terça-feira, abril 7, 2026
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Filmes do Recôncavo Baiano ganham destaque em plataforma de streaming

A chegada da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em meados dos anos 2000, abriu novas possibilidades de criação artística fora dos grandes centros. Foi nesse contexto que nasceu a Rosza Filmes, produtora fundada por Glenda Nicácio e Ary Rosa, cuja trajetória passa agora a ganhar uma nova janela de exibição. Os seis longas-metragens dirigidos pela dupla acabam de chegar à plataforma Embaúba Play, ampliando o acesso a uma das trajetórias mais consistentes do cinema brasileiro contemporâneo.

Com parte do catálogo disponível gratuitamente, a plataforma passa a reunir Café com Canela (2017), Ilha (2018), Até o Fim (2020), Voltei! (2020), Na Rédea Curta (2022) e Mungunzá (2024), permitindo ao público acompanhar, em conjunto, o percurso da dupla.

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Mais do que disponibilizar títulos isolados, a chegada dos filmes consolida uma filmografia construída ao longo de mais de uma década no Recôncavo baiano. “A gente sempre quis ter uma filmografia”, diz Glenda. “Desde as primeiras escolhas de produção tomadas em Café com Canela, já sabíamos que não estávamos fazendo um plano de filmagem de um filme, mas de uma existência, pensando arranjos que traçariam e atravessariam todas as outras produções por vir”, reforça.

Para a diretora, a presença na plataforma também marca um momento de balanço. “Muita coisa já foi vivida, muitas apostas nesse cinema. Cada filme foi uma possibilidade de descoberta do fazer, de nós mesmos. Então é motivo de celebração também”.

Ao mesmo tempo, destaca o papel da circulação: “Ser visto sempre é uma das partes mais delicadas do processo, e estar numa plataforma acessível materializa a existência desses tantos personagens e dessas tantas histórias”.

Encontro

Filme Voltei | Foto: Divulgação

Fundada em 2011, a Rosza Filmes surge em um contexto específico: a chegada da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) à cidade de Cachoeira, no interior do estado. Foi ali que Glenda e Ary se encontraram e começaram a desenvolver um modo de produção marcado pela experimentação e pelo trabalho coletivo. “A UFRB foi onde o encontro aconteceu. Tudo seria totalmente diferente se não tivéssemos passado por ali”, afirma Glenda.

Longe dos grandes centros e de modelos consolidados de mercado, o grupo construiu sua linguagem a partir da convivência, da troca e do território. “Existia uma forma muito criativa de pensar o cinema naquele momento. Uma vontade de experimentar os limites, desde que fosse junto”, lembra. Nesse contexto, fazer cinema implicava também traduzir experiências compartilhadas: “Fazer cinema era a tentativa de colocar na tela todos os textos que foram lidos, as piadas internas dos cineclubes, a elucubração da cerveja tomada no mesmo copo”.

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Forma e território

Se há um eixo que atravessa essa produção, ele passa diretamente pelo Recôncavo. Ary Rosa identifica na região o elemento que unifica sua obra: “sua geografia, sua história e, acima de tudo, o seu povo”. Mais do que cenário, trata-se de um princípio que organiza a linguagem..

“É a fala, o jeito de andar e o movimento muito particular das pessoas daqui que ditam o ritmo do que colocamos na tela”, explica o diretor.

Ao longo dos anos, essa relação se transformou. “Meu trabalho não é explicar o Recôncavo, mas sim traduzir a emoção, a tradição, o cotidiano e o costume que atravessam cada um dos personagens”, elucida. Assim, figuras recorrentes funcionam como canais por onde o território se comunica com o público, deslocando o regional para uma dimensão universal.

Essa dinâmica também se manifesta nas formas. Entre o intimismo de Café com Canela e o experimentalismo de Ilha, ou ainda entre o trágico musical de Mungunzá e o humor de Na Rédea Curta, a filmografia se constrói em variações. Para Ary, a coerência não é planejada, mas resulta da própria experiência.

Permanência

Filme Café com Canela

Filme Café com Canela | Foto: Divulgação

Esse deslocamento, no entanto, não elimina os desafios. Ao olhar para a própria trajetória, Ary reconhece um percurso marcado por contrastes: “vejo um resultado que é, ao mesmo tempo, impressionante e precário; instigante e limitado”. A produção no interior, distante dos grandes centros, impõe limites materiais que atravessam cada obra.

Ainda assim, é justamente essa escolha que sustenta o projeto da Rosza. “É a de produzir, gravar e criar no Recôncavo que serve como o motor motriz e a matriz de todo esse conjunto de obras”, afirma Ary. Mais do que uma sequência de filmes, trata-se de uma insistência. “Essa trajetória não é apenas sobre os filmes que entregamos, mas sobre a insistência de manter vivo um sonho que ainda pulsa com a identidade e a força do Recôncavo”, reforça.

Disponíveis agora em uma nova janela digital, os filmes prolongam sua vocação de encontro entre corpos, vozes e paisagens que continuam a reinventar o cinema brasileiro a partir de um chão específico.

Centros e margens

Ao incorporar os filmes ao seu catálogo, a Embaúba Play reforça uma linha editorial voltada a obras que deslocam o cinema dos eixos hegemônicos e tensionam diferentes modos de produção e linguagem. A trajetória da Rosza dialoga diretamente com esse movimento, ao emergir de um contexto de interiorização do ensino público e de ampliação de políticas culturais que permitiram o surgimento de novos polos criativos no país.

Operando com um modelo que combina títulos gratuitos e aluguel a baixo custo, a plataforma tem apostado na democratização do acesso como estratégia de formação de público. Com milhares de visualizações mensais, especialmente nos conteúdos gratuitos, a Embaúba amplia a circulação de filmes que dificilmente encontram espaço nas vitrines mais comerciais.

Café com Canela (2017), Ilha (2018), Até o Fim (2020), Voltei! (2020), Na Rédea Curta (2022), Mungunzá (2024) / Disponíveis para locação na Embaúba Play / R$ 1,50 (cada filme)

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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