sexta-feira, março 6, 2026
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nova série true crime muda visão sobre feminicídios

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, é uma das ouvidas em nova série –

Antes do disparo, há o silêncio. Antes da explosão, o rastro. Em um país que teve quase seis mulheres mortas por dia em 2025 e segue impressionando pela brutalidade ainda no início do ano, cada caso carrega uma história que começou muito antes da manchete. É nesse território entre a faísca e o incêndio que a série documental ‘Estopim’ estreia no dia 8 de março, no Canal Brasil.

Exibida ao longo da semana do Dia Internacional da Mulher, a produção em cinco episódios propõe inverter a lógica tradicional do true crime: em vez de perseguir a mente do assassino, investiga as estruturas sociais, culturais e institucionais que permitem que a violência contra mulheres continue se repetindo.

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“O true crime que eu cresci assistindo trata muito a partir do ponto de vista masculino. Pouquíssimos diretores são mulheres, pouquíssimos são feitos por diretoras. E também há um foco muito grande em buscar esse assassino. Acaba-se fazendo uma linha que segue o assassino e não necessariamente tenta dar voz às vítimas ou buscar os problemas estruturais que colaboram para que esses crimes aconteçam”, afirma a diretora Ana Teixeira.

“E se buscássemos os culpados para além dos que apertaram o gatilho? Se o feminicídio é o grau máximo da violência contra a mulher, rebobinar a fita e questionar o caminho que leva até essas agressões pode ajudar a evitar novas mortes”, completa ela.

Estopim organiza os casos por tipologias de violência: “Crimes Políticos” (8/03) analisa os assassinatos de Marielle Franco, Patrícia Acioli e Dora Barcellos para mostrar que não se tratam de fatos isolados, mas de mortes atravessadas por falhas institucionais e violência de gênero, enquanto “Crimes Conjugais” (9/03) revisita os casos de Eloá Pimentel, Ângela Diniz e Sandra Gomide, questionando a cultura de posse sobre o corpo feminino e retomando o debate sobre violência doméstica, com depoimento de Maria da Penha.

Já “Crimes Sexuais” (10/03) parte das histórias de Aída Curi e Mônica Granuzzo para discutir o tratamento sensacionalista de abusos e assassinatos. “Crimes de Ódio” (11/03) aborda os assassinatos de Gisberta Salce, Dandara dos Santos, Luana Barbosa e Carol Campêlo, evidenciando como gênero, identidade de gênero, orientação sexual, raça e classe atravessam essas mortes; e “Crimes Invisibilizados” (12/03) discute feminicídios que permanecem fora do debate público por conta da origem, classe ou etnia das vítimas, destacando a Marcha das Margaridas como símbolo de resistência coletiva.

Sob a direção de arte e ilustrações de Lívia Serri Francoio e Luma Flôres, a obra utiliza animações e metáforas visuais como fio condutor narrativo. Essa escolha estética cumpre um papel fundamental: abordar os crimes com sensibilidade, preservando a identidade das vítimas e evitando o sensacionalismo da exposição direta.

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Mulheres que desafiaram o poder

O primeiro episódio revisita os assassinatos da vereadora Marielle Franco e da juíza Patrícia Acioli para discutir o que acontece quando mulheres ocupam espaços negados a elas.

“Historicamente, a gente demorou muito para acessar certos lugares, seja o da participação política, seja o escolar. Tudo foi depois que os homens já tinham esse acesso. Quando a gente para para pensar nisso e nas estatísticas de mulheres em posições de poder, percebemos que são pouquíssimas nesses espaços. E tanto no caso da juíza quanto no da Marielle, eram mulheres que não se calavam. A gente percebe que certas pessoas não aceitam ser desafiadas. O corpo feminino ainda é considerado mais descartável”, analisa a diretora.

“Você vê mulheres que tiveram trajetórias de muita luta para chegar lá e depois foram interrompidas. Isso pode desestimular outras mulheres, mas acaba sendo o contrário: faz com que a gente perceba que é difícil, mas que é importante estar ali, atenta e forte”, completa.

Obra utiliza animações e metáforas visuais como fio condutor narrativo

Obra utiliza animações e metáforas visuais como fio condutor narrativo | Foto: Divulgaação

Para Mônica Benício, viúva de Marielle, a perda ultrapassa o campo político:

“Quando Marielle é assassinada, todo mundo perde um pouco também de uma Marielle que era sua, fosse pela identificação de ser o corpo feminino, fosse pela identificação de ser o corpo negro, o corpo favelado, o corpo LGBT, o corpo feminista, o corpo socialista. Então, em algum lugar existe um ponto de comoção de uma imensa maioria da sociedade, que é o retrato da diversidade do Brasil, que olhou para a Marielle, entendeu a gravidade do que estava acontecendo ali quando aquela mulher foi executada”

Ainda assim, ela vê uma resposta coletiva potente.

“Nisso tudo, eu acho também que se a gente consegue ver alguma beleza no caos e, para mim, talvez uma espécie de consolo: ver que a sociedade respondeu à expressão máxima da humanidade da Marielle, que foi esse entendimento do que era a mulher, a defensora de direitos humanos. Aquele conjunto de coisas refletiu isso no símbolo e respondeu que não só a vida da Marielle não teria sido em vão, mas como a morte também não será”.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, lembra que a liderança da irmã era perceptível desde cedo.

“Eu sabia desde o início que ela seria líder. Não sabia se seria uma líder política, mas eu sabia que ela seria líder. Desde quando, sei lá, por exemplo quando faltava luz e água na Maré [bairro no Rio de Janeiro], ela era a primeira a descer para agitar com as pessoas que estivessem de volta”, lembra.

Quem vai parar o disparo?

Maria da Penha tem história lembrada em série

Maria da Penha tem história lembrada em série | Foto: Divulgaação

Nos episódios sobre crimes sexuais e conjugais, a série questiona por que a sociedade continua culpando mulheres pela violência que sofrem.

“Existe uma falsa sensação de modernização, mas os julgamentos continuam pautados numa moral muito conservadora. Hoje os instrumentos de linchamento são virtuais, mas a narrativa de culpabilizar a vítima permanece”, afirma Ana.

O título da série, Estopim, sugere que o crime é apenas o fim de um rastro de pólvora. Mas para a diretora, a obra não aponta para um único responsável.

“Acho que é um chamado para todo mundo. A partir do momento que a gente entende que essa violência não está só em um monstro escondido, mas somos nós enquanto sociedade, a responsabilidade se amplia. O feminicídio não é um crime inesperado. Ele resulta de relações íntimas e de ciclos de violência”, conclui.

Ao optar por não ouvir novamente os agressores, muitos já amplificados pela mídia, a série assume um posicionamento.

“Esse outro lado já foi ouvido muitas vezes. A nossa proposta foi fazer a abordagem a partir do ponto de vista das vítimas, de como essas mulheres se sentiam, quais eram os sonhos delas, o que foi interrompido. Quando acontece um feminicídio, não é só uma pessoa que morre. São histórias interrompidas, mães que perderam filhas, filhos que ficam.”

Entre números recordes e histórias que insistem em se repetir, Estopim faz uma pergunta que vai além da tela: se o crime é a explosão, por que seguimos ignorando a pólvora?



Fonte: A Tarde

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