Do vestido de noiva ao machismo estrutural: espetáculo provoca reflexão na Bahia –
A ideia de que mulheres são sujeitas autônomas, com direitos plenos sobre suas escolhas, é relativamente recente na história brasileira. Até 1962, o Código Civil de 1916 as classificava como “relativamente incapazes”, exigindo autorização do marido para trabalhar, assinar documentos ou administrar a própria vida financeira. A mudança começa com o Estatuto da Mulher Casada, em 1962, e se consolida na Constituição de 1988, que estabelece igualdade formal entre homens e mulheres, ainda que, na prática, os efeitos dessas transformações sigam em disputa.
É nesse intervalo entre o que a lei garante e o que a vida cotidiana ainda impõe que o espetáculo Noivas se inscreve. Em cartaz no SESI Rio Vermelho neste final de semana e no SESI Casa Branca no próximo, a montagem parte de uma situação aparentemente corriqueira – a prova de um vestido – para tensionar silêncios, escolhas e papéis historicamente atribuídos às mulheres.
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Com texto de Cleise Mendes, a direção de Liz Vernin conduz a narrativa em uma única tarde, dentro de um ateliê de costura. É ali que Dora, jovem prestes a se casar, encontra Lia, costureira e dona do espaço e o que começa como um ajuste de tecido logo se desdobra em um embate mais profundo.
“Noivas aborda o silenciamento no lugar da escolha, é um convite a olhar a vida do ângulo em que nós mulheres podemos escolher o que queremos e como queremos”, resume a diretora.
Do íntimo ao político
A encenação aposta na delicadeza para alcançar o estrutural. Ao invés de recorrer a grandes gestos, o espetáculo constrói sua crítica a partir das relações e dos não ditos.
“Apesar de vivermos em um tempo em que se fala muito mais sobre o espaço da mulher na sociedade, o machismo estrutural e o patriarcado seguem presentes e incrustados no nosso dia a dia. Nem sempre as ações são escancaradas, nem toda violência é clara, e é nesse lugar que Noivas toca”, comenta Liz.
“É no não dito, no subtexto, é quando uma mulher precisa ser diminuída para que um homem apareça, é na escolha que tomam por ela, e é, também, na mulher que reproduz comportamentos machistas”, acrescenta.
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Espelhamento

No centro da narrativa está Dora, personagem que condensa conflitos geracionais e sociais. Interpretada por Fanny, ela surge como alguém moldada por expectativas externas, mas atravessada por uma inquietação latente.
“Dora é uma menina de 20 anos que foi modelada para ser uma boneca fácil de manipular, cercada por uma redoma de vidro que a impede, inclusive de sentir”, descreve a atriz. “É o reflexo de muitas mulheres que têm seus desejos silenciados ao ponto de nem terem consciência que existem outras possibilidades de serem no mundo”.

Se Dora encarna o conflito, Lia surge como contraponto, não como resposta pronta, mas como possibilidade de quem as mulheres podem ser. Dona do ateliê, ela representa uma autonomia construída no cotidiano. “Lia, na trama, é essa mulher que encarna uma força silenciosa, mas inabalável”, afirma Carolina Sebastião, intérprete da personagem. “Ela é quem, com sua postura firme e confiante, faz com que a gente perceba que há outros jeitos de existir”.
Na dinâmica entre as duas, Lia não conduz Dora, mas desloca sua visão. “O papel da Lia é justamente ser a chave que abre portas para que Dora perceba que ela mesma pode transformar sua vida”, explica Carolina.
Para além do palco

Sem recorrer a soluções simplificadoras, Noivas aposta na construção de incômodos que se prolongam fora da cena. A proposta do projeto amplia o alcance do espetáculo ao investir em ações diretas com o público e, sobretudo, com mulheres em situação de vulnerabilidade.
Na última quarta-feira (18), a montagem realizou uma sessão gratuita voltada exclusivamente para mulheres atendidas pela Rede de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência Doméstica, incluindo serviços como CREAS, CRAMs, CAPS e a Casa da Mulher Brasileira, por meio do NUDEM.
A iniciativa articulou apresentação com acessibilidade, acolhimento e uma roda de conversa dedicada à saúde mental e ao empoderamento feminino, além de atividades de bem-estar e discussões sobre geração de renda.
A dimensão formativa do projeto também se estende a oficinas gratuitas de teatro destinadas a essas mulheres, criando espaços de expressão e fortalecimento a partir da linguagem artística. Já nas sessões abertas ao público neste final de semana, parte da programação inclui rodas de conversa realizadas após apresentações específicas, ampliando o debate sobre direitos das mulheres, mercado de trabalho na Bahia e produções feministas. A proposta reforça o espetáculo como ponto de partida, e não de chegada, para reflexões coletivas.
Nos bastidores, o protagonismo feminino também se impõe, a equipe técnica majoritariamente composta por mulheres tensiona um cenário ainda marcado pela predominância masculina na criação e produção teatral.
Ao articular cena, escuta e ação, o espetáculo reafirma o teatro como espaço de elaboração sensível e política. “Eu espero que, acima de tudo, o público sinta”, resume a diretora. “Que mulheres se identifiquem por qualquer motivo que seja e lembrem-se (ou descubram) que a gente sempre pode mudar, fazer, acontecer, que a gente pode querer”.
‘Noivas’ / Hoje e amanhã, 19h / SESI Rio Vermelho / Dias 27 (19h), 28 e 29 (16h e 19h) / SESI Casa Branca / R$ 40 e R$ 20 ou R$ 30 (Mulheres cis e trans) / Classificação: Livre
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
Fonte: A Tarde



