O sambista Roberto Mendes –
Conversar com Roberto Mendes é entrar num território onde a música vira pensamento, a memória vira argumento e a poesia, explicação do mundo. Esta não é uma entrevista de respostas curtas ou definições fechadas. É um fluxo. Mendes fala como toca: em círculos, em imagens, em camadas. Músico e compositor reconhecido, ele é também pesquisador de uma tradição que não aprendeu em livros, mas na convivência direta com mestres anônimos do Recôncavo.
Autor de estudos sobre o tema e profundo conhecedor da chula e do samba de roda, Mendes formou sua linguagem ao lado de tocadores de viola machete — instrumento pequeno, agudo e essencial ao samba chula. Com eles, aprendeu a técnica tradicional que mais tarde levou para o violão popular. Sua obra, portanto, não parte de teorias abstratas, mas de vivências, escutas e práticas transmitidas de geração em geração.
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Ao falar, ele não organiza a cultura em conceitos rígidos. Prefere metáforas: diz que a cultura é “um rio sem cais”, que o povo é “um corpo nu”, que o samba existia antes de receber esse nome. É desse lugar — entre a tradição e a invenção — que ele lança provocações contundentes, como a que dá título a esta entrevista. Para Roberto Mendes, entender o Carnaval, o samba e a cultura brasileira exige escutar não apenas a música, mas também as vozes e os modos de vida que vieram antes do espetáculo.
Eu queria começar a entrevista pela escolha do tema do Carnaval, que celebra os 110 anos do samba — ou, mais precisamente, os 110 anos do primeiro registro gravado do gênero. Como recebeu a notícia da escolha do tema e o convite para se apresentar na abertura da festa?
Na realidade, o meu trabalho é o samba antes do samba. Eu falo que minha música é a chula do Recôncavo. A chula e suas variantes, o xarel, a chula amarrada, que é o canto de estiva, a chula corrida, que é a grande festa, depois que termina todo o rito. A chula é um verso aldeão português. É uma redondilha das aldeias portuguesas, um canto de labor, e que aqui chega e se encontra com um batuque de 200 anos. Aí a viola machete três quartos incorpora isso. E a viola é um instrumento de percussão ferida, como é o violão. Isso ajuda muito a entender esse casamento perfeito da viola e do batuque. O batuque é a chamada cabila. Algumas pessoas falam que essa viola machete três quartos veio da ilha da Madeira, e outras de Bragança. Eu já desconfio que essa viola nasceu aqui no Recôncavo. Eu diria que nasceu no Recôncavo, basicamente ali em São Francisco do Conde ou em Santo Amaro. Tem afirmação de Roberto Corrêa, que eu respeito muito, e de Ivan Vilela, que é um grande pesquisador. Mas a viola chegou aqui e foi criada como tudo no Brasil é criado. Pela necessidade, o binômio de formação e comportamento de um povo surge do que se come e do que se fala. Porque o homem é um só. Não muda.
Você tem sido incansável na observância da chula e do samba de roda como manifestações essenciais para entender os caminhos percorridos pelo samba e pela música popular brasileira. Por que essa compreensão é tão importante?
Na realidade, o nome não define o comportamento. A palavra tem que virar poesia para que as pessoas entendam a tradição. Quem define bem não é a palavra como significado. A palavra como significado é uma lei, é uma equação matemática. Uma equação tem que ser igual a zero. Na nossa cultura não. Na cultura, tudo é igual ao infinito. A cultura é um rio sem cais. É um corpo nu. O povo é um corpo nu. Por exemplo, o que é uma festa? Pelo nome já diz. Festa vem da fé. É o orixá da alegria. O samba de roda é conhecido como samba corrido. Quando terminava o rito do Santo Antônio, São João, Cosme e Damião, se fazia a reza. E você sabe que a palavra samba significa reza. Em quimbundo nós chamamos de semba, que significa um giro em torno do umbigo. Uma palavra está no mundo e a outra está no quimbundo. Nós temos uma pessoa que se chama Massemba. Como a língua é prefixal, Massemba é o plural de semba.
A arte é uma desgraça para a cultura. A arte é qualquer conteúdo referente à forma. A arte é um rio com cais. A cultura não tem cais
Me chamou atenção uma comparação que você fez ao dizer que o samba de roda está para a chula assim como o afoxé está para o candomblé. Pode nos explicar melhor essa relação?
O samba de roda é a parte profana da chula. Depois que termina a reza, se faz um encontro. Quando terminava de noite na roça tinha muita confusão, muita cachaça, muita briga. Então se fazia o samba de roda para que todos ficassem ali na roda mesmo até amanhecer para ir embora. Esse samba de roda me fala uma coisa engraçada: Dona da casa me dá licença/ D’eu sambar na varanda/ Com chapéu na cabeça/ E facão de banda. Quer dizer, as pessoas saiam da roça bêbado, com o facão na cintura. E bêbado ia dançar. Então tinha aquelas pessoas que se vestiam de branco no samba de roda, na roça, que iriam apartar. Às vezes dava muito bêbado e não precisava botar para fora. Abraçava. Era uma atitude democrática belíssima. Abraçava a pessoa que já estava mais ou menos tropeçando e tirava da roda. Olha que inteligência, que beleza de sociedade. Hoje é que tem um cara segurando a corda e a polícia batendo.
Queria aproveitar esse gancho para perguntar como é sua relação com o Carnaval?
Eu saio há 26 anos num bloco de samba, o bloco Alvorada. E da família Vadinho, Alaíde. É a única coisa que me tira e me leva de volta para Santa Amaro feliz. Me tira e me leva de volta. Porque você vê que é um respeito à tradição. Ela nasceu ali no Gravatá. Naquela fonte do Gravatá, na Rua da Independência, perto do Campo da Pólvora. Na rua que fica defronte ao Corpo de Bombeiros na Barroquinha. É lindo aquilo ali. E não sou de elogiar a terra alheia, não. Eu sou elogioso à minha terra. Mas eu transporto aquilo. É um pedaço de Santa Amaro quando venho aqui. Eu venho sempre. É uma família que me adotou. Fico muito feliz em tocar no Alvorada. Venho com muito prazer.
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E, para a abertura do Carnaval, você está preparando alguma coisa especial?
Não, eu preparo a minha alma para tomar banho de felicidade com a família Alvorada. Depois eu vou embora. Vou embora para Santa Amaro. Volto porque é um lugar onde eu não devia nem ter saído.
Falando um pouco sobre origem do samba, a primeira música considerada de samba, “Pelo Telefone”, foi gravada no Rio de Janeiro, na casa da santa amarense Tia Ciata…
Eu fico chateado às vezes quando falam assim: uma baiana. Ciata nasceu em um lugar da Bahia. Eu vi o texto do Carnaval e fiquei chateado. Porque ele fala de mudança. Que ela mudou. Ela nunca mudou. Você é munícipe. Você nasce num lugar. E por isso que você é cidadão daquele lugar. O artista é uma parcela mínima da cidadania, que geralmente é usada por ele para se proteger. Proteger os seus segredos. O verdadeiro artista é aquele que sai da sua terra. Porque fora dela, ele fica mais à vontade para mentir. Eu não posso mentir. Eu gostaria de mentir. E merecia até mentir bem. Porque eu ficaria mais protegido ao falar da chula do Recôncavo e suas variantes, se eu pudesse não ter morado lá. Porque garantiria ao mundo, vamos dizer assim, que eu criei isso. Chamaria muito mais atenção do que trazendo meus ídolos, que nunca apareceram no jornal. E que viveram aquele mundo deles que é o meu mundo.
Você tem uma música feita com seu filho, ‘Deu foi dó’, que fala um pouco disso?
Quando meu filho foi ver meu ídolo, João do Boi, ele estava capinando o chão. E aí ele ficou assim: ‘Pô, meu pai’. E escreveu ‘Deu Foi Dó’. Fiz com o meu filho caçula, João Mendes. Ele mora em Salvador. Todas as minhas filhas moram em Salvador. Só Léo que mora em São Paulo e também é músico. Minha filha mora aqui e olha o que o neto faz. Eu tive que comprar um apartamento em frente da casa da minha filha para poder ficar mais perto. Não tem coisa melhor do que isso.
Você costuma dizer que neto é uma maravilha…
É melhor que filhos. Se eu pudesse saltava os filhos. Já ia direto para os netos. Viveria muito mais anos. Porque filho é bom, mas o melhor é que faz o trânsito para o neto. O neto é melhor do que você, porque você vai caminhando para você. E no caminho você vai perdendo. Quando você nasce, você nasce inteligente. A inteligência é irmã gêmea do empirismo. Por isso que a criança erra e a Deus a protege. Por não ter noção do perigo, faz bobagem demais. E só quem percebe é você, que é avô. Esses riscos todos que a criança corre é merecidamente da inteligência. Mas quando você vai ficando um pouco mais velho, vai perdendo um pouco da inteligência, porque a compreensão chega e dá um freio nela. Obriga você vai olhar para trás e ver os perigos que passou (risos).
Você, como disse, conviveu com muitos tocadores de viola machete e aprendeu diretamente com eles a técnica tradicional do instrumento. Como foi levar essa experiência para o violão popular?
A viola machete três quartos é para fazer a chula, o samba de estiva, canto amarrado. Porque a estiva é um trabalho muito pesado. Aquelas pessoas que trabalham carregando peso. Então elas cantam de uma maneira muito mais lenta. Eu não criei nada. Eu sou um péssimo músico. Agora um bom copiador. A viola é um pouco maior. Eu era professor de matemática. E fui refém da razão por muitos anos. Eu perdi meu pai muito cedo, com 13 anos. Quando eu perdi meu pai, foi um vazio profundo. Filho caçula de pais velhos. Você entende? A relação de filho, neto e avô. Eu estava chegando e meu pai naturalmente saindo. Foi difícil entender que era necessário a saída dele. Porque estava chegando a minha necessidade também.
A matemática foi uma válvula de escape a essa perda?
A matemática diz que os opostos estão à mesma distância da origem. E a fusão leva à origem. A origem é o nascer. O nascer é morrer. Não tem como você não morrer. Nem ter nascido. Quem me explicou isso não foi a matemática. Foi violeiro. Eu tocava com ele, Seu Tune. Ele era especial. Só tomava café, chá e água. O violeiro não fala palavrão. E eu nasci dentro do palavrão. Minha mãe xingava muito. Eu adoro xingar. Mas ele proibia. Eu ficava com vergonha de xingar na vista dele qualquer coisa. Então eu ia lá para ele e me sentia um homem. Com ele eu ficava polido.
E ele era muito bem-nascido e muito bem-criado. Era um homem civilizado, mas não tinha escolaridade. A civilidade fora da educação. Aí você vê que a educação não tem nada a ver com cultura. Muito menos a arte. A manifestação cultural surge de uma maneira já pronta, com a arte e com a educação. E Seu Tune me disse isso. Um dia eu disse para ele assim: Seu Tune, eu não estou conseguindo tocar igual ao senhor. Ele me respondeu assim: ‘Toca do seu jeito. Você não sou eu’. É um postulado. Ele foi mais longe do que Bhaskara, um matemático do Século XII, que criou esse axioma: os opostos estão à mesma distância da origem. Ele acabou de me dizer que para se ser igual é necessário ser diferente.
Você costuma falar que arte acaba matando a cultura. O que quer dizer com isso?
A arte é uma desgraça para a cultura. Porque a arte é uma exceção. A arte é qualquer conteúdo referente à forma. A arte é um rio com cais. A cultura não tem cais. Você já viu um rio furar uma barreira ou um obstáculo. Ele espera. Ele vai se fortalecendo e um dia contorna. O contornar é sabedoria. O Carnaval, que era uma manifestação cultural, hoje em dia é uma manifestação artística. Isso não é muito legal. Porque a arte vira produto. E, como produto, ela dá muito dinheiro. É economicamente perfeito. Quem é que faz o Carnaval? Quem é que pula o Carnaval? Meu pai dizia assim: meu filho nunca arruma sua casa para receber visita. Deixa sua casa arrumada porque você mora nela. O que é que o Carnaval faz? Prepara a cidade de Salvador e depois o pessoal vai, vestido absurdamente folclorizado, receber os turistas no aeroporto. É muito cruel.
Mas voltando à comemoração dos 110 anos da gravação de “Pelo telefone”, ela é genial. Primeiro que ela acontece no ano de 1916. É o segundo ano do governo do (presidente) Venceslau Brás. Essa composição foi feita na casa de Tia Ciata. Olha como Santo Amaro está presente na Baía da Guanabara. Eu sempre digo que Santo Amaro não é uma cidade. É uma república independente do Subaé. É um país, uma nação diferente. Vou lhes explicar porquê. Tia Ciata nasceu em Santa Amaro em meados do século XIX, no dia 13 de janeiro de 1854. Vai embora para o Rio de Janeiro em 1876, com 22 anos de idade. Vai menina, com a filha Isabel. Fazia comida para vender. Eu te falei que o que se come e o que se fala é o que define o comportamento de um povo. Sem isso não tem definição. Não tem comportamento, nem sotaque. O cidadão é o seu sotaque. Por isso que eu não sou baiano. Eu sou santo amarense.
Inclusive, você costuma falar que a cultura da Bahia não é só Salvador…
Não é mesmo. A Bahia é grande. Ela tem que misturar a cultura “iorobaiana” com a cultura cabocla. Mas não sou eu quem diz isso. Professor Cid Teixeira, que não é nem santo amarense, e quem definiu isso bem. O professor Darcy Ribeiro também. A educação com Paulo Freire. O professor Anísio Teixeira. O próprio Caetano fala isso. O Gil faz isso, quando as suas canções impõem as redondilhas lusitanas. É outra coisa. Estou falando aquilo que Jorge Portugal me ensinou.
Eu queria voltar a essa questão do carnaval, porque o enredo deste ano da escola Beija-Flor, no Rio, vai contar a história do Bembé do Mercado, festa que toma as ruas de Santo Amaro. Como você recebe esta homenagem?
É uma homenagem merecida ao Bembé do Mercado, que é uma combustão espontânea. Quando João de Obá (fundador do Bembé) sabe que está livre – nunca houve liberdade de fato mas tudo bem. Mas, quando João de Obá sabe da Lei Áurea, no dia 13 de maio, sai louco comemorando e passa na Ponta Xaréu, em Santo Amaro, dentro do mercado, chamando as pessoas para comemorar essa tal liberdade. E todos vão para o mercado. Por que acontece no mercado? O mercado é o espaço mais democrático de um lugar. E a feira em Santo Amaro é onde todos se encontram. Eu sou filho da feira. É lá que nutre a minha composição, nutre o meu discurso, a minha vida. Eu não seria eu se não tivesse a feira. É na feira que eu encontro toda a informação que precisava.
O que o Carnaval faz? Prepara a cidade e depois o pessoal vai, vestido absurdamente folclorizado, receber os turistas no aeroporto. É cruel
Mas como você recebe essa homenagem?
Fico feliz, embora eu ache que a cidade não vai usar isso muito bem. Alguns oportunistas, alguns políticos vão aproveitar isso. Mas o cidadão comum não está sabendo. Então, fico com medo. Por exemplo: este ano será uma grande festa em Santo Amaro. Mas essa festa é montada para os turistas. Eu não frequento mais a festa de Santo Amaro. Eu faço todo ano, na sexta-feira antes da lavagem, no distrito chamado Pedras, onde moram vários amigos meus. Escolhi um amigo meu que tem um bar chamado Mané, um negro sudanês. O cunhado dele foi quem me deu autorização para tirar a escola de música. Um grande músico, o senhor Osvaldo Assis. Lá eu comemoro, reúno os amigos, falo sobre Santo Amaro e toco violão. Mas não como artista. É o cidadão prestando contas. É minha herança cultural.
Por falar em controvérsias, há uma que ainda divide opiniões: a origem do samba. Ele nasceu na Bahia, trazido pelos escravizados, ou tem sua origem no Rio de Janeiro? Você, que tem uma longa trajetória não apenas como músico, mas também como pesquisador, como vê essa discussão?
Jorge Portugal e eu fizemos uma canção falando sobre isso. Uma vez perguntaram a Riachão e Batatinha sobre isso. E Batatinha disse logo: o samba vem do Rio, porque o melódico carioca é mais popular. Mas Riachão é naturalmente baiano. O único pecado de Riachão foi não ter nascido em Santo Amaro. Uma injustiça. Mas quando perguntaram isso, Riachão pegou um malandro de Santo Amaro para tocar viola com ele. E criou um tipo de chula, que é muito raro, chamado ribita: ‘Cada macaco no seu galho’. Com essa discussão toda, Portugal fez um letra que diz assim: O samba já existia antes do samba/ Lá no Recôncavo, onde tudo começou/ Passaram-se muitos anos e muitas rodas de bamba/ Só bem depois o telefone tocou/Tocou para avisar ao resto do Brasil/ O que Ciata sabia e lhe contou/ Pelo telefone o som chegou ao Rio/Mas foi na Bahia que ele começou. Mas não acho que foi na Bahia. Eu acho que começou em Santo Amaro mesmo.
Essa parceria sua com Portugal e com (José Carlos) Capinam produziu tanta coisa boa…
A língua é a função. Você pode aprender música na razão acadêmica, na razão pitagórica. A música matemática tem uma solução, está dentro de um pentagrama. A música natural, da condução espontânea de um povo, nasce do rio sem cais. Ela é filha do rio sem cais. Não se pode vestir uma melodia, porque ninguém pode desafinar. Por isso as culturas viram mistérios. Quem criou a desafinação foi a razão, porque criou o acorde. Quem acabou o corpo foi a roupa. Todo corpo é belo. Ele nasce para ser belo. E tem que ser visto como belo. Mas existe uma coisa miserável, chamada roupa. E a roupa que veste a canção é que prejudica a melodia, que é bela. Uma melodia nua, é de chorar. E ela não está no pentagrama. Está no hexagrama. É o tom que resolve a canção. O tom é a cor. Você não precisa botar uma paleta de várias cores para fazer uma canção. Pode ser toda azul. O degradê do azul é o que dá entonação a canção. Existe o ‘musicor’. Existe o hexagrama que transcende o pentagrama. Quem disse que o dó é dó. Isso é uma bobagem.
Você tem mais de dez álbuns autorais já lançados. O que você está planejando fazer agora?
Estou fazendo agora um disco com Capinam. É um quarto de século de parceria, de amizade. Eu nunca imaginei na vida que iria ser parceiro de Capinam. Eu fui parceiro por acaso. Nunca achei que iria fazer música com alguém que não fosse de Santo Amaro. Eu fui enganado e achei bom. Me enganaram muito bem. Paulo Dourado, quando estava fazendo a ópera 500 anos no Brasil em 2000, Capinam foi convidado para fazer os textos. E um desses textos que ele escreveu foi ‘Noiva Brasileira’. E uma madrugada eu recebi no fax, não tinha internet na época, a letra de Noiva Brasileira. Era três e meia da manhã. E recebo essa letra. É um depoimento de paixão pelo Brasil. Quando li aquilo,me comoveu. E saí cantando. De manhã cedo liguei para Portugal. Portugal disse, ficou linda, que beleza. Era uma canção de depoimento lindo sobre o Brasil. E fiz a canção. Comecei a cantar emocionado. Inclusive me lembro que minha mulher falou assim: você está sendo contraditório. Você fala de Santo Amaro, mas está cantando sua paixão pelo Brasil…
Eu já ouvi você falando que Santo Amaro é marcado pela dor. Como é isso?
O Brasil é marcado pela dor. Santo Amaro, prioritariamente. Na década de 30, era o segundo maior município da Bahia. Santa Amaro contribuiu, durante 400 anos talvez, com 5% do PIB da coroa. Foi um dos primeiros povoados brasileiros, criado em 1557. E, como vila, vivemos de 1727 a 1837. Vivemos 110 anos como vila. E, como vila, no dia 22 de junho de 1822 nós fizemos uma ata. E, em um dos itens da ata, Santo Amaro pede uma universidade brasileira. E, pelo menos até agora, não tem. É estranho isso. Acho que é uma coisa espiritual. Uma coisa cármica.
Você é músico, compositor, pesquisador do samba antes do samba. É uma coisa cármica também?
Eu sou neto de padre. Padre preto. Meu pai não teve o nome do meu avô. Teve o nome da minha avó. Quando o meu pai nasceu ele tinha que ter o nome dos pais do filho. O último nome do registro. Aí o meu avô lhe deu o nome da devoção. O nome do meu pai, Jaime de Lourdes Mendes. O meu pai foi assim. E eu convivi com ele a vida inteira. Mas fui puxado pelo candomblé. Eu adoro candomblé, talvez pelo sangue do meu avô. Ele era padre, mas era negro, alto e sofreu tudo isso na pele. Meu pai penou muito. Meu pai não falava muito, ao contrário da minha mãe. Minha mãe falava demais. Minha mãe, Francisca Romana Caribea de Araújo Pinho. Ela estudou na sacramentina, onde conheceu meu pai, que era da família Oliveira Mendes. Tenho esses dois carmas. Na tradição e no nome. Mas me coloco sempre a disposição do orixá. O orixá me salvou e salvou meu filho. Eu fiz uma canção com Antonio Risério, chamada “Oxotocanxoxo”. Eu fiz em homenagem a Oxóssi.
O verdadeiro artista é aquele que sai da sua terra. Porque fora dela, ele fica mais à vontade para mentir. Eu não posso mentir
Raio-X

Roberto Mendes, 73 anos, é compositor, cantor, violonista, arranjador e pesquisador, nascido em Santo Amaro, onde vive até hoje. Com mais de dez álbuns autorais gravados, é reconhecido tanto pelo talento musical — expresso em gêneros como MPB, chula e samba de roda — quanto pela força de suas composições, muitas delas eternizadas na voz de sua conterrânea Maria Bethânia. Inspirado pela riqueza cultural do Recôncavo, o artista também se destaca pelos seus estudos sobre a cultura da região, parte dos quais foi transformada em livros e documentários.
Fonte: A Tarde



