quinta-feira, fevereiro 5, 2026
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Canoa havaiana transforma Praia da Preguiça em polo esportivo de Salvador

Canoa havaiana na Praia da Preguiça, em Salvador –

Por muito tempo, a Praia da Preguiça, no Comércio, foi sinônimo de abandono. Estigmatizada pela violência e pelo uso de drogas, a pequena faixa de areia, com vista privilegiada para a Baía de Todos-os-Santos, ficou fora do roteiro de lazer, apesar de ser cercada por alguns dos principais cartões-postais de Salvador. Hoje, o cenário é outro: ainda de madrugada, remos cortam o espelho d’água, canoas coloridas se alinham na areia e grupos se organizam para treinos e passeios. O esporte, sobretudo a canoa havaiana, mudou a história do lugar.

“Aqui era tudo mato. Tinha caco de vidro, sujeira, muito receio das pessoas em vir. A gente limpou essa praia inteira com as próprias mãos”, relembra Jonayr Braga, 40 anos, do clube Canoa Bahia, pioneiro na ocupação esportiva da Preguiça. “Isso foi em 2014. No começo foi um trabalho de formiguinha. Pouca gente acreditava que isso aqui podia dar certo.”

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Hoje, a Praia da Preguiça é considerada o maior polo de canoagem havaiana de Salvador. São 18 clubes funcionando no mesmo trecho, além de outras modalidades que passaram a ocupar o espaço, como natação, futevôlei, boxe e treino funcional.

“O esporte mudou a praia”, resume Luciana Kroeger, fundadora do clube de canoagem Imua Vida Leve. “Não existe outra praia em Salvador com tantos clubes de canoagem como aqui.”

NOVO OLHAR

A canoa havaiana, também conhecida como canoagem polinésia, deixou de ser apenas um esporte exótico para se tornar uma das atividades de lazer e bem-estar mais procuradas da capital baiana, especialmente no Verão. E a Praia da Preguiça reúne uma combinação rara: águas abrigadas da Baía de Todos-os-Santos e uma vista urbana que inclui o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, o Forte São Marcelo, o MAM e o Corredor da Vitória, entre outros pontos da cidade.

“Você acaba vendo Salvador por outro ângulo”, diz Jonayr. “A gente apresenta a história do Forte São Marcelo, do Forte São Paulo, das ruínas ali. É um passeio esportivo, turístico e cultural ao mesmo tempo.”

No Canoa Bahia, os roteiros variam entre passeios contemplativos e treinos mais longos. “Tem o passeio turístico, que vai até o Elevador Lacerda, contorna o Mercado Modelo e segue até o Forte São Marcelo. Qualquer pessoa pode fazer. Não precisa saber remar”, explica. “Tem também o passeio do pôr do sol, em direção ao Corredor da Vitória, com uma parada que eu chamo de Tailândia, por causa da paisagem”

Há ainda remadas mais exigentes, como o percurso até o Porto da Barra, com cerca de 10 quilômetros. “Esses são para quem já treina”, diz Jonayr.

“Mas o mais bonito é que aqui todo mundo se ajuda. São 18 clubes, e a convivência é pacífica. No mar, se alguém passa um perrengue, o outro ajuda. Um monta a canoa do outro. É tudo muito unido.”

Jonayr Braga, da Canoa Bahia, na Praia da Preguiça, no bairro do Comércio | Foto: José Simões/Ag. A TARDE.

‘É TERAPÊUTICO’

Entre os frequentadores da praia, o discurso se repete: remar na Preguiça é mais do que atividade física. É um ritual. É encontro. É pertencimento. “Eu digo que não é terapia, mas é terapêutico”, define a fonoaudióloga Fabrícia Delgado, atleta do clube Imua Vida Leve. “Aqui você rema olhando para o Forte São Marcelo, para o MAM, para o Farol da Barra. É tudo cartão-postal.”

Moradora de Stella Maris, Fabrícia atravessa a cidade quatro vezes por semana para treinar na Preguiça. “O pessoal pergunta: ‘Você mora tão perto da Rua K, por que vem pra cá?’ Porque vira família. Não tem como”, diz. “Todo mundo se conhece. Se alguém perde o horário do seu clube, entra em outra canoa. A galera se abraça aqui.”

Fabrícia começou a remar durante a pandemia, quando buscava uma atividade ao ar livre. “Era o único esporte que não era em lugar fechado”, conta. “Eu remava de caiaque, conheci a canoa havaiana e fui tomando gosto. Hoje eu remo quatro vezes por semana.”

Os treinos começam cedo — muito cedo. “Eu chego aqui umas quatro e meia da manhã”, diz. “O pôr do sol é para todos. Já o nascer do sol é para poucos”

TÉCNICA E SINCRONIA

A rotina intensa faz parte da vida de quem compete. Vivian Vasconcelos, também atleta do Imua Vida Leve, estava na água em um treino de 30 quilômetros no dia da reportagem. “A gente saiu daqui, passou pelo Yacht Club, abriu sentido Penha, foi até a Ribeira e voltou”, conta. “É sempre desafiador.”

Segundo ela, a canoagem exige preparação completa. “Não é só força. É técnica e sincronia. Não adianta ter força se a equipe não está sincronizada”, afirma. “À medida que você vai remando, vai aprendendo. Trabalha braço, dorsal, quadril, perna. É uma atividade física completa.”

Essa dimensão coletiva é um dos principais atrativos do esporte. “Você não faz nada sozinho”, diz Fabrícia. “Se não estiver todo mundo na mesma vibe, a canoa não anda.”

Fabrícia Delgado

Fabrícia Delgado | Foto: José Simões/Ag. A TARDE.

RENASCIMENTO PELA ÁGUA

No centro dessa transformação está Luciana Kroeger, fundadora do clube Imua Vida Leve. Sua trajetória reúne esporte, empreendedorismo e superação pessoal. “Foi amor à primeira remada”, diz ela, ao lembrar do primeiro contato com a canoa havaiana, há mais de dez anos. “No dia que eu sentei na canoa, falei: meu Deus, isso aqui é bom demais.”

Antes disso, Luciana praticava Corrida de Aventura, um esporte extremo que reúne corrida, ciclismo, navegação e técnicas verticais. “É um esporte que castiga muito. Terreno acidentado, muita chance de lesão”, explica. A canoagem entrou na rotina como descanso. “Era meu dia de desopilar o fígado.”

Aos poucos, a canoa deixou de ser complemento e virou protagonista. Luciana aprendeu a conduzir embarcações, passou a liderar passeios e a formar equipes. Mas foi durante a pandemia que a relação com o remo ganhou outro significado.

“Em 2020 eu perdi meu marido”, conta. “Ele faleceu de leucemia, em consequência do covid, porque não pôde fazer o transplante de medula.” Foi nesse período que amigos a puxaram de volta para a água. “Eles me resgataram. Disseram: ‘vamos voltar a remar’.”

O que começou como uma turma de amigos virou, pouco a pouco, um negócio. “Eu não tinha canoa. Alugava de amigos. Fazia passeio aqui com a galera”, lembra. Até que surgiu a oportunidade de comprar a primeira embarcação. “Vendi um carro e comprei a canoa. Ela se chama Bras, em homenagem ao meu marido, Pedro Bras.”

A dedicação trouxe resultados. Em 2024, Luciana integrou a equipe feminina 40+ de V6 — categoria de canoa com seis remadoras — que conquistou a medalha de ouro no Pan-Americano, disputado em Niterói. “A gente concorreu no Pan de 2024 e ganhou ouro”, conta.

Imagem ilustrativa da imagem Canoa havaiana transforma Praia da Preguiça em polo esportivo de Salvador

| Foto: José Simões/Ag. A TARDE.

PRAIA OCUPADA

A escolha do endereço não foi aleatória. “Aqui a gente rema em águas abrigadas, na Baía de Todos-os-Santos”, explica Luciana. “Em Itapuã é mar aberto. No inverno, muitas vezes não dá para remar. Aqui, quase todos os dias do ano a gente consegue manter a parte esportiva.”

Além disso, o Comércio oferece fluxo constante de pessoas. “Aqui passa turista, passa trabalhador, passa morador. É diferente”, diz. “E a Praia da Preguiça já tinha começado esse movimento de ocupação esportiva.”

O crescimento veio aos poucos. “No primeiro ano, uma canoa. No segundo, duas. No terceiro, três”, enumera. Hoje, o clube investe também em canoas individuais, voltadas para atletas e competidores. “Isso ajuda a desenvolver quem quer competir e a filtrar equipes.”

A transformação da Praia da Preguiça se consolidou após a pandemia. “O boom aconteceu ali”, diz Jonayr Braga. “Depois da pandemia, vieram vários clubes. Estourou.” Com eles, chegaram barracas, água doce para banho, estrutura mínima e, principalmente, gente. Muita gente. “Às vezes você chega cedo e não acha vaga”, conta Fabrícia.

Para quem frequenta, a mudança é evidente. “Essa praia era estigmatizada”, diz Luciana. “Hoje é esporte, convivência, saúde, turismo. A canoa puxou isso tudo.”

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| Foto: José Simões/Ag. A TARDE.

OUTROS ESPORTES

Se a canoa havaiana puxou o movimento de ocupação da Praia da Preguiça, outras modalidades ajudaram a consolidar o espaço como território definitivo do esporte. Natação, boxe — inclusive dentro d’água — e treinos funcionais passaram a dividir a faixa de areia e o mar, ampliando o perfil de quem frequenta o local.

“Eu dou aula aqui desde 2020”, conta o professor de natação Walter da Silva Oliveira, 65. “Comecei vindo com minha filha e, depois que me aposentei, resolvi ensinar aqui. No Verão, estou diariamente na Preguiça.” Segundo ele, as condições do mar são ideais para iniciantes. “Aqui tem dois quebra-mares. É uma das melhores áreas de Salvador para aprender a nadar.”

Entre seus alunos está Marlene Oliveira, 74 anos, cuidadora de idosos, que descobriu a natação já adulta. “Eu não sabia nadar nada. Foi aqui que eu me encontrei.” Para ela, o impacto foi além do físico. “Mudou tudo. Hoje eu estou outra pessoa.” Marlene frequenta a praia várias vezes por semana. “Isso aqui virou meu quintal.”

Outro pioneiro na ocupação esportiva da Preguiça é o professor de boxe Carlos Caetano, 54, com 40 anos dedicados à modalidade. “Eu saí da academia e trouxe o boxe para o ar livre”, diz. Há 15 anos, ele criou o hidroboxe — adaptação do boxe dentro d’água. “É um esporte de alto impacto. Na água, você reduz impacto e lesão.”

A proposta, inicialmente vista com estranhamento, ganhou adeptos. “As pessoas chegavam com depressão, com a cabeça cheia, e saíam renovadas”, afirma. “A água transforma.” Segundo Caetano, o treino combina movimentos tradicionais do boxe com resistência da água. “Você não corre, a água te puxa. É cardio, força e respiração.”

Professor de boxe Carlos Caetano, do Boxe na Praia n

Professor de boxe Carlos Caetano, do Boxe na Praia n | Foto: José Simões/Ag. A TARDE.

Para ele, a mudança da praia foi gradual. “No começo diziam que aqui era uma praia ruim. Ninguém acreditava”, lembra. “Hoje tem canoagem, natação, boxe, futevôlei, barracas. Isso aqui virou a praia do esporte.” Aos sábados, ele promove aulas abertas. “Vêm 20, 30, 40 pessoas. A comunidade abraçou.”

A percepção é compartilhada por Potira Barros, praticante de boxe e funcional, que frequenta a Preguiça há nove anos. “O esporte salvou essa praia”, afirma. “Mudou totalmente o público.” Moradora do Dois de Julho, ela conta que enfrentou resistência no início. “As pessoas diziam: ‘Você vai pra Preguiça?’ Hoje, muita gente atravessa a cidade para treinar aqui.”

Até quem chegou recentemente à cidade consegue se integrar rapidamente. Refugiado do Afeganistão, Abdul Samad vive em Salvador há poucos meses e esteve pela primeira vez na Preguiça com os filhos justamente no dia em que a reportagem de A TARDE acompanhava o movimento no local. “Aqui tem muito esporte, muito movimento”, comentou, ao falar de suas primeiras impressões sobre a praia.

Entre remos, braçadas e socos na água, a Praia da Preguiça deixou para trás o estigma do abandono. “Hoje, quem chega tarde não encontra mais espaço vazio”, resume Walter. “Encontra gente”.



Fonte: A Tarde

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