quinta-feira, abril 2, 2026
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Censo do IBGE registrou 144.928 pessoas com o diagnóstico autista na Bahia

Neste dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, os dados do Censo Demográfico 2022 apontam que a Bahia é o 4º estado com maior população diagnosticada, mas com a menor população percentual (1%) no país – empatado com o Tocantins. O panorama dessa população também é de contradição: entre avanços legais nos últimos anos e histórias de exceção, a regra ainda é a luta de famílias e organizações na garantia de direitos.

Com uma lista de títulos internacionais no jiu-jitsu, a história do atleta Igor Nogueira, 30, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) começa em um período em que as informações a respeito de sua condição eram ainda mais escassas. Sua mãe, Marleide Nogueira, conta que percebeu a dificuldade do filho quando ele tinha três anos, mas o diagnóstico propriamente dito só veio aos sete. “Era uma época em que não se falava de autismo como se fala hoje. Foram quatro anos só para conseguir o diagnóstico”.

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Hoje o panorama é diferente e os diagnósticos mais céleres, mas foi apenas em 2022 que aconteceu a primeira pesquisa estatística nacional para levantar dados específicos sobre essa população. O Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou 144.928 pessoas com o diagnóstico na Bahia.

Inclusão na educação

Os números ajudam a dimensionar quantas pessoas lutam para ter acesso a direitos básicos. Na área da educação, Marleide lembra que muitas escolas particulares não aceitavam seu filho e mesmo quando aceitavam não havia estrutura para trabalhar com ele, o que gerou episódios tristes em sua vida. Mesmo com avanços em diferentes áreas, a realidade da população com TEA ainda hoje é de difícil inclusão no ambiente escolar.

Enquanto 98% da população de 6 a 14 anos frequentava a escola, o percentual cai para 93% quando o recorte é na população diagnosticada com autismo, de acordo com o Censo 2022. Já na faixa dos 15 aos 17 anos, o número da população geral é de 85% na escola, diante dos 71% com diagnóstico. O relato da presidente do coletivo Autismo, Família e Direito, Thais Marcia, é de que há muita dificuldade nessa inclusão tanto na rede pública quanto na rede privada.

“Tenho um filho que estuda em rede particular, ele tem sete anos, e já precisei trocar ele de escola duas vezes por falta de inclusão. Inclusão desde a parte de adaptação pedagógica até a inclusão de colegas, de questões de capacitismo das mães. É algo surreal. Depois das questões de saúde, hoje o maior problema que enfrentamos é na inclusão”, comenta. Ela explica que para o desenvolvimento desses estudantes é preciso que haja profissionais dedicados exclusivamente ao seu desenvolvimento de material pedagógico adaptado.

Avanços

Se o cenário ainda é de desafios para inclusão também há avanços que têm mudado a vida dessa população. Marleide diz que o esporte transformou a vida de seu filho. O que começou por uma orientação médica por conta do colesterol, logo virou uma paixão pelo jiu-jitsu, que num primeiro momento não foi bem vista pela mãe. “Quando o instrutor fez esse convite parecia loucura pra mim. Enquanto eu falava das limitações de Igor, lá estavam as potencialidades, caminhos. A resposta eu vi em casa com ele mais focado, concentrado, com mais coordenação motora e raciocínio rápido”.

Igor já viajou para competições internacionais em Abu Dhabi e Bangkok, é beneficiário do programa FazAtleta de incentivo ao esporte da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre) do Governo do Estado e hoje ensina jiu-jitsu no Instituto Occasio – Centro Especializado em Reabilitação para crianças diagnosticadas com autismo, o que era um de seus sonhos. Ele conta que o esporte transformou sua vida e agora busca alcançar o outro sonho que é alcançar a faixa preta.

“O esporte me ajudou a evoluir muito e a me desenvolver muito bem. Estou muito feliz de ver outras crianças autistas evoluindo no jiu-jitsu”, afirma. Ao longo da história de Igor, as legislações também têm avançado no país para inclusão da população diagnosticada, aponta uma das coordenadoras do Núcleo Atipicidades de Ação Social do Centro Palmares, Fabiana Eloi de Amorim, que também é mãe atípica.

A Lei 12.764, de 2012 institui a Política Nacional de Proteção às Pessoas com TEA e caracteriza essa condição como uma deficiência, o que é fundamental, indica Fabiana. “Tira do grupo de doenças e passa a ser uma deficiência. Aí começa a ter leis efetivas que garantam os direitos dessas pessoas”, afirma. Outras normas destacadas são a 13.146 de 2015, que institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, e a Lei 13.977, de 2022, que cria a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea).

Entre avanços, Fabiana destaca que neste dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo o principal desafio para a população com TEA ainda é o combate ao capacitismo e a falta de políticas públicas inclusivas na educação e na saúde.



Fonte: A Tarde

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