Natural de Camamu, na Bahia, Edson Bindilatti é o maior nome da história do Brasil no bobsled, e uma lenda dos esportes de inverno. O baiano disputou seis edições dos Jogos Olímpicos de Inverno.
Edson Bindilatti concedeu uma entrevista exclusiva ao portal A TARDE, abordando a sua história e como foi o processo para chegar em uma marca tão expressiva nos Jogos Olímpicos de Inverno.
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Momento em que decidiu atuar no bobsled
Edson tem uma trajetória incomum no esporte, já que começou sua carreira como atleta do atletismo e somente depois migrou para o bobsled. O baiano ressaltou sua vontade de participar dos Jogos Olímpicos.
“Eu venho do atletismo, e eu sempre quis ir para os Jogos Olímpicos, era o meu objetivo, minha vontade mesmo era de ir para os Jogos Olímpicos, até então de verão. Eu comecei a conhecer os Jogos Olímpicos de Inverno depois que eu conheci o Bobsled. E depois que eu entendi como funcionaria, passou a ser o objetivo e eu comecei a me dedicar.”
O medo da prática de uma nova modalidade foi grande, assim como as dificuldades enfrentadas na adaptação. Ainda assim, o foco no esporte levou o baiano a se tornar um dos melhores do Brasil.
“Eu era campeão brasileiro, sul-americano, tinha resultados expressivos no atletismo e aí queriam montar uma equipe brasileira de Bobsled. Eu nem sabia o que era Bobsled, né? E aí, pelos meus resultados, vieram falar comigo se eu queria participar, começou.
“Eu ia de cabeça baixa rezando. Depois que fui entender melhor, fui perdendo o medo e tendo vontade de melhorar cada vez mais. Acredito que esse poder de querer ser melhor que o atletismo me deu, me levou para outras modalidades também”, completou o baiano.
Edson completa que como parte do processo para introduzir o bobsled, sofreu repressão da própria familia por conta do perigo do esporte.
“Na época minha mãe falou assim: ‘Não, é muito perigoso, você vai se machucar’, Mas aí eu fui conhecer, gostei. E se você me convidar para andar de balão ou paraquedas hoje em dia eu não vou porque tenho medo, mas se me chamar para dentro de um trenó a 150 km/h, eu irei sem medo”, brincou.
Por que um especificamente um esporte de gelo?
Edson fala que o Bobsled que escolheu ele, ainda ressaltou que sempre teve gosto por velocidade e que a modalidade se aproximava do que ele tinha como gosto pessoal.
“Na verdade, eu falo que o Bobsled que me escolheu. Eu vivenciei pela primeira vez a modalidade e falei: ‘Caramba, que esporte legal!’. Sempre gostei de velocidade por conta de dirigir carro e moto. Aí depois que virei piloto, eu falei: ‘Caramba, que modalidade sensacional!’. Porque o Bobsled não vai sozinho, né? Ele é completamente controlado. Você tem o comando ali dentro do trenó, você dirige, as lâminas vão para a esquerda e para a direita. Então você tem que andar na pista com os treinadores, entender o que tem que fazer. Não é só chegar, empurrar o trenó e descer ladeira abaixo, tem todo um processo e um trabalho para você fazer um resultado expressivo”, explicou.
Mudança de visão de mundo
Bindilatti ressalta o quanto a sua visão de mundo mudou depois que saiu de Camamu, no baixo Sul da Bahia, e foi para o mundo do esporte, competindo em esportes no gelo.
“O esporte desbrava coisas que você provavelmente não conheceria se tivesse que pagar para conhecer. Poucas pessoas podem ir nos lugares que você foi como atleta. Hoje, olhando para trás, vejo que me transformei em uma pessoa muito diferente, muito generosa, que respeita as pessoas e consegue diferenciar determinado tipo de ação e reação para agir da melhor forma. Tudo o que aprendi, vivenciei e conheci, o esporte me trouxe”, contou o baiano.

Edson recebendo premiação
Lições de vida para outros jovens
Quando questionado sobre quais lições de vida, que adquiriu com a experiência das competições e as dificuldades que a vida de atleta ele passaria para os mais jovens, Edson ressaltou a humildade, no qual ele considera um dos principais fatores de sucesso.
“Acho que a palavra principal é humildade. Humildade de aprender, humildade de escutar as pessoas, de interpretar algumas reações que as pessoas têm. Acredito que você tem que aprender a ouvir mais do que falar. É isso que eu passaria para as pessoas, porque a gente vive num mundo que é muito imediatista, muito dinâmico. Então a gente tem que tentar entender o que está passando ao nosso redor para poder tomar algumas atitudes que façam a gente crescer e evoluir”.
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A final mais especial para Edson
Dentre as seis olimpíadas que Edson Bindilatti disputou, ele chegou até a final em duas. Ao ser questionado sobre qual foi a que teve um “gosto especial”, o atleta afirmou a de 2022, e ressaltou o fator pós pandêmico.
“Acho que a de 2022. Porque nós viemos de uma pandemia onde nós não podíamos sair do país para competir, os outros países estavam competindo o tempo inteiro, enquanto a gente estava em um lockdown indefinido.”
Edson completou falando sobre a dificuldade de competir aquela olimpíada, no qual citou as dificuldades de equipamentos e como a vontade superou a técnica e fez o Brasil chegar na final.
“E a gente, nessa Olimpíada, competiu com trenó alugado, lâminas emprestadas dos americanos, mas a vontade que a gente estava era muito grande e foi onde a gente obteve a primeira final da história do Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno no Bobsled. Então isso foi um feito muito grande.”

Pensamento no futuro
Edson se aposentou aos 46 anos após os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina neste ano. Mas a aposentadoria não vai afastar o baiano das pistas de gelo. O Projeto Sonho Real, que está vinculado ao Instituto Edson Bindilatti, está perto de inaugura um centro de treinamento para o bobsled em São Caetano do Sul (SP).
“São nove modalidades de lutas que tem ali e a gente conseguiu um espaço para montar nosso centro de treinamento, que é uma pista de largada. É um trenó de rodinha que corre sobre trilhos e vai ter a parte de preparação física, uma pista de atletismo. E ali, além de ser um trabalho de alto rendimento, será um projeto social para tirar as crianças da rua, dar oportunidade em uma modalidade diferente e, quem sabe, uma dessas crianças representar o Brasil em Jogos Olímpicos ou competições internacionais”, concluiu.
Fonte: A Tarde



