesanais.
Em 2020, realizou um atentado contra Omar García Harfuch, então chefe da polícia da Cidade do México, utilizando armamento pesado em plena capital. O CJNG também foi responsabilizado por ataques a autoridades municipais e por confrontos diretos com forças federais.
Mesmo com a morte de seu fundador, analistas avaliam que a estrutura descentralizada da organização pode permitir sua continuidade. A eliminação de “El Mencho” representa um marco simbólico na guerra contra os cartéis, mas não significa, necessariamente, o fim do império criminoso que ele ajudou a construir.
Fonte: A Tarde



