domingo, abril 5, 2026
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Emiliano José homenageia historiador baiano Luís Henrique Dias Tavares

Emiliano fala do legado deixado pelo historiador na compreensão do protagonismo de escravizados na Bahia –

No próximo dia 7 de abril, quando se comemora o Dia do Jornalista, o ex-deputado federal Emiliano José, que é profissional da área, fará uma palestra na Academia de Letras da Bahia em homenagem a um ilustre colega.

Patrono da cadeira de número 1 da ALB, que tem Emiliano como titular, o historiador Luís Henrique Dias Tavares, que teria completado 100 anos em 25 de janeiro último, teve uma destacada atuação em veículos de imprensa dirigidos pelo Partido Comunista Brasileiro na Salvador da primeira metade do século 20.

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Nesta entrevista, Emiliano fala do legado deixado pelo historiador na compreensão do protagonismo de escravizados na Bahia na luta pela Independência e pela própria liberdade.

Este é o ano do centenário do historiador Luís Henrique Dias Tavares, e o senhor ocupa na Academia de Letras da Bahia a cadeira que foi dele…

Sim, ele é o patrono da cadeira, que por acaso é a cadeira de número um. E eu, em março de 2021, cheguei à Academia para ocupar essa cadeira. Com muita honra, porque não é uma figura qualquer. Talvez, o maior historiador baiano.

Ele tem essa marca de ter registrado a luta dos escravizados pela Independência e pela liberdade…

Veja. Ele se interessou muito pela luta das pessoas escravizadas em várias obras dele. A mais famosa é Sedição Intentada na Bahia em 1798, conhecida como Revolta dos Alfaiates, Revolta dos Búzios, Conjuração Baiana, que foi uma movimentação muito significativa, uma tentativa de revolução visando a liberdade do povo negro. Desde lá, ele já se preocupou com isso como em toda a obra dele.

Em História da Bahia, que começou como uma obra pequena e hoje é uma grande obra, ele também trata disso, embora não só. Há um outro livro chamado Da Sedição de 1798 à Revolta de 1824 na Bahia, que tem vários aspectos. E sempre há uma preocupação dele com a questão negra.

No dia 7, eu vou me dedicar a falar um pouco, especificamente, em torno do livro Independência do Brasil na Bahia. É um livro muito interessante sobre a história da luta pela Independência, que faz chegar ao Dois de Julho de 1823. E uma leitura atenta do trabalho dele vai localizar, durante todo o percurso do livro, ele avaliando a movimentação das classes sociais todas, avaliando como a Independência caminhou com muita vacilação de Dom Pedro, como ele queria uma solução monárquico-constitucional, como resistia à ideia da Assembleia Constituinte. Como queria, de alguma forma durante uma determinada fase, a ligação com Portugal, mas que os acontecimentos e a pressão da sociedade brasileira acabaram levando mesmo à Independência em 7 de setembro de 1822.

Na Bahia você tinha as tropas portuguesas que estavam aqui, o general Madeira de Melo tomando conta da cidade do Salvador. E houve toda a movimentação, sobretudo a partir de Cachoeira, Santo Amaro, e o dia 25 de junho de 1822. Há a Batalha de Cachoeira e o bombardeio da nau portuguesa que estava ancorada lá.

E depois se inicia mesmo a luta armada, na Bahia, contra as tropas portuguesas que o general Madeira de Melo comandava. E vai acabar por redundar na vitória das forças brasileiras. Forças brasileiras, é sempre importante constituir, não eram formadas pelas camadas mais poderosas, as classes sociais mais ricas, eram constituídas pelos negros libertos, pelos escravos mesmos, por brancos pobres e uma parte do exército que veio com Labatut do Rio de Janeiro, uma parte do exército profissional.

Qual a motivação dos escravizados na luta pela Independência?

Foi sobretudo esse exército libertador composto por trabalhadores pobres, por negros e negras libertos e escravizados que libertou a Bahia e derrotou as tropas portuguesas. O importante ao longo do livro é que ele demonstra que havia, como ele diz, no decurso da luta pela independência, uma outra luta que era a dos escravizados pela sua libertação.

E isso ele vai demonstrando, durante todo o tempo, como essa luta acontecia, e como havia o temor profundo das classes dominantes, por duas coisas: tinha que haver a Independência, todos concordavam, mas não podia acabar com a escravidão; e não podia acabar com o tráfico negreiro. E isso vai continuar até a proibição da Inglaterra e tudo o que se conhece. A população escravizada participou da guerra decisivamente e imaginava que no seu decurso também houvesse a libertação da população negra.

Durante todo o livro, ele demonstra o medo, literalmente. Há um documento que se chama O Medo do Partido dos Negros. Ele dizia o tempo inteiro que os negros poderiam fazer uma sublevação. E podiam. No momento em que ele localiza em Cachoeira uma proposta de levante dos negros, aí surgem as proibições, o negro não pode andar à noite, não pode andar devagar. Uma sequência de proibições.

Durante todo o livro ele demonstra isso. E depois demonstra como, pode-se dizer desta maneira, os negros vindos daquela luta pela independência foram enganados, traídos de alguma forma. Não houve a libertação que eles imaginavam. E logo depois da Batalha de Pirajá, por exemplo, Labatut mandou fuzilar cerca de oitenta negros porque eles teriam sido levados, na opinião dele, a uma tentativa de rebelião, insuflada pelos portugueses, o que não é verdadeiro. Luís Henri que Dias Tavares disse: não se pode creditar os levantes e a insatisfação negra a qualquer tentativa dos portugueses de insuflar, porque havia um sentimento efetivo da população negra pela liberdade, o que não vai ocorrer, apesar de haver toda uma perspectiva de que isso viesse a acontecer.

Que característica do historiador o senhor ressalta?

Luís Henrique não era dado a ufanismos fáceis. Estamos acostumados a pensar o Dois de Julho com um exército pacificador entrando na cidade, glorioso. Aquela maravilha, aquele desfile. E ele fala com toda a nitidez: entrou em Salvador naquele Dois de Julho um exército maltrapilho, sem roupa, descalço, todos com bicho de pé, prontos a ingressar em hospitais profundamente precários, que nem podiam ser chamados de hospitais.

Foi um exército de pobres, negros escravizados, que libertou a Bahia. Mas não conseguiu se libertar. Eu vou enfatizar esse aspecto muito forte do Luís Henrique Dias Tavares. Na pers pectiva de se olhar para a população negra que participou decisivamente daquela luta. Mas os negros continuam lutando até hoje pela sua liberdade. A verdade é essa. Eu vou focar em um aspecto na palestra, mas há muitos aspectos a ressaltar sobre o trabalho de Luís Henrique. Há um caminho imenso para nós conseguirmos revelar a grandiosidade da contribuição dele à história da Bahia. E do Brasil, naturalmente.

E o professor Luís Henrique era jornalista, ajudou a fundar o jornal O Parlapatão e foi colunista do Jornal da Bahia.

Aí é uma coisa pouco falada. Ele nasceu como jornalista no jornal O Momento, do Partido Comunista Brasileiro, e ficou nas décadas de 40 e 50 como jornalista de O Momento. Ele chegou a ser preso e tudo. Um jornal comunista di ário. E foi também diretor da revista Seiva, que em sua segunda etapa também foi dirigida pelo Partido Comunista Brasileiro, no início dos anos 50, onde ele foi redator-chefe.

Eu não sei se terei tempo para estudar isso, mas eu tenho dito, na frente do filho dele, Luís Guilherme Pontes Tavares, que foi meu colega de graduação, embora seja bem mais novo, que no conjunto da obra do professor Luís Henrique Dias Tavares são nítidas as marcas dele como militante comunista. Ele carrega as marcas do marxismo em sua obra. Muito embora ele ressalte, em determinado momento, que não foi um período feliz de sua vida, mas o período que ele foi jornalista do PCB, seguramente, foi de muito aprendizado. Aí ele se casou e foi dar aulas.

Luís Henrique Dias Tavares | Foto: Cedoc A TARDE

Por falar em política, o senhor sente falta do parlamento? Este ano temos eleições. Como o senhor analisa o momento que vivemos?

Essa é a mais importante eleição que nós vamos experimentar na nossa história. Porque nós estamos numa quadra mundial bastante preocupante, com o avanço da extrema-direita, do nazifascismo. Com o avanço do que nós poderíamos chamar de quintas-colunas.

O filho do ex-presidente, nos Estados Unidos, disse claramente entregar o Brasil para viabilizar os Estados Unidos. Entregar as terras raras. Falou isso em um discurso dele lá. Então, nós vamos enfrentar a mais importante eleição de nossa história. Quando o presidente anterior ao Lula ganhou a eleição em 2018, em março de 2019, ele disse, sem esconder nada, “eu vim para destruir, não vim para construir nada”. Ele cumpriu a promessa, veio para destruir.

Ele pensou em dar um golpe e matar gente. Eu não estou inventando, os fatos estão aí. Eles queriam matar o Lula, o ministro Alexandre de Moraes e o vice-presidente Alckmin. Se esses ele queria matar, ia matar gente que não acaba mais. Eu costumo dizer que se aquele golpe que ele tentou, para implantar uma ditadura, se essa ditadura acontecesse, nós teríamos uma nova Jacarta [referência ao Massacre na Indonésia, quando Suharto ordenou a morte de mais de um milhão de indonésios associados ao comunismo].

Nós vivemos momentos de terror no Brasil com aquele governo. Este ano, vamos precisar ampliar o trabalho que tem sido feito para convencer o nosso povo da gravidade que é qualquer volta da extrema-direita no Brasil. O exemplo da Argentina é muito evidente. Nós recuamos na Argentina mais de um século, passou-se a um regime de 12 horas de trabalho. No Chile, com a vitória da extrema-direita, a juventude já está nas ruas aos milhares. Porque ele está querendo acabar com o ensino público no país. A extrema-direita é um pesadelo do mundo. O massacre de Gaza levou já à quase extinção de uma nação.



Fonte: A Tarde

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