Indígenas chegaram a Brasília e montaram acampamento nesse domingo –
A 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) começou neste domingo, 5, em Brasília (DF), reunindo milhares de lideranças indígenas de todo o país para discutir o futuro dos territórios originários e da democracia brasileira.
Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, milhares de lideranças ocupam o Eixo Cultural Ibero-Americano até o dia 11 de outubro.
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Entre as delegações presentes, a Bahia se destaca pela forte mobilização. Mais de 1.050 indígenas de 34 povos participam do ATL, além de representantes de comunidades tradicionais e povos de matriz africana, ampliando o caráter coletivo da luta.
Em entrevista ao Portal A TARDE, Agnaldo Pataxó Hã-Hã-Hãe, coordenador-geral do Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), ressalta a dimensão política e simbólica do encontro.
“O ATL é idealizado para que os povos de todo o país possam encontrar e repactuar a luta. Nesse momento, mais de 380 povos do Brasil se encontram em Brasília. Lideranças, pajés, organizações indígenas, parceiros, onde nós vamos dialogar sobre todas as lutas nossas, desde aquele local lá num município até a nacional”, afirmou.
Segundo Agnaldo, o acampamento vai além de uma pauta única e reúne diferentes frentes de enfrentamento. “Não é só o Marco Temporal, são várias decisões que já permeiam por várias outras questões […] O ATL é formado para isso e a gente também vai dialogar com o poder legislativo, executivo e judiciário por várias leis, vários marcos regulatórios na questão indígena e também as políticas públicas”, disse.
Combate a grupos criminosos e ao “Invasão Zero”
Um dos pontos mais críticos levantados pelas lideranças baianas é a segurança nos territórios. A denúncia recai sobre a atuação de movimentos que, sob o pretexto de proteção de propriedade, têm agido de forma violenta contra comunidades originárias.
“Nosso problema é legalização de organização criminosa, a chamada Invasão Zero, legalizado pelo estado brasileiro, que atua no Mato Grosso, no Pará, no Mato Grosso do Sul, Rondônia e fortemente na Bahia”, alerta Agnaldo Pataxó.
O Movimento Invasão Zero (MIZ), fundado na Bahia, é um grupo formado para assessorar produtores rurais envolvidos em disputas por terra.
Para as lideranças, a insegurança é um reflexo direto da ausência de demarcações. “Segurança é uma das questões básicas da Bahia. Temos muitas lideranças presas e perseguidas. Temos muitos movimentos criminosos legalizados na região. E a demarcação do nosso território, que é o básico. O Congresso Nacional vem tirando nosso direitos e é justamente isso que aqui estamos unindo forças pra lutar”, completa o coordenador.
Demarcação avança no debate jurídico
Enquanto o ATL mobiliza as ruas e os espaços políticos em Brasília, decisões recentes reforçam a pauta da demarcação de terras indígenas na Bahia. O Ministério Público Federal (MPF) afirmou não haver impedimentos técnicos ou jurídicos para o reconhecimento das Terras Indígenas Barra Velha do Monte Pascoal e Tupinambá de Belmonte, no sul do estado.
As áreas, que somam mais de 60 mil hectares, já possuem estudos concluídos e aguardam apenas a assinatura das portarias declaratórias pelo Ministério da Justiça. Segundo o MPF, a demora na formalização amplia conflitos e expõe comunidades a ameaças constantes.
A posição do órgão se baseia no artigo 231 da Constituição Federal e em decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), que derrubaram a tese do marco temporal e reafirmaram a obrigação da União de concluir as demarcações.
Mobilização nacional e pressão política
A programação do ATL inclui marchas, plenárias e articulações políticas. Entre os principais atos estão a marcha “Congresso inimigo do povo: nosso futuro não está à venda”, marcada para terça-feira, 7, e a mobilização “Demarca, Lula”, prevista para o dia 9.
Além disso, lideranças indígenas discutem memória histórica, participação política nas eleições de 2026 e a atuação internacional do movimento.
Para Agnaldo, o encontro em Brasília simboliza um momento decisivo de articulação nacional. “É um momento onde todos os povos do Brasil se encontram”, afirmou.
Fonte: A Tarde



