Curso de teatro em Salvador propõe mergulho profundo na dramaturgia de autoria negra –
O fazer teatral pode trazer benefícios profundos para o desenvolvimento pessoal, social e emocional, como o aumento da autoconfiança, o aprimoramento da comunicação, o estímulo à criatividade e o desenvolvimento da empatia.
Para quem busca desenvolver essas habilidades por meio de uma abordagem que foge do tradicional, o curso livre Vê se me erra — Práticas teatrais de desvio para um público cansado de ser alvo surge como uma ótima opção em Salvador. A formação é conduzida pelo professor, diretor e dramaturgo Julio Angelo e apresentada pela Escola de Dança da Funceb, em parceria com o Centro de Formação em Artes.
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As aulas acontecem às segundas e quartas-feiras, das 18h30 às 19h30, na sala cênica da Escola de Dança da FUNCEB, no Pelourinho. O investimento é de R$ 150 mensais ou R$ 40 por aula avulsa. As inscrições são feitas presencialmente, diretamente com o professor, e o curso segue até dezembro.
A proposta parte das noções de “erro” e “desvio” como estratégias de negociação frente às imposições conservadoras do teatro. A partir desse ponto, o curso também propõe reflexões sobre visões excludentes, muitas vezes avessas à diversidade de identidades, subjetividades e ideias.
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Bagunçar o coreto
Júlio explica que a ideia do curso está intimamente ligada à sua trajetória como artista-pesquisador, dentro e fora da universidade, além de um inconformismo diante das estruturas institucionais e sociais. “Unir o anseio de uma investigação mais formal no campo das artes cênicas, da contemporaneidade e da negrura com um desejo pessoal de ‘bagunçar o coreto’ me fez estruturar a proposta do curso, organizada como um chamado ao coletivo”.
Nos encontros, será incentivado um espaço de investigação e criação teatral inspirado na cena negra, reconhecida como fonte histórica e contemporânea de resistência artística e política. Os teatros negros, em sua pluralidade de linguagens, artistas e grupos no Brasil, têm as mulheres pretas como protagonistas nos palcos e nas transformações socioculturais.
Obras de Mônica Santana, Onisajé, Maria Shu, Dione Carlos e Grace Passô, entre outras, serão referências centrais nesse mergulho cênico.
“Na prática, vamos ler dramaturgias de autoria negra, especialmente de mulheres pretas, improvisar a partir delas e dialogar com outras tradições e performances culturais que costumam ser subvalorizadas, como as Caretas do Acupe e o Nego Fugido, manifestações do Recôncavo Baiano que ainda confrontam a colonialidade e alimentam uma memória de resistência e reinvenção negra”.
Segundo ele, a escolha da cena negra como campo principal de investigação está relacionada à sua capacidade de provocar novas leituras de mundo. Com forte vínculo à luta antirracista e ao desejo de expansão de possibilidades poéticas e subjetivas, essa cena rompe com padrões normativos e excludentes que têm a branquitude como referência dominante.
“Vamos beber diretamente dessa fonte contínua de água fresca, que busca reconhecer sua nascente de origens africanas, suas confluências culturais e, ao mesmo tempo, incentivar o transbordamento estético das autorias negras”, afirma o diretor.
Vivências em cena
Durante as aulas, serão trabalhados desde jogos de improvisação até a criação de cenas autorais, com foco na expressão vocal e corporal, na percepção de presença e na construção coletiva. Para isso, serão utilizados textos teatrais e literários, vídeos de espetáculos e entrevistas com artistas da cena negra.
O curso também propõe o diálogo com outras linguagens artísticas, como artes visuais (pintura, fotografia e cinema) e música, ampliando os caminhos da criação teatral contemporânea.
Segundo Júlio, as vivências dos alunos são parte essencial do processo e serão conectadas a uma construção artística coletiva. Para isso, é fundamental que cada participante se sinta acolhido e disposto a compartilhar inseguranças e desejos, sempre com consciência do que contribui para a experimentação artística.
“Os encontros podem ser terapêuticos, mas nosso objetivo é mergulhar na prática teatral e na percepção performativa de cada um”.
Com o objetivo de ampliar o acesso à formação artística e promover inclusão social, o curso é aberto a todas as pessoas interessadas em teatro, com ou sem experiência prévia, que desejam mergulhar em suas contradições e fabular novas formas de expressão.
Cansado de ser alvo
O diretor destaca que pessoas negras, mulheres e a comunidade LGBTQIAPN+ são especialmente bem-vindas a participar com suas vivências, sonhos e fabulações. A expressão “público cansado de ser alvo”, presente no subtítulo do curso, dialoga diretamente com esses grupos. “Gosto desse trocadilho porque ele calibra a ironia do termo usado no marketing com um cenário real de opressões a grupos historicamente marginalizados no Brasil”, explica o dramaturgo.
Ele também reforça o convite. “Faço um chamado especial a quem está cansado de sofrer violências cotidianas e de ocupar as principais estatísticas de morte, como no genocídio da juventude negra e nos casos de feminicídio e transfobia”.
Para Júlio, o principal objetivo do curso é formar agentes performativos mais conscientes, dispostos a criar “motins e fugas poéticas” que inspirem transformações, ainda que mínimas, na realidade.
“O teatro é feito por gente. Quando passa a ser ocupado por pessoas antes colocadas à margem, as estruturas se rompem e surgem outras formas de experimentar a cena, e, ao mesmo tempo, a vida”, conclui Júlio.
Vê se me erra — Práticas teatrais de desvio para um público cansado de ser alvo / Prazo: Março a dezembro, aulas às segundas e quartas-feiras, 18h30 às 19h30 / Sala Cênica da Escola de Dança da FUNCEB (Rua da Oração, nº 1, Pelourinho) / Investimento: R$ 150 (mensal), R$ 40 (aula avulsa) / Inscrições no local, diretamente com o professor
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
Fonte: A Tarde



