Filme mistura comédia e tensão para criar uma narrativa inteligente –
O mercado de trabalho no mundo contemporâneo não é competitivo somente para as pessoas menos instruídas. A coisas não andam bem nem mesmo para quem possui alta formação. É o que vem demonstrar A Única Saída, novo filme do sul-coreano Park Chan-wook, já em cartaz nos cinemas.
No centro da trama está Man-su (Lee Byung-hun), pai de uma família nuclear tradicional, funcionário bem-sucedido de uma empresa de papel que trabalhou ali por 25 anos. Um belo dia, no entanto, ele é demitido. O alto padrão de vida que ele proporciona à esposa (Son Ye-jin) e aos dois filhos passa a ser ameaçado.
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Começa, então, uma jornada em busca de um novo emprego para empresas e cargos similares ao que ele tinha. Mas, com a qualificada concorrência, ele resolve eliminar os possíveis rivais de uma vaga para a qual se acha ideal, capaz de lhe tirar a corda do pescoço.
Com essa sinopse, pressupõe-se um drama intenso e uma narrativa policial que perpassa pelo debate sobre o capitalismo selvagem e as hipocrisias e crueldades do mundo corporativo contemporâneo, sem falar do peso moral que recai sobre a consciência do indivíduo diante de uma tomada de decisão extrema.
Tudo isso está lá, de fato, mas Park acrescenta pitadas de humor nonsense e até mesmo uma comédia escrachada que torna A Única Saída muito eficiente enquanto peça de absurdo sobre o estado atual das coisas no mundo cão das disputas empresariais, mesmo em um país rico como a Coreia do Sul.
O filme é hilário muitas vezes, sem perder de vista as discussões de caráter social, e abdica de um possível tom empostado que poderia tornar tudo um tratado muito autoimportante sobre as entranhas do capitalismo.
As comparações com Parasita (2019), filme sensação do também sul-coreano Bong Joon-ho, são inevitáveis, já que o vencedor do Oscar estabeleceu um parâmetro muito alto quando o assunto é embate social e de classes no país asiático, especialmente ao colocar em evidência os modos de viver dos mais ricos. Há uma boa dose de humor também em Parasita, mas nada comparado ao que Park apronta aqui na sua escalada ao ridículo.
Retorno à boa forma
Estranhamente, depois da ótima Trilogia da Vingança – Oldboy (2003) se mantém ainda como uma obra-prima do tema –, alguma coisa parece ter mordido Park Chan-wook.
E curiosamente foi a partir do seu filme de vampiros Sede de Sangue (2009).
Desde então, seu cinema passou a ser muito esquemático, com boas doses de cinismo, e um tanto de piruetas narrativas que se querem inventivas. Ele passou a fazer filmes cada vez mais “espertinhos”, como se apontassem para si mesmos e dissessem o quão inteligentes eles são – caso dos últimos Decisão de Partir (2022) e A Criada (2016).
Park é um encenador exemplar, sabe elaborar bem as cenas, mas caiu na armadilha dos filmes que precisam surpreender o espectador – Oldboy até tem esse tipo de surpresa no final, mas é sustentado por uma complexidade narrativa que se amarra no desfecho e lhe garante a força necessária para nocautear o espectador.
Talvez a tentativa de repetir uma estratégia que tanto deu certo no passado tenha prejudicado seus últimos filmes. De alguma forma, eles acabam soando cínicos na maneira com que manipulam as expectativas do público.
No entanto, esse problema não persiste em A Única Saída. O maior trunfo do filme, certamente, está na maneira frontal de expor os conflitos e nunca esconder suas artimanhas.
Somos testemunhas não só do chão de Man-su desabando sob seus pés, mas também de sua gradual virada de chave na linha cruel que o torna um serial killer despreparado, mas voluntário. É crucial a maneira como vemos o personagem vacilar, mas entrar numa espiral de mentiras e perversão sem volta.
Aposta no ridículo
O cineasta não esconde o sortilégio e as armações que o protagonista arquiteta, nem as suas reais intenções, muito menos investe em mistérios e reviravoltas a fim de tornar a trama mais “impressionável”. Nesse sentido, faz um filme mais sincero e acerta no coração das hipocrisias – humanas e profissionais.
No entanto, é certamente o toque de ridículo que torna a experiência mais catártica. Há um traço de infantilidade nesse personagem, e suas decisões não deixam de ser discutíveis pelo teor de inconsequência em que operam – aliás, o próprio título do filme é questionável porque há, sim, outras saídas para Man-su – ele é quem escolhe a via do crime.
Mas esse ridículo é também um modo de reforçar o tom de paródia e de ironia diante da tragédia social que toma o personagem de assalto. A primeira tentativa de eliminar um de seus concorrentes é exemplar nesse sentido, hilária pela forma atabalhoada com que tudo se desenrola, virando uma grande comédia de erros.
Se há um cinismo aqui, ele é fruto muito mais das manobras arquitetadas por Man-su e suas eventuais esquivas diante do poder empresarial e, posteriormente, policial, como comentário sarcástico sobre as arbitrariedades da Justiça, sem nunca precisar apela para moralismos.
Mesmo que o personagem vá se esquivando atrapalhadamente das garras da lei, o filme o coloca em posição legítima de jogador que dá suas cartadas e enfrenta com brutalidade um sistema que enriquece às custas do trabalhador e posteriormente o dispensa – elite essa a que, paradoxalmente, Man-su anseia pertencer e nunca mais perder essa posição.
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Fonte: A Tarde



