sexta-feira, abril 10, 2026
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Kiss & Fly no Aeroporto de Salvador afasta motoristas: “Pagar para trabalhar”

A implantação do sistema Kiss & Fly no Aeroporto Internacional de Salvador já provoca um movimento de resistência entre motoristas de aplicativo e taxistas. A categoria projeta um impacto direto na oferta de serviços no terminal, com muitos profissionais planejando evitar a região para não “pagar para trabalhar”.

A principal crítica gira em torno do tempo limitado de 10 minutos para embarque gratuito e do custo considerado abusivo para a permanência além desse período.

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Possível impacto no serviço

Diante desse cenário, os trabalhadores já projetam uma diminuição drástica dos veículos na região do aeroporto, o que deve afetar diretamente os passageiros. “Não tem como. Vai acabar que os motoristas vão cada vez mais evitar trabalhar nessa região. É bem provável que isso aconteça, com certeza, porque para mim não tem condições”, afirma um dos profissionais ouvidos pelo portal A TARDE.

Outro motorista reforça a intenção de abandonar o terminal: “É melhor você sair e fazer suas corridas pela rua e ir emendando uma pela outra e não ficar nesse desespero de estar com o tempo limitado para poder entrar, sair ou aguardar aqui no bolsão, como eles estão querendo exigir da gente”.

O esvaziamento de corridas aceitas na região já é vista como uma realidade inevitável, como relata outro motorista profissional. “Vai ter uma diminuição drástica dos motoristas que vão rodar aqui na região, porque não tem condição de você ficar 40 minutos perdido e depois sair daqui para poder fazer outras viagens, rodar pela região aqui de São Cristóvão, Lauro de Freitas, para depois voltar novamente, não compensa”.

Tempo limitado gera insatisfação

A proposta do Aeroporto de Salvador é organizar o fluxo de veículos na área de embarque e desembarque por meio de cancelas e controle de tempo com o Kiss & Fly. Ao acessar o local, o motorista recebe um ticket e tem até 10 minutos para deixar ou buscar passageiros. Caso ultrapasse esse limite, será cobrada uma tarifa adicional, ainda não detalhada oficialmente.

Para permanências mais longas, a orientação é utilizar o estacionamento do terminal. Atualmente, o custo é de R$ 30 para até uma hora, com acréscimo de R$ 15 por cada hora ou fração adicional, valores que, segundo trabalhadores, tornam inviável a operação.

Além do tempo considerado insuficiente, há preocupação com possíveis congestionamentos na saída, o que pode levar à cobrança mesmo sem responsabilidade direta do motorista.

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Horário de pico será um caos na saída, igual no shopping, onde o carro da frente pode ter problema e não conseguir sair a tempo. Deveria ter uma tolerância maior, pelo menos 20 min, porque 10 min é pouco.”

Os gargalos do sistema

Para os profissionais que operam no terminal, a medida ignora a realidade prática do dia a dia. Entre os pontos mais criticados estão:

  • Sinalização deficiente: motoristas relatam que passageiros, especialmente turistas e idosos, têm dificuldade em localizar os pontos de embarque de aplicativos;
  • Risco de congestionamento: em horários de pico, o travamento da saída por outros veículos pode fazer o motorista estourar o tempo sem culpa direta;
  • Logística de embarque: o tempo de troca de mensagens e o deslocamento do passageiro com malas costuma superar os 10 minutos previstos.

Outro ponto criticado é o custo do estacionamento, visto como incompatível com a realidade da categoria.

“O estacionamento é caro demais, não tem condição de pagar 30 reais a hora, é pagar para trabalhar”, relato o motorista.

Os relatos também destacam dificuldades estruturais, como a localização e sinalização dos pontos de embarque, que podem aumentar ainda mais o tempo necessário para completar uma corrida.

| Foto: Andrêzza Moura / Ag. A TARDE

“Absurdo, né? Situação absurda. Às vezes a gente vai trazer uma pessoa cadeirante, traz o pessoal idoso, com dificuldade de locomoção. Às vezes até mesmo o pessoal que vem de fora não sabe onde é, não está tão bem sinalizado o local de embarque de aplicativo. As pessoas têm que ficar procurando.”

“A gente tem que estar trocando mensagem com a pessoa, dizendo onde a gente está, para poder a pessoa chegar até a gente. E leva mais do que o tempo que eles determinaram para a gente.”

Motoristas veem foco em arrecadação

Há ainda críticas diretas à motivação da medida, que, na avaliação de alguns profissionais, priorizaria arrecadação em vez de organização.

“É um valor mais caro até do que os shoppings de Salvador, é extorsivo. O aeroporto está fazendo agora é que eles querem cobrar pela área de embarque que eles falam, o passeio onde o passageiro fica aguardando para a gente fazer o embarque e desembarque, eles querem taxar a gente, esse valor aí, para poder aumentar o lucro deles.”

“Eles dizem que querem diminuir o acúmulo de veículos naquela região ali, mas tem outras alternativas que eles poderiam fazer isso. Tem carro clandestino que fica lá dentro o dia todo, com a viatura da Transalvador lá dentro o dia todo.”

Como funciona o sistema Kiss & Fly

Anunciado pelo Salvador Bahia Airport, o sistema Kiss & Fly, expressão em inglês que significa “beije e voe”, foi apresentado como uma solução para reorganizar o fluxo de veículos nas áreas de embarque e desembarque do Aeroporto Internacional de Salvador.

A proposta estabelece um controle rígido de acesso por meio de cancelas, onde cada motorista recebe um ticket ao entrar na área do meio-fio. A partir desse momento, passa a contar o tempo máximo de permanência: 10 minutos gratuitos para realizar o embarque ou desembarque de passageiros.

O sistema será monitorado com tecnologia de leitura de placas, permitindo ao aeroporto acompanhar com precisão o tempo de permanência de cada veículo e identificar possíveis excessos.

Com a leitura de placas, conseguimos saber quanto tempo cada veículo permanece.

Julio Ribas

“A gente fez os estudos, definiu o tempo de 10 minutos, mas, vamos monitorar e medir na prática. Com a leitura de placas, conseguimos saber quanto tempo cada veículo permanece”, explicou Ribas.

Caso o limite seja ultrapassado, o motorista será direcionado para o pagamento de uma tarifa adicional antes de deixar o local. Embora o valor oficial ainda não tenha sido confirmado pela concessionária, já há expectativa de cobrança por tempo excedente.

A orientação para quem precisar aguardar por mais tempo é utilizar o estacionamento do terminal, que atualmente cobra R$ 30 pela primeira hora, com acrréscimo de R$ 15 por cada período adicional.

Durante a apresentação, o CEO da concessionária no Brasil defendeu a medida como necessária diante do alto volume de passageiros que circulam pelo terminal diariamente, o que exigiria maior rotatividade no uso do espaço.

Julio Ribas, CEO Vinci Aiports no Brasil

Julio Ribas, CEO Vinci Aiports no Brasil | Foto: Andrêzza Moura / Ag. A TARDE

“Por exemplo: se 85% dos veículos ficam até 10 minutos, 5% ficam meia hora ou mais – esses nem entram na conta – e cerca de 10% ficam entre 10 e 12 minutos. O que a gente pode fazer? Ajustar. Talvez ampliar para 15 minutos”, avaliou.

Segundo ele, o modelo não deve ser fixo e poderá sofrer alterações conforme o comportamento observado na prática. A concessionária também rebate críticas de que o sistema teria foco em arrecadação e afirma que a proposta busca organizar o espaço e garantir maior fluidez no trânsito interno.

“Quem critica o projeto está focando nos que desrespeitam, mas não está pensando no direito das pessoas de terem uma área segura para parar, desembarcar e seguir viagem. Os 10 minutos iniciais são suficientes, mas haverá monitoramento e ajustes conforme a realidade”, reafirmou.

Apesar disso, a falta de definição clara sobre os valores de cobrança ainda gera incerteza. No entanto, o tema já havia sido antecipado com exclusividade pelo portal A TARDE, que revelou que a tarifa para permanência além do tempo permitido pode chegar a R$ 18.

Posicionamento da concessionária

Durante o lançamento do sistema, o CEO da concessionária foi questionado sobre a informação, mas evitou confirmar o valor e afirmou que a definição ainda não foi oficialmente divulgada.

Enquanto o Salvador Bahia Airport defende que a medida busca melhorar a fluidez e organizar o trânsito no terminal, motoristas argumentam que o modelo, da forma como está sendo proposto, pode afastar trabalhadores e encarecer o acesso ao aeroporto, criando um efeito contrário ao desejado.



Fonte: A Tarde

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