sexta-feira, março 20, 2026
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Histórias reais de mulheres viram espetáculo emocionante em Salvador

Espetáculo revisita as casas de palafitas, a partir de relatos autobiográficos –

Há uma força que atravessa o tempo e se refaz a cada desafio imposto pela vida. Uma força que, como na canção de A força que nunca seca, de Chico César, parece não se esgotar.

A senhora, que entorta o próprio corpo para manter uma lata na cabeça, tem sua imagem e garras traduzidas no espetáculo Maré Cheia: Da lata d’água na cabeça à luta pelo chão.

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Em cena, a construção da comunidade de Alagados, na Cidade Baixa, é contada por três mulheres negras que transformam as próprias trajetórias em dramaturgia. A peça estreia hoje e segue em cartaz até o domingo, 22, no Centro Cultural SESI Casa Branca, com entrada gratuita.

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Protagonizado por Elza Cândida, Josilda Moura e Maria do Amparo, o espetáculo revisita as casas de palafitas, a partir de relatos autobiográficos, que estiveram, por décadas, presentes na Península de Itapagipe. As três, hoje idosas, viveram diretamente a construção do território e as lutas por moradia.

A montagem é dirigida por Alessandra Flores, que há mais de duas décadas desenvolve processos criativos baseados no compartilhamento de histórias de vida. Segundo ela, a obra não nasce de uma ideia isolada, mas de um percurso coletivo. “É um processo de anos trabalhando juntas. Quando essa maré enche, ela traz tudo isso: uma vida inteira e muitas histórias para contar em cena”, afirma.

Mais do que um espetáculo autobiográfico, Maré Cheia também levanta uma reflexão sobre quem tem o direito de contar histórias. “Eu não acredito em dar voz, porque as pessoas já têm voz. A questão é: a quem nós damos ouvidos? Quando colocamos mulheres negras, idosas e periféricas criando sua própria dramaturgia, algo se move”, diz a diretora.

Força e alegria

Ambientada no contexto histórico de Alagados, em 1940, a peça resgata um capítulo fundamental da história urbana de Salvador. Entre palafitas, pontes improvisadas e marés instáveis, moradores transformaram o território ao aterrar a água com entulho, construindo o chão onde vivem até hoje.

Nesse processo, as mulheres tiveram papel central na organização comunitária, articulando redes de solidariedade e mobilizações sociais. É esse protagonismo que atravessa a narrativa do espetáculo.

Maré Cheia acompanha tal trajetória sob o olhar das três protagonistas, misturando cenas do cotidiano, histórias de infância e o trabalho das chamadas “roupas de ganho”, atividade que sustentou muitas famílias da região. “É a vida delas que vai sendo construída junto com a história de Alagados, com muita força e também alegria”, explica Flores.

No palco, diferentes linguagens se encontram. Fragmentos de cartas, vídeo-poemas e cantos integram a dramaturgia, resultado de um processo coletivo iniciado em 2016 no projeto “Minha História Conto Eu”.

Ao longo dos anos, a iniciativa reuniu diversas mulheres da comunidade em oficinas e criações artísticas. Para as protagonistas, a experiência de contar a própria história em cena traz emoção e reconhecimento. “É poder passar para filhos, netos e bisnetos tudo que vivemos: as dificuldades, a união e as vitórias”, afirma Josilda Moura, de 78 anos.

Elza Cândida, de 74, destaca o desafio de interpretar a si mesma. “A gente revive tudo de novo. Tem hora que dá vontade de chorar, tem hora que dá vontade de rir. É um desafio, mas também um orgulho muito grande”, diz.

Já Maria do Amparo, de 76 anos, resume o sentido da obra a partir da própria experiência. “Não existe ninguém melhor para contar sua própria história do que eu. A história é minha e eu conto como aconteceu”, afirma.

Processo coletivo

O espetáculo também é resultado de uma longa trajetória de criação compartilhada entre a diretora e o grupo de mulheres da comunidade. O encontro com o coletivo, ainda em 2016, marcou o início de uma série de produções conjuntas, como livros, vídeo-poemas e intervenções artísticas.

Entre essas criações está a boneca gigante Maria Palafita, que sintetiza simbolicamente a história do território: uma mulher negra com uma lata d’água na cabeça, de onde surgem as casas sobre a maré.

Para Alessandra Flores, o espetáculo reafirma a potência da criação coletiva como ferramenta de transformação. “A gente construiu mais uma ponte: agora com o público. É uma obra que nasce da vida e volta para ela”, conclui.

Maré Cheia: Da lata d’água na cabeça à luta pelo chão

  • Data: 20, 21 e 22 de março
  • Horário: 19h
  • Local: Centro Cultural SESI Casa Branca (Avenida Caminho de Areia, 1454)
  • Classificação indicativa: livre
  • Entrada gratuita

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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