“Uma costura entre elementos do candomblé, da cultura popular nordestina e das festas de Cosme e Damião” dá o tom do espetáculo Fala, Ìbejì!.
A montagem, que também aborda o sincretismo religioso como estratégia histórica de resistência, incorpora a Libras como parte orgânica da cena, integrada à performance do elenco, e circula por praças públicas de Salvador entre sexta-feira, 27 e 12 de abril.
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Com direção de Guilherme Hunder e dramaturgia de Luiz Antônio Sena Jr., a obra, primeira parceria entre os dois multiartistas nessas funções, dá continuidade a uma pesquisa cênica afrocentrada dedicada às infâncias, à tradição oral e às pedagogias do terreiro.
A dramaturgia é livremente inspirada em itans da tradição iorubá, especialmente nas narrativas sobre os Ìbejì, orixás gêmeos. A história os desloca para um terreiro situado em uma comunidade periférica, onde fé, arte e resistência caminham juntas.
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“O teatro é, essencialmente, ritual. Em Fala, Ìbejì!, acentuamos essa dimensão a partir das matrizes afro-baianas. O ato de cozinhar, central nos rituais do candomblé, ganha uma leitura cênica e se transforma em base para as movimentações, os desenhos de cena e as interpretações. Festa e rito, dentro de uma perspectiva afrocentrada, não se separam. O ritual é festa e ambos pertencem à rua”, destaca Guilherme Hunder.
Teatro nos territórios
Integrando o projeto Dupla de Dois, do COOXIA Coletivo Teatral, o espetáculo inicia sua temporada 2026 com apresentações itinerantes por diferentes territórios de Salvador.
A estreia acontece na Ribeira, no Largo do Papagaio, nos dias 27 de março, às 15h, e 28 de março, às 16h. Em seguida, segue para Cajazeiras, com sessões no Campo da Pronaica nos dias 30 e 31 de março, sempre às 15h.
No Subúrbio Ferroviário, chega ao bairro de Plataforma, com apresentações na Praça São Brás nos dias 1º de abril, às 15h, e 2 de abril, às 16h. Encerrando a temporada, o Centro Histórico recebe o projeto no Largo do Campo Grande, entre os dias 4 e 12 de abril, com sessões às quintas e sextas, às 15h, e aos sábados e domingos, às 16h. O espetáculo é bilíngue, ou mesmo trilíngue, integrando português, Libras e yorubá.
“Os territórios por onde vamos circular são, em sua maioria, periféricos e compostos por uma população majoritariamente negra. Levar esse espetáculo é falar diretamente com essas pessoas sobre suas próprias histórias e narrativas. É afirmar a presença de corpos negros em cena e fortalecer vínculos de pertencimento e identidade”, afirma Guilherme Hunder.
Entre mito e cidade
A trama se desenrola na casa de Mãe Mainha, uma matriarca respeitada, enquanto a comunidade se prepara para o caruru em homenagem aos gêmeos. A chegada da Morte, chamada apenas de Ela, ameaça interromper a celebração.
Entre cantos, memórias e rituais, a comunidade precisa proteger a vida, a alegria e a ancestralidade. As crianças percebem que será preciso coragem e brincadeira para enfrentá-la.
Com a ajuda de Mãe Mainha, lançam um desafio: a Morte só poderá permanecer se conseguir dançar até o tambor parar, o que nunca acontece.
Segundo Luiz Antônio Sena Jr., a peça propõe uma nova forma de abordar a morte na infância. Mesmo sendo um tabu, o tema é tratado com leveza, desconstruindo a ideia de finitude absoluta. Ao longo da narrativa, o medo inicial se transforma.
As crianças deixam de evitá-la e passam a encará-la, até colocá-la para dançar. Uma forma de repensar esse momento de passagem.
No espetáculo, a relação com a morte também abre caminho para falar de tradição, memória e continuidade. A proposta é valorizar o caruru e reforçar a importância das heranças afro-diaspóricas na formação cultural.
A visualidade do espetáculo tem como referência simbólica as feiras populares, entendidas como espaços de cultura viva. O terreiro surge como casa, quintal e salão de memórias ancestrais.
A cenografia, assinada por Erick Saboya, se soma aos adereços de Elis Brito e aos figurinos concebidos por Guilherme Hunder. Caixotes plásticos, panelas de ferro, sacolas de palha e utensílios domésticos compõem a cena. Já os figurinos dialogam com sacos de feira, quiabos e tecidos coloridos, unindo tradição e urbanidade em uma paleta que mistura os tons do dendê às cores vibrantes da cidade.
Infâncias em cena
O elenco é formado por Anderson Danttas, Ane Ventura, Fernanda Silva, Gabriel Nafisi e Larissa Libório. Para Larissa, o processo tem sido atravessado por descobertas e autoconhecimento. “Entendo que fazer obras assim me molda como artista negra também para além dos palcos. É uma construção de identidade que reflete na minha vida, na forma de produzir e de me colocar no mundo”, afirma.
A atriz ressalta ainda a importância de hoje poder construir referências que faltaram no passado. “Fico feliz de reforçar esse pertencimento e de levar esse tema para as crianças de um jeito que a gente não teve acesso na nossa infância”. observa
Para dar vida ao seu personagem, o ator Anderson Danttas buscou referências nas próprias vivências e na relação com sua criança interior. “O personagem parte do Danttas que, desde pequeno, já queria ser artista e hoje realiza esse desejo. É uma forma de celebrar essa criança”.
O ator também observa as infâncias ao seu redor como fonte de criação. “Acompanhar o crescimento do meu sobrinho, olhar para os filhos de amigos, entender as fases da infância contribui muito para a construção”.
Ele acrescenta que a relação com a criança passa por um aprendizado ancestral. “Quando a gente olha com o olhar de uma criança, tudo parece mais possível. A criança é semente, renovação, pureza”.
Para eles, a apresentação em espaços abertos exige um estado de prontidão dos artistas, que incorporam o imprevisto como parte da cena. O corpo, guiado pelo ritmo e pela música, precisa estar disponível para reconfigurar qualquer situação. Como na infância, o jogo se constrói no encontro com o inesperado.
O diretor explica que circular pelas praças de Salvador surge desse compromisso de levar o teatro “aonde o povo está”. “Além disso, o próprio mote do espetáculo, a preservação e promoção de um legado cultural afro-baiano, pede essa presença na rua. Quando o cotidiano da cidade atravessa a cena, cria-se uma identificação imediata”, afirma.
Integrando o projeto Dupla de Dois, a peça é uma realização do COOXIA Coletivo Teatral. O projeto “Dupla de Dois: experimento gastronômico-performativo para as infâncias” foi contemplado pelo edital Chamadão das Artes Cênicas, com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador.
Espetáculo Fala, Ìbejì
Largo do Papagaio
- Quando: sexta-feira (27), 15h e sábado (28), 16h
Cajazeiras (Campo da Pronaica)
- Quando: segunda (30) e terça-feira (31), 15h
Subúrbio Ferroviário – Plataforma (Praça São Brás)
- Quando: quarta-feira (01/04), 15h e quinta-feira (02), 16h
Centro Histórico (Largo do Campo Grande, Praça Dois de Julho)
- Quando: dias 04 a 12/04, quintas e sextas, 15h e sábados e domingos, às 16h
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
Fonte: A Tarde



