Desde o final da semana passada, tem causado perplexidade no país inteiro as revelações trazidas à tona com a divulgação oficial e o vazamento de parte do conteúdo dos celulares apreendidos pela Polícia Federal (PF) do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em meio a suspeitas de fraudes. Enquanto o banco passava por momentos difíceis antes da liquidação, Vorcaro vivia um estilo de vida nababesco, com viagens milionárias e compra de imóveis de luxo no Brasil e no exterior.
As mensagens, arquivos e contatos apreendidos nos celulares de Vorcaro também revelam trânsito fluído nas mais altas esferas dos Três Poderes no país, e indicam relação próxima com nomes influentes da política e do Poder Judiciário. Vorcaro foi preso preventivamente no final da segunda-feira passada após ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que assumiu o caso do Bando Master no lugar de Dias Toffoli.
O caso está sob sigilo na Corte Suprema. Os advogados do ex-banqueiro têm protestado contra o vazamento do conteúdo do inquérito contra ele para a imprensa. Eles também afirmam que Vorcaro é inocente de todas as suspeitas, e que não houve nenhuma fraude no Banco Master. Nesta segunda-feira (9), os advogados divulgaram uma nota informando que pediram ao STF acesso ao cliente sem gravação das conversas — procedimento de praxe no presídio federal de Brasília onde ele está preso.
Como funciona a tecnologia que recupera dados apagados de celular
A análise do conteúdo de celulares apreendidos em operações da PF no Instituto Nacional de Criminalística envolve uma série de ferramentas que permitem acessar os dados mesmo quando os aparelhos estão bloqueados por senhas, desligados e até quando as informações foram excluídas do dispositivo. O processo de extração e posterior análise dos dados de celulares é feito por meio de programas que garantem, inclusive, a rastreabilidade de mensagens de visualização única e de arquivos apagados.
Uma das ferramentas mais usadas é o UFED (dispositivo de extração forense universal, em tradução livre da sigla em inglês), da empresa israelense Cellebrite. Trata-se de uma espécie de “maleta espiã” que reúne um conjunto de hardwares e softwares capazes de invadir celulares e extrair informações como lista de contatos, fotos, áudios, vídeos e histórico de e-mails, navegadores e páginas de busca, além de conversas e informações em aplicativos como WhatsApp, Instagram e outras redes sociais.
Com auxílio do equipamento, a extração dos dados é feita independentemente do uso de senhas e criptografia — a análise dos dados é feita com a ajuda de softwares complementares.
Reportagem da Gazeta do Povo já acompanhou o funcionamento da “maleta espiã”
A reportagem da Gazeta do Povo já teve a oportunidade de observar ao vivo o funcionamento da “maleta espiã” em uma demonstração do representante comercial do fabricante, em São Paulo. É possível recuperar dados apagados, incluindo mensagens em aplicativos.
Também ficam disponíveis para os investigadores todos os dados que estejam nas “nuvens” do usuário acessadas a partir do celular, além de todos os registros do GPS e em antenas de sinal de telefonia espalhadas pela cidade.
Este tipo de equipamento é capaz de invadir praticamente qualquer celular ou tablet de qualquer geração: de iPhones da Apple a telefones que usam o sistema operacional Android, do Google, passando por diversas marcas e sistemas operacionais menos conhecidos, a maioria chineses.
A tecnologia não funciona à distância: é necessário que o aparelho celular seja conectado fisicamente à maleta para a invasão ser concretizada, por meio de uma série de cabos especiais. A PF usa os equipamentos, que são atualizados constantemente, pelo menos desde 2012, a um custo anual milionário para renovação das licenças de uso após a aquisição dos equipamentos.
Relatórios forenses são auditáveis para serem aceitos como provas
O programa utilizado na análise dos dados também cruza dados de vários aparelhos e é capaz de dizer quem conversou com quem, quando e até puxar pelos registros do GPS os lugares por onde os aparelhos analisados passaram e se estiveram juntos. Os relatórios forenses são auditáveis e certificados dentro de parâmetros internacionais e da legislação brasileira para que as informações obtidas por meio deles sejam aceitas como provas em tribunais.
Mesmo quando é utilizado o recurso de visualização única em aplicativos de mensagens, ainda é possível conseguir recuperar o material com este tipo de ferramenta. De acordo com as investigações, Vorcaro utilizava uma técnica para tentar evitar que a troca de mensagens em si ficasse facilmente acessível: enviava capturas de tela de anotações feitas no seu bloco de notas aos remetentes no formato de visualização única.
“Quando você apaga ou manda uma informação, ou manda uma informação em visualização única, cria, apaga ou envia um arquivo, os registros de que isso tudo aconteceu ficam no dispositivo eletrônico, são os chamados metadados”; afirma à Gazeta do Povo o perito especialista em crimes digitais Wanderson Castilho.
“Essa forma de comunicação por prints deixa diversos rastros no celular: cria-se um documento no bloco de notas, tira-se foto dele e envia-se ele por um aplicativo de mensagens. Mesmo que tudo seja apagado, diversos registros destas operações todas ficam nos metadados. É possível inclusive recuperar a nota ou foto apagados do celular e estabelecer o elo com as mensagens enviadas por meio destas informações extraídas na perícia”, explica o especialista.
Vorcaro conversava com Moraes no dia da prisão, diz jornal
De acordo com o jornal O Globo, o material apreendido no celular do ex-banqueiro inclui diversas trocas de mensagens diretas por WhatsApp com o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Moraes nega qualquer conversa pelo celular com o ex-banqueiro (leia mais abaixo), e afirma que a forma como os documentos estavam organizados — não fica claro se no celular de Vorcaro ou na perícia da PF, e neste caso em qual dos softwares utilizados — também indicam que as mensagens divulgadas pelo jornal não eram destinadas ao ministro.
Nesta segunda-feira, a esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes, quebrou o silêncio sobre o caso e divulgou uma nota — em 2024 o escritório de advocacia comandado por ela assinou um contrato que previa o pagamento de R$ 3,5 milhões por mês — R$ 129 milhões no total — durante três anos com o Banco Master, segundo informações do jornal O Globo, que foi encerrado com a liquidação do banco.
Na nota, o escritório afirma que o atendimento ao Banco Master era feito por uma equipe de 15 advogados e três escritórios adicionais subcontratados. Também diz que realizou 94 reuniões com a equipe do banco, fez 36 pareceres jurídicos atuou em causas do banco na Justiça, porém nunca no STF (leia na íntegra abaixo).
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Íntegra da nota do STF sobre os dados nos celulares de Vorcaro
A Secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal, por solicitação do gabinete do ministro Alexandre de Moraes, informa:
Análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos.
No conteúdo extraído do celular do executivo pelos investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes.
A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes.
Os nomes e contatos das pessoas vinculadas aos respectivos arquivos não serão mencionados na presente nota em virtude do sigilo decretado pelo Ministro André Mendonça, mas constam no arquivo que a CPMI do INSS disponibilizou para toda a imprensa.
Íntegra da nota do escritório da esposa de Moraes
O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados esclarece que foi contratado, no período entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, pelo cliente Banco Master, para o qual realizou ampla consultoria e atuação jurídica, por meio de uma equipe composta por 15 (quinze) advogados. Para a realização dos serviços, também contratou outros três escritórios especializados em consultoria, que ficaram sob sua coordenação.
As duas equipes jurídicas responsáveis pela consultoria e atuação jurídicas, entre o início do contrato, em 2024, e a liquidação extrajudicial do banco, em novembro de 2025, com o consequente encerramento contratual, realizaram:
94 (noventa e quatro) reuniões de trabalho, sendo:
I.1) 79 (setenta e nove) reuniõespresenciais na sede do Banco Master, todas com duração aproximada de 3 (três) horas, entre o banco, por meio de suas superintendências de Compliance e Corporativa e gerência de Compliance, e a equipe jurídica do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, para análise de documentos, discussão dos problemas jurídicos e desenvolvimento do objeto do contrato;
I.2) 13 (treze) reuniões com a presidência da instituição e a equipe jurídica, sendo 2 (duas) presenciais na sede do escritório e 11 por videoconferência, com duração aproximada de 2 (duas) horas;
I.3) 2 (duas) reuniões por videoconferência entre o jurídico do Banco Master e a equipe jurídica do escritório Barci de Moraes, com duração aproximada de 2 (duas) horas.
A atuação de uma das equipes jurídicas, juntamente com os consultores contratados, englobou a elaboração de Opiniões Legais nos casos solicitados pelo Departamento de Compliance; Revisão da Política de Captação para o Regime Próprio da Previdência Social – RPPS; Revisão do Programa de Compliance & PLDFT para a obtenção do Selo Pro-Ética, implicando em: Revisão da Estrutura do Departamento de Compliance; Revisão do Código de Ética e Conduta; Elaboração das Políticas necessárias – Política de relacionamento com Poder Público; Política de licitações e contratos; Política de contato com concorrentes; Política de conflito de interesses; Política de Partes Relacionadas, entre outras; Revisão das demais políticas e procedimentos da área de Compliance para adequação ao exigido pela Corregedoria Geral da União – CGU.
Foram produzidos 36 (trinta e seis) pareceres e opiniões legais acerca de uma ampla gama de temas, como aspectos previdenciários, contratuais, negociais, trabalhistas, regulatórios, de compliance, proteção de dados e crédito, entre outros.
Elaboração e apresentação de processos para certificação de ética e governança, com mapeamento das atividades, levantamento de documentação-base, análise das oportunidades, elaboração e revisão e treinamentos do público-alvo sobre as novas políticas, a partir da revisão do Código de Ética e Conduta, políticas de integridade, estruturação do departamento de compliance e apoio à alta administração.
Elaboração e revisão do Manual de Gestão e Captação de Recursos do RPPS, Política de Relacionamento com o Poder Público, Política de treinamento, capacitação e certificação continuada, Política de PLDFT, Política de Risco Operacional, Política de Sucessão de Administradores, Política de Transação com Partes Relacionadas, Política de Canais de Denúncia e Investigações, Política de Gestão de BNDU, Política de fusões e aquisições, Política de Gestão de Consequências, Política de investimentos pessoais, Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática, Política de Suitability, Política de Comunicação, Política de Saúde e Segurança no Trabalho, Manual de Contratação de Parceiros, Manual de Procedimentos Conheça seu Parceiro – KYP, Manual de Procedimentos Conheça seu Prestador de Serviço Terceirizado.
A equipe jurídica ajudou a implementar o Novo Código de Ética e Conduta do banco, com apresentação presencial às Superintendências, e realizou consultoria sobre temas do mercado financeiro, como questionário AMBIMA, revisão de formulários de Due diligence; a elaboração de modelos de relatório regulatório sobre remuneração; preenchimento de autoavaliação do Pacto Brasil (25 de setembro e 09 de outubro de 2025), entre outros. Outra equipe do escritório Barci de Moraes, juntamente com os consultores, atuou, principalmente, na área penal e administrativa, na análise consultiva e estratégica de inquéritos policiais, ações penais, inquérito civis, ações civis públicas e ações de interesse ou que pudessem produzir reflexos na atuação do Banco Master e de seus dirigentes, vários deles sigilosos, bem como na atuação contenciosa específica em ação penal, cujo ajuizamento ocorreu em 17/10/2024, e inquérito policial federal específico, cuja habilitação se deu em 8/4/2024.
O escritório esclarece ainda que nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF (Supremo Tribunal Federal). O Barci de Moraes Sociedade de Advogados tem uma trajetória de quase duas décadas prestando serviços altamente qualificados para grandes clientes, unindo visão jurídica e abordagem estratégica.
Fonte: Gazeta do Povo



