segunda-feira, março 2, 2026
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especialistas avaliam riscos de sanções após relatório de base secreta

Um relatório feito por um bloco do Congresso dos Estados Unidos apontou a possibilidade de existência de uma base militar secreta da China em Salvador. A divulgação do documento levantou a hipótese de uma possível reação por parte dos americanos.

Ao Portal A TARDE, especialistas em economia e relações políticas explicaram quais os riscos que o Brasil corre em uma eventual ofensiva dos Estados Unidos, que hoje disputa com a China o posto de principal potência econômica do mundo no século XXI.

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O que diz o relatório americano?

O documento de 34 páginas dedica um espaço para explicar a suposta base instalada em Salvador. O local recebeu o nome de ‘Tucano Ground Station’, sem maiores explicações do motivo da nomenclatura.

Ainda de acordo com o documento, a base foi estabelecida em um acordo firmado em 2020 pela Alya Nanosatelites e a Beijing Tianlian Space Technology. A parceria tem como objetivo, segundo o texto que consta no relatório, analisar dados de satélites dentro do território brasileiro.

O relatório também aponta para um acordo entre a Alya e o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira (FAB), tendo como ponto principal o treinamento militar em “simulação de órbita”.

“A Alya Nanosatellites também firmou um MOU com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, que inclui o treinamento de pessoal militar em simulação de órbita e a utilização de antenas da Força Aérea como reserva (backup) para o local de Tucano”, diz trecho do documento.

Os EUA vão reagir?

Até o momento, o governo dos Estados Unidos não se manifestou publicamente acerca do relatório. Ao Portal A TARDE, Antônio Carvalho, professor de economia e consultor, falou sobre os riscos de uma reação por parte da Casa Branca.

Segundo o especialista na área econômica, a instalação da base, ainda não confirmada, de fato, pode ser interpretado como uma “provocação” chinesa aos EUA na ‘corrida’ pela hegemonia econômica e política.

“Os contornos políticos e institucionais de uma guerra comercial podem ser imensuráveis, principalmente quando trata-se de nações que, além do poder econômico disputando a partir de sua capacidade de atuação comercial têm entre si, diferenças de posicionamento político e como é o caso dos EUA e China. A aceitação do estabelecimento de base de um desses países, pode, em certa medida ser interpretado como “provocação”, como posicionamento para um dos lados da disputa”, iniciou o professor de economia, que continuou.

“A China tem se tornado um parceiro comercial cada vez mais importante para a maioria dos países, dentre estes o Brasil, sua alta capacidade de consumo que lhe confere a posição de grande comprador, o que agrada aos países produtores e também de fornecedor por sua elevada capacidade tecnológica e produtiva, somada a uma agressiva expansão econômica, que inclui o estabelecimento de empresas, aquisição de terras e o estabelecimento de bases comerciais, faz do pais Asiático a mais temida economia mundial para seus concorrentes”, completou Antônio Carvalho.

Bahia pode sofrer sanções?

O risco de uma sanção econômica dos Estados Unidos ao território baiano, como retaliação ao movimento envolvendo Brasil e China, também foi avaliado pelo especialista, que lembrou as medidas recentes adotadas pela Casa Branca.

Para o economista, no entanto, os países envolvidos precisam estabelecer uma “comunicação clara” e “segura”, respeitando os acordos internacionais, evitando novas crises e interpretações equivocadas sobre as medidas que possam vir a ser adotadas.

“É possível haver sanção dos EUA contra o Brasil e, diretamente contra a Bahia? É difícil afirmar ou especular. No entanto, considerando o nível de disputa entre as duas potências e o histórico recente de imposições tarifárias e comerciais do governo estadunidense contra países, é necessário ter prudência na condução de um processo desta natureza, devendo haver comunicação clara, formalidade segura e respeito às normas e acordos internacionais para que a medida, se concretizada, seja, além de plenamente legal e coerente, não seja interpretada como provocativa”, pontuou.

Impacto político

Os prováveis impactos políticos e diplomáticos, caso a existência da base militar secreta seja confirmada na capital baiana, também foram analisados. O cientista político João Vilas Boas pontuou, em entrevista ao Portal A TARDE, que antes de qualquer retaliação, os americanos devem pressionar por esclarecimentos por parte do governo brasileiro.

“O cenário mais provável, creio eu, caso o tema avance, é pressão diplomática por esclarecimentos, e não uma retaliação econômica imediata ou ruptura institucional. Mesmo em contextos de maior tensão política (cabe lembrar, o mais recente, do tarifaço) entre lideranças como Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, as relações estratégicas e comerciais entre Brasil e Estados Unidos tendem a prevalecer sobre discursos”, afirmou o analista.

Cautela sobre as afirmações

O cientista político ponderou que é necessário entender que a citação de uma instalação chinesa em território soteropolitano não significa que existe uma base militar secreta do país na capital baiana.

A suposta instalação mencionada no relatório não caracteriza automaticamente a existência de uma base militar formal

João Vilas Boas, cientista político

Ele explicou também que os Estados Unidos já monitoram a “expansão tecnológica” da China na América Latina, como parte da disputa estratégica entre as duas nações.

“Estações terrestres são estruturas comuns no setor aeroespacial e podem ter alguns finalidades distintas, muito embora, no contexto da rivalidade estratégica entre China e Estados Unidos, qualquer infraestrutura espacial ganhe dimensão geopolítica, como está acontecendo com esse fato. Os Estados Unidos já mantêm vigilância constante sobre a expansão tecnológica chinesa na América Latina, mas uma reação mais contundente contra o Brasil dependeria de comprovação objetiva de envolvimento estatal em atividade militar estrangeira, o que até o momento não foi comprovado”, afirmou.

E a Bahia?

A Bahia, citada no relatório como espaço de instalação de uma das bases, pode vir a ser impactada com a comprovação dos interesses militares da China. Esse impacto, no entanto, seria mais político e reputacional, segundo o cientista político.

Para a Bahia, o impacto imediato é mais político e reputacional do que institucional

João Vilas Boas, cientista político

Ele reforçou que não há comprovação da instalação da base militar chinesa em Salvador, e sim um documento que acirra ainda mais a disputa entre as duas maiores potências econômicas do mundo.

“Questões envolvendo defesa nacional e acordos internacionais são de competência da União, não do Estado ou dos municípios. Portanto, sem ilações ideológicas, o que existe até aqui é um relatório inserido na disputa global entre potências”, pontuou.



Fonte: A Tarde

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