O que aconteceu na noite de terça-feira, 17, último dia do Carnaval de Salvador 2026 não foi apenas um gesto artístico. Foi um marco histórico. Ao estenderem o desfile até a Avenida Carlos Gomes — contrariando o fluxo oficial do Circuito Osmar— Ivete Sangalo e Daniela Mercury transformaram a via, hoje secundária, no centro das atenções.
A subida na contramão reacendeu uma memória que, para muitos foliões, nunca deixou de existir.
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Por décadas, a Avenida Carlos Gomes era parte corredor oficial da folia no Campo Grande — e o encontro na Praça Castro Alves representava o ápice da festa.
Para entender por que a subida da Carlos Gomes foi tratada como um marco, é preciso voltar ao tempo em que aquela via era parte essencial do coração da festa.
Circuito Osmar (Campo Grande), Carnaval de 2017
Quando a Carlos Gomes era o grande corredor da folia
Oficialmente chamado de Circuito Osmar, o percurso mais tradicional do carnaval soteropolitano nasce no Campo Grande e segue até a Praça Castro Alves, cortando a Avenida Sete. Durante décadas, o trajeto incluía o retorno pela Av. Carlos Gomes, transformando a via em corredor oficial de saída dos blocos.
Ali, arquibancadas lotadas acompanhavam a passagem dos trios, e o encontro na Praça Castro Alves se consolidava como o ápice da festa — o momento em que vozes, guitarras e multidão se fundiam em celebração.
O Campo Grande é o berço do trio elétrico. Foi ali que, em 1950, Osmar Macêdo e Adolfo Nascimento colocaram alto-falantes em um Ford 1929 e arrastaram uma multidão atrás da “fobica”, mudando para sempre a história da folia. Durante muito tempo, a energia do circuito pulsava em mão dupla — literalmente.
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A mudança que redesenhou o Centro
A transformação começou a ganhar força na última década, especialmente a partir de 2013 e 2014, quando a Prefeitura de Salvador passou a defender um circuito prioritariamente unidirecional: Campo Grande → Avenida Sete → Praça Castro Alves, sem retorno pela Carlos Gomes.
À época, o então prefeito ACM Neto afirmou que a tendência era manter o novo traçado, alegando ganhos logísticos e financeiros.
Segundo o balanço municipal, houve redução de custos e maior participação de investimento privado após a mudança.
A justificativa central era técnica: melhorar mobilidade, segurança e escoamento de público. O uso exclusivo de um sentido evitaria cruzamentos de trios, reduziria gargalos e facilitaria o controle do fluxo de foliões.
Mas a decisão não passou sem resistência.

Circuito Osmar (Campo Grande) do Carnaval 2013 de Salvador, Bahia
Entre queixas e adaptação
A exclusão da Carlos Gomes do trajeto oficial desagradou parte dos foliões e impactou diretamente moradores e comerciantes da região. Quem costumava alugar apartamentos para a festa relatou queda brusca na procura, já que os trios deixaram de contornar pela via.
Questionamentos sobre a exclusividade de patrocinadores, reposicionamento de arquibancadas e reorganização dos ambulantes foram feitos.
A decisão foi tomada. O circuito foi encerrado oficialmente na Praça Castro Alves, sem o tradicional retorno. Para muitos, era o fim de uma era.
Com o tempo, a Avenida Sete de Setembro consolidou-se como eixo central do Circuito Osmar, enquanto a Av. Carlos Gomes passou a cumprir função operacional, perdendo protagonismo artístico.

Circuito Osmar – Campo Grande
2026: o gesto que reacendeu a memória
Mais de 10 anos depois da mudança, o que se viu foi um movimento simbólico que extrapolou o roteiro.
Antes de iniciar seu desfile nesta terça, Daniela Mercury foi homenageada por Ivete Sangalo. As duas dividiram o trio, cantaram juntas e trocaram declarações públicas sobre trajetória e influência na música baiana. Durante a pipoca, Daniela também fez reflexões sobre o papel das mulheres e a necessidade de fortalecimento coletivo.
Mas o ponto de inflexão ocorreu quando ambas decidiram seguir além do limite estabelecido e conduzir o público pela Carlos Gomes.
Não era o trajeto oficial. Era a lembrança do trajeto original.
A decisão de Ivete Sangalo e Daniela Mercury de seguir por um caminho não oficial reacendeu memórias de uma época em que a Avenida Carlos Gomes era o coração da folia.

Circuito Osmar (Campo Grande), Carnaval de 2017
Organização versus pertencimento
A mudança implementada na última década foi defendida como modernização administrativa: melhor controle de público, otimização de custos e racionalização da estrutura.
O episódio de 2026 mostrou que, paralelamente à engenharia urbana, existe uma engenharia afetiva.
A Av. Carlos Gomes pode ter deixado de integrar o percurso formal, mas nunca saiu da memória coletiva de quem vive o Campo Grande como espaço de origem, resistência e tradição.
Ao desafiar o traçado, Ivete Sangalo e Daniela Mercury não apenas estenderam um desfile, elas reacenderam um debate sobre identidade, modelo de gestão e pertencimento.
No Carnaval de Salvador, cada rua carrega uma narrativa. E, quando duas das maiores artistas da história da festa decidem mudar o sentido do percurso, o que está em jogo não é apenas direção — é memória.

Qual foi o evento marcante do Carnaval de Salvador em 2026?
O evento marcante foi o desfile de Ivete Sangalo e Daniela Mercury pela Avenida Carlos Gomes, quebrando o fluxo oficial e reverberando uma memória histórica do Carnaval.
Por que a Avenida Carlos Gomes foi importante no passado do Carnaval?
Durante décadas, a Avenida Carlos Gomes foi parte fundamental do trajeto oficial do Carnaval, servindo como corredor de saída para os blocos, onde a festa atingia seu ápice na Praça Castro Alves.
O que motivou a mudança no circuito do Carnaval em Salvador?
A mudança para um circuito unidirecional foi defendida por razões de logística, segurança e otimização de custos, visando melhorar o controle do fluxo de foliões.
Como a mudança do circuito afetou a comunidade local?
A exclusão da Avenida Carlos Gomes desagradou foliões e impactou positivamente comerciantes e moradores, que sentiram uma queda na procura por aluguéis e serviços durante o Carnaval.
Qual é o significado do gesto de Ivete e Daniela no Carnaval de 2026?
O gesto delas foi um símbolo de resistência e pertencimento, resgatando a tradição e identidade do Carnaval, além de abrir um diálogo sobre o papel da memória na festa.
Fonte: A Tarde



