sexta-feira, março 27, 2026
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Evento em Salvador debate novo rumo dos indicadores educacionais na BA

Jorge Novis, Anaci Paim e Dr. Mozart Neves Ramos –

O auditório da Desenbahia, em Salvador, tornou-se nesta sexta-feira, 27, o epicentro de um dos debates mais urgentes para o futuro do Norte e Nordeste: como traduzir os frios indicadores de aprendizagem em políticas públicas que acolham a diversidade do chão da escola.

Sob a iniciativa da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos (ACBEU), por meio da ACBEU Tech, o evento “Avaliação, Diversidade e Inclusão: Políticas Públicas Voltadas para Melhoria dos Indicadores Educacionais” reuniu a cúpula da instituição, gestores municipais e referências nacionais em educação básica.

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Evento: Avaliação, Diversidade e Inclusão Políticas Públicas Voltadas para Melhoria dos Indicadores Educacionais | Foto: Jair Mendonça Jr. / Ag A TARDE

A mesa de abertura do evento chancelou o peso institucional do encontro, contando com as presenças de Jorge Novis (presidente do Conselho Deliberativo da ACBEU), Ticiano Cortizo (superintendente da ACBEU), Eduardo Athayde (conselheiro da ACBEU) e Anaci Paim (coordenadora dos Projetos Públicos da instituição e ex-secretária de Educação da Bahia).

Dividido em turnos, o evento trouxe como palestrantes o Dr. Mozart Neves Ramos (titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP), e as pesquisadoras Érika Lima e Railda Neves.

A bússola dos próximos 10 Anos: o alerta do novo PNE

Abrindo os trabalhos da manhã, a professora Anaci Paim trouxe um alerta contundente de bastidor político para os secretários municipais e educadores presentes. O novo Plano Nacional de Educação (PNE), que ditará as regras da próxima década, já passou pelas esferas de aprovação e aguarda homologação. Paim destacou que o documento não pode ser engavetado pelas prefeituras baianas.

“Isso não é uma peça fictícia, não é um documento formal, não é uma peça fria. É o que vai nortear a educação pelos próximos 10 anos. Por isso, nós não abrimos um debate sobre isso. Todo mundo tem um plano”, alertou Anaci Paim.

A educadora ressaltou a escala gradativa do planejamento educacional brasileiro, onde a diretriz nacional obriga os estados e, sucessivamente, os municípios a recalibrarem suas metas locais.

“Quem é educador, quem trabalha na gestão, quem não trabalha na gestão é professor, quem trabalha na educação de um modo geral, precisa conhecer o Plano Nacional de Educação. Vamos dizer assim, numa linguagem simples, é uma cartilha que deve nortear o nosso trabalho em todo momento”, concluiu, chamando atenção também para as condicionalidades financeiras do VAAR (Valor Aluno Ano Resultado) e do ICMS Educacional.

“Não se cura Covid com vitamina C”: Mozart Neves e o alerta do Fundeb

A palestra magna da manhã ficou a cargo do Dr. Mozart Neves Ramos, um dos nomes mais respeitados do país, ex-diretor do Instituto Ayrton Senna e atual diretor da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP Ribeirão Preto. Com um discurso enérgico e ancorado em dados de inteligência de dados, Mozart apresentou um diagnóstico visual das profundas desigualdades escolares brasileiras.

Para ele, o Brasil patina na velocidade de avanço educacional porque insiste em padronizar soluções para realidades sociais distintas.

“Qual é um dos problemas, na nossa visão, que a educação no Brasil não avança na velocidade que deveria avançar? É porque a gente dá o mesmo medicamento para problemas diferentes. Vamos imaginar duas pessoas, uma com gripe e outra com Covid. Se eu der vitamina C para Covid, não vai adiantar”, provocou o catedrático.

Mozart explicou que a Cátedra que dirige na USP foca justamente em aproximar a universidade da sociedade e do setor produtivo de forma menos burocrática — quebrando a “Linha de Tordesilhas” que afasta o ensino superior do ensino básico. Citando a revisão do Fundeb, ele deixou um recado direto ao bolso das prefeituras: o novo modelo pune financeiramente a ineficiência pedagógica.

“A meta de qualidade mudou. O financeiro cuida da gestão, mas o dinheiro você consegue mais ou menos pela sua eficiência. Se o aluno não tiver preparado para as proficiências de fato, o município vai perder dinheiro dessa vez. É diferente do IDEB, que se ele não alcançasse tinha o desgaste político, mas não perdia dinheiro”, alertou Mozart.

Mozart Neves ainda chocou a audiência ao expor o teto de vidro do ensino universitário brasileiro: de cada 100 alunos que ingressam no ensino superior no país, 59 desistem no meio do caminho. “Se a ciência, se os acadêmicos, se a universidade não ajudar a resolver o problema da educação básica, não vai resolver o problema do ensino superior nesse país”, arrematou.

“Nossos passos vêm de longe”: o letramento racial e o chão da escola

Se a manhã foi pautada pelas planilhas orçamentárias e métricas de desempenho da gestão pública, a transição para a tarde elevou o debate para a dimensão humana e histórica. O seminário “Pele que fala, história que não cala”, capitaneado por Railda Neves e Érika Lima, colocou o letramento racial e o cotidiano escolar no centro do palco.

Em uma fala de profunda sensibilidade cultural e de resgate ancestral, Railda Neves celebrou o encontro citando o escritor malinês Amadou Hampâté Bâ e a teórica Grada Kilomba.

“Não existe sustentabilidade e desenvolvimento sem conhecimento. Se a gente percebe índices baixos de aprendizagem e a gente tem que ver como possibilidade de somar, de dar as mãos, de fazer parcerias para mudanças dos índices, para melhorar a qualidade da educação, a gente precisa celebrar. Os que vieram antes de nós pavimentaram o caminho para que aqui estivéssemos nos solidarizando uns com os outros a partir da educação. Porque é dela que deve partir tudo”, discursou Railda Neves.

Na sequência, a pesquisadora Érika Lima validou a parceria contínua com a ACBEU — lembrando que a dobradinha formativa já rendeu frutos no interior do estado, em Mucugê, na Chapada Diamantina, e em Feira de Santana, abrindo para outros municípios do semiárido — e jogou luz sobre o maior gargalo das leis de igualdade racial no Brasil: a aplicação real no dia a dia do aluno.

“Certamente teríamos muitas discussões do ponto de vista da legislação, mas para a efetivação em si disso no cotidiano da escola é o nosso grande desafio. Então vamos partilhar nesse momento dessa interação”, defendeu Érika Lima.

Compromisso e equidade

A palestra magna da manhã ficou a cargo do Dr. Mozart Neves Ramos, um dos nomes mais respeitados do país

A palestra magna da manhã ficou a cargo do Dr. Mozart Neves Ramos, um dos nomes mais respeitados do país | Foto: Jair Mendonça Jr. / Ag A TARDE

Representando a visão da instituição anfitriã, o presidente do Conselho Deliberativo da ACBEU, Jorge Novis, reforçou o compromisso do terceiro setor com o desenvolvimento regional e a equidade no ensino.

“O papel da ACBEU, como Associação Cultural, vai muito além do ensino tradicional do inglês. Nós acreditamos que o desenvolvimento sustentável da Bahia passa, obrigatoriamente, por uma educação pública de qualidade. Trazer nomes como o Dr. Mozart Neves e abrir este espaço de diálogo para tantos municípios da nossa região é a nossa forma de dar as mãos aos gestores públicos e construir pontes para o futuro das nossas crianças”, pontuou Novis.

O encontro promovido pela ACBEU contou com uma forte representatividade regional, reunindo gestores e educadores de diversos polos educacionais da Bahia. Estiveram presentes representantes dos municípios de Camaçari, Mata de São João, Candeias, Pojuca, Feira de Santana, Alagoinhas e Madre de Deus, além de equipes técnicas da Rede Estadual e da Rede Municipal de Salvador, fortalecendo o caráter metropolitano e interiorano do debate sobre os novos rumos das políticas públicas de ensino.

Serviço e certificação

Como ação de utilidade e valorização do servidor público presente, todos receberam certificados. A medida visa garantir que a capacitação técnica dos servidores seja devidamente computada e validada pelas pastas de gestão do interior e da capital baiana.



Fonte: A Tarde

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