Foco na profissional sênior gerenciando processos de IA com uma equipe jovem –
Davos sugere um efeito pouco discutido da corrida por IA: ela pode redesenhar o etarismo dentro das empresas. A ideia aparece no relatório “Four Futures for Jobs in the New Economy: AI and Talent 2030”, publicado pelo Fórum Econômico Mundial.
Em janeiro de 2026, chefes de Estado, políticos de alto escalão e executivos de relevância global se reuniram no Fórum de Davos para discutir os riscos e as oportunidades da atualidade: geopolítica, transição energética e disrupção tecnológica. A Inteligência Artificial, como esperado, esteve no centro dos debates. As empresas entram agora na era das IAs agênticas, tecnologias que não entregam apenas textos ou imagens, mas executam tarefas complexas de forma autônoma.
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O relatório indica que 85% das empresas pretendem investir nessas tecnologias nos próximos três anos. O ritmo de apropriação é veloz e reduz drasticamente o tempo de transição visto em revoluções industriais anteriores, estimadas em quase um século.
As incertezas acompanham os desafios. A perspectiva é de uma transformação profunda nos sistemas econômicos, o que, invariavelmente, tem impacto sobre negócios e pessoas. Capaz de entregar alta produtividade em rotinas repetitivas, a IA agêntica deve:
- Tornar obsoletas 39% das competências técnicas essenciais até 2030;
- Reduzir o progresso rumo à paridade de gênero, automatizando tarefas realizadas por mulheres em ritmo superior ao dos homens;
- Dificultar o acesso de jovens ao mercado e o treinamento de uma nova geração;
- Valorizar soft skills como inteligência emocional, empatia e capacidade de escuta, competências antagônicas às promessas das IAs;
- E ampliar em até 27% o salário de quem souber gerenciar modelos agênticos.
Na perspectiva de valorização de skills, esse recorte favorece profissionais com mais de 40 anos. São eles que detêm a capacidade de supervisão e gerenciamento necessária ao trabalho com modelos agênticos. É surpreendente que os seniores encontrem espaço justamente na tecnologia, mas o prognóstico favorável não deve camuflar o desafio central: a velocidade da requalificação.
Se a tese faz sentido no macro, o teste está no cotidiano do trabalho. E aqui vale uma distinção que costuma passar batida: a IA generativa é a porta de entrada mais simples, pois responde a comandos diretos e se encaixa em tarefas pontuais. Já a IA agêntica exige delegar etapas e supervisionar decisões autônomas, o que impõe um desafio extra: sem o domínio da primeira, a transição para a segunda dificilmente será fluida. Quando analisamos os dados do Cetic.br, vemos que no Brasil a menor adesão às IAs generativas está exatamente acima dos 40 anos.
O uso de IA generativa nessa população é predominantemente superficial, limitado a consultas rápidas ou correções básicas. A adesão cai com a idade: 36% das pessoas entre 40 e 44 anos têm uma prática integrada ao trabalho. Entre 45 e 59, 22% fazem um uso superficial, voltado a pequenas consultas e revisões. Enquanto isso, apenas 9% dos maiores de 60 anos utilizam a ferramenta.
Existe ainda o medo de que a IA acelere a obsolescência do próprio profissional. Isso revela um sentimento paradoxal, que une a percepção de que a tecnologia é voltada apenas para a Geração Z à queixa de que falta apoio institucional e governança nas empresas.
Esse gap não é só de ferramenta; é de poder de negociação e de permanência no mercado. A oportunidade para seniores não nasce de uma gentileza, mas de um descompasso. As empresas correm para adotar IA e a requalificação vem atrás. A conta precisa ser dividida entre políticas públicas, investimento empresarial e programas que respeitem quem já acumula décadas de experiência. Mas nada disso substitui a decisão individual. O medo de se expor e a ideia de que “já passou do tempo” são as barreiras mais difíceis. O profissional que atravessa esse ruído e investe na própria atualização amplia seu repertório e, principalmente, preserva valor de mercado.
*Alessandra Calheira – Fundadora da Career Organizer, professora e mestre em Comunicação e Culturas Contemporâneas. Especialista em desenvolvimento de carreira e empoderamento profissional feminino.
Fonte: A Tarde



