sábado, março 7, 2026
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Espetáculo que mistura Odisseia e poesia estreia em Salvador

A montagem inclui recursos de acessibilidade, como tradução em Libras e audiodescrição –

Uma das narrativas fundadoras da literatura ocidental ganha nova leitura ao se encontrar com um poema contemporâneo marcado pelas ruínas do século XX.

A montagem que aproxima Odisseia, atribuída a Homero, e Paisagem com Argonautas, de Heiner Müller, estreia amanhã e segue até o dia 22 deste mês, no Teatro Vila Velha, com sessões às 19h.

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A montagem inclui recursos de acessibilidade, como tradução em Libras e audiodescrição, ampliando o acesso do público à encenação.

O espetáculo também encerra um ciclo de formação da Universidade LIVRE do teatro e reúne jovens artistas selecionados em comunidades aqui de Salvador. E conta com o apoio da Fundação Branco do Brasil.

Quem assina a dramaturgia é Marcio Meirelles. Ele conta que a encenação parte de uma pergunta central: como falar hoje de uma história escrita há séculos?

A resposta encontrada pela equipe foi colocar em diálogo duas narrativas sobre viagens, destruição e retorno.

Meirelles conta que a ideia inicial era realizar uma espécie de tradução integral do poema de Homero para o palco. O plano era preservar a estrutura narrativa da obra, reduzindo apenas episódios ou falas, já que a história reúne uma grande quantidade de acontecimentos. “Quando começamos a trabalhar, a ideia era realmente fazer uma transliteração do texto inteiro, traduzir para a cena todo o poema na estrutura que ele tem, apenas reduzindo episódios”, afirma o diretor.

Com o avanço dos ensaios, Meirelles conta que passou a sentir que o material precisava ganhar uma dimensão mais direta em relação ao presente. “Eu sentia dificuldade de tornar isso mais contundente, mais contemporâneo, mais conectado com tudo o que está acontecendo agora”, explica.

A Odisseia, poema épico da Grécia antiga, narra a tentativa de retorno de Odisseu após a Guerra de Tróia. No caminho, o personagem percorre por anos de travessia, enfrenta monstros, tentações e armadilhas, até finalmente regressar à Ítaca. Para Meirelles, o poema também expõe uma sequência de destruições que não se encerra.

“É uma guerra que destruiu uma cidade inteira e um caminho de volta que não se concretiza, porque ele continua em guerra o tempo inteiro. Quando ele chega em casa, faz uma chacina, mata os pretendentes e ainda haveria outra guerra”, observa.

O encenador brasileiro Márcio Meirelles | Foto: Acervo do Teatro Vila Velha

Foi nesse momento que o diretor retomou um texto que já havia montado nos anos 1990, Paisagem com Argonautas, de Heiner Müller. O poema reinterpreta o mito dos argonautas e reflete sobre as ruínas do século XX, especialmente as marcas da Segunda Guerra Mundial.

Meirelles reforça que a aproximação entre os dois textos surgiu a partir da própria figura de Odisseu. Para Meirelles, o herói clássico é também um narrador que inventa versões diferentes de si.

“Odisseu é um mentiroso. Ele vai inventando várias histórias para pessoas diferentes. A única que vira a história oficial é a que ele conta para o rei que o devolve para casa, justamente a mais fantasiosa, com sereias, monstros e a descida aos infernos”, diz.

Sem deuses e monstros

Uma das escolhas centrais da montagem foi retirar da narrativa as interferências divinas presentes no poema de Homero. Na Odisseia, os deuses influenciam diretamente o destino do herói, determinando o tempo de sua viagem e intervindo em momentos decisivos.

Na encenação, essa dimensão foi deslocada para o campo das decisões humanas. “No mito, há uma interferência direta dos deuses o tempo inteiro. A primeira coisa que fiz foi tirar os deuses da narrativa”, explica Meirelles.

“Tempestades, o mar revolto, a mudança climática. São respostas ao que a gente faz”, complementa.

Com a retirada de figuras como sereias ou ciclopes, a narrativa passa a destacar conflitos políticos e escolhas individuais. A resistência da rainha Penélope, por exemplo, ganha maior destaque na encenação.

“No poema, ela enfrenta uma multidão de homens da elite que querem ocupar o palácio. Ela resiste, adia decisões, mantém o reino funcionando”, observa o diretor. Essa mudança também amplia o sentido contemporâneo da história.

Para Meirelles, o retorno de Odisseu pode ser entendido como uma pergunta sobre o futuro da própria humanidade. “A gente precisa pensar para onde está indo e para onde gostaria de ir. Como recompor a humanidade, a harmonia, num mundo de tanto ódio e tantas mentiras?”, questiona.

Processo coletivo

O espetáculo é resultado de um processo formativo realizado ao longo de um ano com jovens artistas selecionados em diferentes comunidades de Salvador. Segundo o diretor, o grupo foi formado a partir de oito oficinas realizadas em bairros distintos da cidade.

O objetivo era construir um elenco diverso e criar um ambiente de colaboração entre artistas com trajetórias diferentes. “Quando se monta um elenco, tenta-se criar uma orquestração que dê certo. Às vezes não são os melhores individualmente, mas aqueles que conseguem dialogar e colaborar”, enfatiza.

A montagem encerra um ciclo do projeto Universidade LIVRE, iniciativa de formação artística do Teatro Vila Velha, citada acima. A atriz Luana Dias, conhecida artisticamente como Pandora, 25, mora em Massaranduba, bairro da Cidade Baixa de Salvador.

Para ela, a formação ampliou a compreensão sobre o funcionamento do teatro. “A LIVRE (Universidade do Teatro Vila Velha) traz uma formação completa. A gente sai da bolha da atuação e passa a entender também a parte técnica e os outros componentes que formam o teatro”, afirma.

Segundo a atriz, o convívio diário com pessoas de trajetórias diferentes também fez parte do aprendizado. “O convívio durante um ano com pessoas completamente diferentes foi difícil, mas ao mesmo tempo conseguimos avançar e nos encontrar dentro do que é ser artista”, diz.

Para Pandora, participar da montagem também tem um significado pessoal ligado às próprias travessias cotidianas. “Sendo moradora de Massaranduba, existe um afastamento do centro da cidade e as coisas demoram a chegar. Fazer parte dessa montagem que fala sobre travessia também é falar das travessias que faço diariamente para conseguir ser artista”, destaca.

Trilha sonora

O músico Ramon Gonçalves assina a trilha sonora da montagem. Ele diz que buscou criar uma atmosfera sonora inspirada em trilhas cinematográficas e experimentações eletrônicas.

Segundo ele, a composição parte de uma ideia de “orquestração épica artificial”, construída com camadas de sons eletrônicos, paisagens sonoras e referências a ambientes marítimos. “Trabalhei com insinuações bélicas, instrumentação sintetizada e sobreposição de samples de violinos, violoncelos e sons do mar”, explica.

De acordo com ele, a trilha também incorpora instrumentos tocados ao vivo pelo elenco, como berimbaus, atabaques, alfaia e guitarra. O desafio, segundo o compositor, foi equilibrar as camadas eletrônicas com a presença física da percussão e das vozes. “Era preciso compor de forma que houvesse espaço para esses elementos coexistirem em cena”, afirma.

Segundo Meirelles, a expectativa é que o espetáculo provoque diferentes camadas de leitura no público, tanto pela história clássica quanto pela experiência dos jovens artistas que ocupam o palco. “Espero que o público se emocione e reflita sobre o que essa história fala sobre nós hoje”, fecha.

ODISSEIA + Paisagem com Argonautas

  • Quando: A partir do dia 7 até 22 de março
  • Horário: sessões às sextas (19h), sábados (16h e 19h) e domingos (16h)
  • Onde: Espaço Cultural Barroquinha
  • Ingressos: R$ 40 e R$ 20
  • Vendas: Sympla ou no local

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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