A Inteligência Artificial (IA) já deixou de ser um roteiro de ficção científica para se tornar um vizinho onipresente no cotidiano dos baianos. No entanto, a profundidade com que essa tecnologia transita nos lares e mentes no estado desenha um mapa de contrastes nítidos.
De um lado, a Geração Z (16-24 anos) transita pelo território dos algoritmos com a naturalidade de quem respira o digital; do outro, cidadãos acima de 45 anos erguem uma barreira de ceticismo, preservando o contato humano frente ao avanço da automação.
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Da familiaridade à abstinência
Os dados mais recentes sobre o comportamento tecnológico na Bahia revelam que o domínio do conceito de IA é inversamente proporcional à idade. Os números mostram que a idade é o principal divisor de águas no uso da Inteligência Artificial no estado. O domínio técnico da Geração Z contrasta com a cautela das faixas etárias mais altas:
Geração Z (16 a 24 anos):
- Familiaridade: 46,3% afirmam ser “muito familiarizados” com o tema.
- Intensidade de Uso: 26,1% utilizaram ferramentas como ChatGPT ou Gemini mais de dez vezes nas últimas duas semanas.
Grupo 45+:
- Cautela: 57,8% declaram estar apenas “um pouco familiarizados”.
- Barreira Técnica: 15,7% admitem não compreender “de forma alguma” o funcionamento da tecnologia.
Essa disparidade, na teoria, reflete-se com ainda mais força na prática. Nas últimas duas semanas, o uso de ferramentas de conversação, como o ChatGPT ou Gemini, evidenciou um “abismo geracional”: 26,1% dos jovens utilizaram a IA mais de dez vezes no período.
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Em contrapartida, 62,3% dos baianos com mais de 45 anos mantiveram uma “abstinência digital” total, não acessando nenhuma ferramenta do gênero.
O propósito do uso também segmenta a população. O jovem baiano busca na IA produtividade e auxílio acadêmico — 46,9% usam para redação de textos e 21,7% para estudos. Já o grupo de 25 a 34 anos foca na busca de informações diretas (78,8%).
Contudo, é na hora de resolver problemas de consumo que o conflito geracional atinge o ápice: 61,8% dos maiores de 45 anos exigem atendimento exclusivamente humano, mesmo que isso custe mais tempo de espera. Entre os jovens, essa exigência despenca para apenas 17%.
A estrutura da exclusão: por que o “intuitivo” não alcança a todos?
Para Leonardo Almeida, professor dos Cursos de Computação da Unijorge, a exclusão da terceira idade não é uma falha de aprendizado individual, mas um erro de arquitetura.
As ferramentas são desenvolvidas por pessoas já familiarizadas com o ambiente digital e partem de pressupostos que ignoram quem enfrenta barreiras básicas
Segundo o especialista, a IA generativa, que teoricamente deveria incluir através da voz e linguagem natural, esbarra na falta de acesso a dispositivos de qualidade e no medo de golpes.
“Existe um receio recorrente de cometer erros ou de se expor a fraudes. A IA não é um ponto de partida, é uma camada avançada de um ecossistema. Para usá-la, é preciso dominar a internet e a segurança digital primeiro”, pontua Almeida.
Apesar de usarem mais o celular, idosos ainda preferem o contato humano
A vulnerabilidade técnica tem um preço alto: a segurança. Com apenas 2% de familiaridade profunda entre os idosos, eles se tornam alvos preferenciais para deepfakes e phishing avançado.
“A dificuldade em verificar informações, somada à tendência de confiar em conteúdos aparentemente legítimos, transforma a falta de conhecimento técnico em um risco concreto”, alerta o professor.
O papel do Estado: políticas e inclusão sociodigital
Ciente desse cenário de desigualdade tecnológica, o governo da Bahia busca reestruturar suas ações. A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) admite que o antigo Programa de Inclusão Sociodigital (PISD), que geria os Centros Digitais de Cidadania, foi descontinuado em 2015. Agora, a estratégia foca no novo Plano de Inteligência Artificial da Bahia.
“O processo vem sendo construído de forma colaborativa, com a participação de pesquisadores baianos e diferentes secretarias. Buscamos qualificar o debate sobre o uso e a regulação da IA no estado”, afirma a Secti.
Entre as apostas estão a Rede Bah.IA e o programa Incite, que destina R$ 43 milhões para projetos estratégicos, visando solucionar problemas estruturais do estado por meio da inovação aplicada.

Geração Z transita pelo território dos algoritmos com a naturalidade de quem respira o digital
No campo do trabalho, a preocupação é evitar que a tecnologia se torne um vetor de desemprego e exclusão.
Augusto Vasconcelos, secretário da Setre (Trabalho, Emprego, Renda e Esporte), destaca que a Bahia desenvolve um dos maiores programas de qualificação profissional do país, incluindo a população idosa.
“Algumas profissões estão passando por profundas transformações. Nos preocupamos com o eventual fechamento de postos de trabalho e defendemos que é possível aumentar a produtividade reduzindo a jornada de trabalho”, afirma Vasconcelos.
Para o titular da pasta, o desafio é sistêmico:
O problema não é a tecnologia em si, e sim quem se apropria dos seus resultados sem compartilhar os ganhos com quem trabalha
O mercado e os “seniors tech”
Se para o usuário comum, a barreira é o acesso, no mercado de trabalho de TI, o desafio é o preconceito. Profissionais acima de 50 anos enfrentam um mercado que, muitas vezes, privilegia o “nativismo digital”.
Leonardo Almeida observa que, embora esses veteranos sejam vitais para a arquitetura de sistemas e gestão de projetos pela experiência acumulada, a velocidade da IA impõe uma pressão de atualização constante.
“Aqueles que conseguem acompanhar o ritmo tornam-se valiosíssimos, mas existe um viés de mercado que pode levar à subvalorização desses talentos experientes”, analisa o professor da Unijorge.
Fonte: A Tarde



