A Igreja Católica busca estar mais presente na vida política do país, sem se envolver diretamente com partidos ou disputar o poder. Nesta entrevista exclusiva ao A TARDE, o arcebispo de Salvador, Dom Sergio da Rocha, explica que esse engajamento se dá por meio do estímulo e da preparação de leigos e leigas para atuar no campo político.
“Não é de hoje que há uma insistência na participação política. O que tem mudado é a maneira de fazer isso”, explicou.
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Durante a conversa, Dom Sergio destacou a importância da Semana Santa para os católicos, lembrou o legado de simplicidade deixado pelo Papa Francisco e comentou os primeiros passos do Papa Leão XIV, que já indicam a direção de seu pontificado. Ele também revelou que o atual papa estava prestes a visitar Salvador quando Francisco faleceu.
“Cheguei a adquirir os bilhetes para ele vir”, contou o arcebispo, acrescentando que espera que a visita ainda aconteça. “O convite já foi feito”.
Dom Sergio destacou ainda a menção feita pelo atual papa a Santa Dulce dos Pobres em sua primeira Exortação Apostólica.
“O papa escreve um parágrafo longo sobre Santa Dulce dos Pobres, e também sobre a obra e o testemunho que ela nos deixou. Isso é importantíssimo, porque valoriza Salvador, a Bahia, o Brasil e a América Latina”, afirmou.
Dom Sergio Rocha após entrevista ao A TARDE | Foto: Denisse Salazar | Ag. A TARDE
Confira a entrevista completa
Dom Sergio, chegamos a mais uma Semana Santa, o período mais importante do calendário cristão. Ainda que seja um tema já familiar aos fiéis, qual é o significado central dessa data e o que se espera dos católicos neste tempo de reflexão?
A Semana Santa é chamada de Semana Maior pela sua importância no calendário litúrgico da Igreja, mas hoje posso dizer também pela sua importância na vida, na cultura e na religiosidade do nosso povo.
É uma semana que de fato envolve mais as pessoas na reflexão, na oração e na vivência dos valores e atitudes cristãs fundamentais. Claro que se espera primeiramente que as pessoas participem das celebrações maiores da Semana Santa.
Temos o Domingo de Ramos, que é a abertura da Semana Santa, celebrando a entrada de Jesus em Jerusalém, recordando essa entrada com ramos, com cânticos.
Depois temos o chamado Tríduo Pascal – quinta-feira santa à noite, com a Missa da Ceia do Senhor do Lava-Pés; sexta-feira à tarde, a Sexta-feira Maior, com a celebração da Paixão e Morte de Cristo na Cruz; e no sábado santo à noite, a chamada Vigília Pascal. Depois, obviamente, o Domingo da Ressurreição, o Domingo da Páscoa.
É uma caminhada para os católicos, de modo especial, mas há muita gente que procura vivenciar esses dias seguindo os passos de Jesus na Paixão, Morte e Ressurreição.
É o centro do ano de celebrações religiosas, o chamado ano litúrgico. É o momento especial, o ápice, o ponto mais alto, que é celebrar a ressurreição de Jesus. De modo geral, as pessoas valorizam muito, por tradições nossas, por uma religiosidade que vem ao longo dos séculos, a Paixão, a Morte de Cristo.
É muito justo e deve-se valorizar esse momento da Paixão, do sofrimento, da Morte de Cristo na Cruz, como sinal do seu amor, da sua entrega por nós. Mas temos ressaltado a importância da Vigília Pascal, que é a mãe de todas as celebrações da Igreja, a mãe de todas as Vigílias.
É uma celebração cheia de simbolismo. É o momento em que coroamos a Semana Santa com a ressurreição de Jesus, porque não se pode parar na morte, no sofrimento. Jesus venceu a morte, o sofrimento, venceu a violência, e por isso temos esse momento tão especial.
O que nós insistimos, sobretudo, nessas últimas décadas, é na participação efetiva dos fiéis católicos nos vários momentos da Semana Santa, e não apenas na Sexta-Feira Santa.
A Semana Santa também marca o fim da Quaresma. O tema proposto pelo Papa Leão XIV para este período foi “Escutar e jejuar: a Quaresma como tempo de conversão”. Podemos interpretar essa mensagem como um convite aos fiéis para reduzir palavras ofensivas e ampliar a escuta do outro? Essa reflexão ganha ainda mais relevância no contexto atual?
Nós precisamos sempre fazer mais silêncio para poder escutar. Fazer silêncio na oração para escutar a Deus, fazer silêncio com as pessoas para poder escutá-las. O papa ressalta justamente essa dimensão do silêncio ser uma forma de jejum de palavras ofensivas, de atitudes de intolerância.
Nós precisamos de fato cultivar sempre o respeito, a convivência fraterna, a escuta fraterna, a escuta do outro, e não esse confronto que destrói, que fere, que mata. Nós precisamos nesta Páscoa, de um modo especial, mas isso foi ao longo de toda a quaresma, cultivar essa atitude de jejum de palavras ofensivas.
Às vezes é mais fácil alguém jejuar em relação a um alimento, especialmente da carne, do que esse jejum que o papa está convidando a fazer, o jejum nas palavras. É o cuidado com palavras que ferem, com palavras que destroem, com palavras que chegam a matar.
Num mundo marcado por tantas divisões, por tantos conflitos, por tanta violência e guerra, nós precisamos ser pessoas de paz. E, para isso, ter essa atitude espiritual de jejum, como sinal de conversão.
Conversão é voltar-se para Deus, voltar-se para o próximo numa vida nova, deixando para trás aquilo que não condiz com a vontade de Deus. Aquilo que de fato não condiz com a vida humana, com a pessoa humana.
Essa dimensão da conversão que o papa está propondo é muito atual e urgente. Aprender a jejuar, não só a capacidade de renunciar a um alimento ou outro, mas muito mais de renunciar àquilo que fere, que viola, que destrói.
O início da Quaresma marcou o lançamento da Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia”. Trata-se de uma questão que preocupa muito a Igreja? Como tem sido o andamento da campanha?
A escolha dos temas da Campanha da Fraternidade não é uma escolha que dependa somente daqueles que a promovem, particularmente a Conferência Nacional dos Bispo Brasil, em nome da Igreja Católica no país.
A escolha do tema da campanha brota de uma escuta das necessidades do próprio povo. Pode-se inclusive fazer sugestões das mais diversas. Os movimentos sociais fazem propostas, sugestões de temas, de problemas sociais graves em que há necessidade de vivência da fraternidade.
E está se propondo neste ano que o mundo fraterno que nós queremos construir, iluminados pela fé, inspirados pela fé, que esse mundo dê atenção a questão da moradia. Para que as instituições, os governos, possam dar maior atenção também.
Falo da moradia vista como um direito, não como uma mercadoria. E um direito que não é só de alguns, mas de todos. E à moradia digna, porque tem muitas situações precárias de moradia.
Portanto, o que se propõe nesta Campanha da Fraternidade é enfatizar o direito à moradia digna. É claro que algumas situações merecem especial atenção. A urbanização de áreas mais periféricas, mais sofridas. O acesso à moradia através de programas habitacionais.
E aquela situação que nós, infelizmente, conhecemos muito, que é da população em situação de rua. Nem sempre há uma compreensão justa em relação a esse problema. As pessoas, muitas vezes, condenam sem saber o drama vivido por quem necessita de moradia digna.
Alguns há muito tempo, outros em situação de rua mais recentes. Mas é um fenômeno que está presente nesse cenário de moradia no Brasil. Não podemos achar que esses problemas sociais são normais e vão permanecer para sempre no horizonte ou no cenário urbano. É preciso tomar iniciativas.
E, é claro, a Campanha da Fraternidade não depende estreitamente ou unicamente daquilo que se faz dentro das comunidades eclesiais. A campanha é cada vez mais patrimônio do povo ou do país, porque vai muito além da Igreja Católica.
A Igreja Católica, desde as suas origens, promove e apoia essas campanhas. Mas nós temos, a cada ano, a participação de outras instituições religiosas. Temos também, a cada ano, a participação maior de outras instituições da sociedade civil, órgãos públicos. É preciso sempre um grande mutirão para enfrentar os temas propostos pela Campanha da Fraternidade.
Dom Sergio Rocha durante entrevista | Foto: Denisse Salazar | Ag. A TARDE
O pontificado de Francisco deixou um conjunto de reflexões e encaminhamentos para questões contemporâneas da Igreja. Na sua avaliação, quais são os principais legados deixados e quais os desafios que permanecem hoje?
O Papa Francisco, de saudosa memória, nos ensinou muito. Nos ensinou através dos seus escritos – temos textos belíssimos de profundidade teológica e espiritual. Mas o Papa Francisco também nos ensinou muito através das suas atitudes pessoais, de gestos concretos.
Ele nos ajuda a pensar que nós não devemos contribuir apenas através da fala, mas também do testemunho concreto. É claro que é muito importante a reflexão, o anúncio da palavra de Deus.
Mas é preciso gestos concretos que possam traduzir o ensinamento. É muito difícil resumir em poucas palavras a riqueza tão grande daquilo que Papa Francisco ensinou e testemunhou. O exemplo dele comoveu o mundo inteiro e suscita reflexão.
Hoje, queria aqui ressaltar, primeiramente, a simplicidade do Papa Francisco, simplicidade em que ele pediu a Igreja. Uma Igreja que vivesse da simplicidade, da pobreza.
A atitude fraterna, misericordiosa, cheia de compaixão com quem mais sofre, sejam os mais pobres, sejam os enfermos, sejam outras pessoas que sofrem com tantos problemas sociais.
O papa sempre demonstrou um amor muito grande pelos pobres, pelos que sofrem, sem jamais excluir ninguém deste amor ou desta atenção pastoral.
Depois, o Papa Francisco insistia muito no diálogo, no respeito e na fraternidade como caminho de paz. O caminho de paz não se faz pelas armas, se faz pela vivência de valores do Evangelho que são fundamentais no mundo de hoje para superar tantas situações de violência e de intolerância. Valores como o respeito ao outro, a escuta do outro. A valorização de quem pensa diferente ou é diferente.
Nós temos outros aspectos que o papa ressaltou em muitas ocasiões, além dos que já me referi. Por exemplo, a questão da justiça social, mas também da preocupação ecológica. Ele escreveu um dos textos mais importantes do magistério da Igreja, do ensinamento da Igreja, não só deste século, dos últimos séculos, que se chama Laudato Si’, sobre o cuidado com a Casa Comum.
O Papa dialogava ali com os estudos que são feitos sobre questões socioambientais, sobre questões climáticas. Então, Francisco tem muito a nos ensinar, porque aqueles temas, atitudes que ele procurou vivenciar e ensinar, continuam atuais. Não é porque o Papa agora é outro que nós vamos deixar de nos preocupar com eles. Pelo contrário, o atual Papa leva muito em conta aquilo que Francisco já ensinava.
Passados mais de dez meses do novo pontificado, o mundo ainda está conhecendo o estilo do Papa Leão XIV, que é mais discreto e menos carismático que o Papa Francisco. Que marcas iniciais o senhor destacaria desse começo e o que elas indicam sobre os rumos da Igreja?
Antes de mais nada, quero recordar que o então cardeal (Robert Francis) Prevost, que é o nome do atual papa, quis conhecer a Bahia, quis conhecer Salvador. Cheguei a adquirir os bilhetes para ele vir. Foi quando faleceu o Papa Francisco. Senão, nós teríamos conhecido ele mais de perto e ele teria nos conhecido.
Espero que ele ainda possa vir. Já foi feito o convite a ele para que possa vir aqui a Salvador, vir conhecer a Bahia, como ele já queria como cardeal. Ele já tinha vindo ao Brasil várias vezes, mas não tinha vindo a Salvador.
E como eu já trabalhava na época e continuo a trabalhar lá em Roma, na Cúria romana, eu vou e volto, obviamente, e contribuo também através daquilo que eu posso manifestar à distância por escrito. Mas lá no chamado Dicastério para os Bispos, que é quem cuida da nomeação de bispos, eu já trabalhava com ele. Então eu conheci um pouco mais, tive esse privilégio, essa graça.
E o papa é admirável. Tem atitudes que norteiam o seu pontificado, que já estavam presentes no pontificado do Papa Francisco. Mas é claro que cada papa tem seu jeito próprio de ser.
O Papa Francisco tinha o seu jeito mais espontâneo, se manifestando no meio das pessoas. O papa atual cultiva, assim como o Papa Francisco, primeiramente a simplicidade do seu jeito. No dia a dia, ele é um homem simples, aberto ao diálogo, capaz de uma escuta imensa. Francisco ensinava e muito a respeito da escuta necessária dentro da Igreja, na sociedade.
Papa Leão XIV é um exemplo de escuta, está sempre disponível. Quem já se aproximou dele, sabe que ele não tem pressa. É uma coisa que eu tento aprender com ele, porque estou sempre com muitos compromissos, e ele tem muito mais do que eu.
Mas é alguém capaz de gastar tempo com as pessoas, numa audiência, escutar e atender todo mundo. Não importa a sua tendência religiosa ou natureza, o papa está sempre disposto a atender a todos.
Mas eu diria que a marca principal está presente já na sua saudação inicial, quando ele foi apresentado como papa na Praça de São Pedro. A saudação de Leão XIV foi justamente essa: ‘Que a paz esteja convosco’. É alguém que, com a sua primeira palavra, transmite paz, transmite um desejo de paz. E assim como ensinava Francisco, uma paz que é fruto do amor, do diálogo, da justiça, paz que é dom de Deus e tarefa.
A paz é dom e tarefa. De uma parte, é dom que nós pedimos a Deus, mas tarefa que Deus nos entrega.
Diante desse cenário global marcado por guerras, divisões internas e grandes desafios pastorais, quais são hoje as principais responsabilidades que recaem sobre o novo papa?
O papa está vivendo o seu pontificado num tempo muito difícil para a humanidade. Nós bem sabemos dos conflitos armados, das guerras, aquelas que são mais conhecidas e outros conflitos que não são. E o Papa Leão XIV, de maneira muito discreta, mas muito firme e atuante, tem procurado contribuir para que a paz seja estabelecida nesses países em conflito. E ele sempre tem insistido nas condições para a paz, que são as mesmas que Papa Francisco procurava demonstrar.
Lembremos ainda que Papa Francisco foi quem escolheu o então cardeal Prevost para ser o chamado prefeito do Dicastério para os Bispos. E foi ele que fez do cardeal Prevost bispo e cardeal. Há uma sintonia imensa na história de ambos e uma confiança imensa que o Papa Francisco depositava nele.
Eu posso testemunhar isso pessoalmente. É um papa que tem seu jeito às vezes aparentemente mais tímido, mais contido, mas alguém sempre muito atento, muito aberto para acolher as pessoas.
Atento para escutar, como eu disse há pouco, e um homem de paz. Eu diria que ele já está ficando conhecido como alguém que vem para restabelecer a paz, sabendo que é dom de Deus, como dizia há pouco, mas é também uma tarefa a ser compartilhada.
Papa Leão XIV publicou sua primeira Exortação Apostólica, na qual reafirmou a “opção preferencial pelos pobres” como eixo da missão da Igreja, em continuidade ao pontificado anterior. Como esse princípio se traduz, na prática, na atuação da Igreja?
Nesta primeira manifestação, nesse escrito tão especial, que se chama de Exortação Apostólica, portanto tem uma importância toda especial, o papa escreve sobre o amor aos pobres. É um texto que, como sabemos, já tinha sido iniciado pelo Papa Francisco, e não deu tempo para ele concluir.
Mas o Papa Leão XIV não só acolheu aquilo que o Papa Francisco estava escrevendo, mas completou. E, é claro, com a sua marca, o seu modo de apresentar.
Nesse texto nós temos uma referência que é de especial importância para Salvador, para Bahia, para o Brasil, que é uma referência belíssima à Santa Dulce dos Pobres.
O papa escreve um parágrafo longo falando de Santa Dulce dos Pobres, e também da obra que ela nos deixou, do seu testemunho. Isso é importantíssimo, porque é uma forma de valorizar Salvador, a Bahia, o Brasil e a América Latina.
Ele que, embora de origem americana, era um bispo latino-americano, porque atuava no Peru. Então, nós temos que agradecer muito ao Papa Leão XIV. Eu já fiz isso pessoalmente.
O próprio santuário de Santa Dulce dos Pobres tem agradecido muito esse jeito generoso dele de valorizar a vida e o testemunho dela. É claro que ele nos propõe hoje viver isso. Viver esse amor aos pobres, não só pessoalmente. Às vezes as pessoas restringem. A caridade é o amor para com o próximo sofredor. Ou seja, os pobres são pessoas que sofrem de outros dramas, outros problemas na sua vida, na sua família.
Mas às vezes as pessoas restringem somente a caridade na linha pessoal. Isto é aquilo que cada um pode fazer. É claro que é importante, a própria Campanha da Fraternidade sempre pressupõe um nível de vivência pessoal.
O que cada um de nós pode fazer de maneira espontânea pelos pobres é muito importante. Ou pelos que sofrem, os enfermos, as pessoas em situações graves, as vítimas da violência, enfim. O que cada um pode fazer espontaneamente, como irmão, amigo, como alguém que se sensibiliza por uma situação dramática.
Mas o que Francisco já afirmava, e o Papa Leão XIV reafirma com ênfase, é a necessidade de iniciativas comunitárias. Isto é de ações que envolvam não só uma pessoa, mas que possam envolver o conjunto da comunidade. E o diálogo com a sociedade.
Na própria mensagem que o papa fez sobre a campanha da fraternidade, ele falava da importância da atuação decisiva dos órgãos públicos, dos governos. Portanto, do diálogo que tem que existir nessas instâncias para ter ações que favoreçam a superação dos problemas e assegurar os direitos dos mais pobres.
Aqui se trata, sobretudo, do que nós no Brasil chamamos de políticas públicas. Portanto, não basta aquilo que cada um faz pelos que sofrem, pelos pobres. É preciso desenvolver ações comunitárias.
E, é claro, precisamos sempre dessas parcerias na sociedade civil organizada, mas também, naturalmente, dos governos, uma vez que os problemas que os pobres ou que outras pessoas sofrem, como a violência, é algo que exige muito mais do que aquilo que cada um pode fazer.
Embora o que cada um pode fazer é fundamental. Semana Santa é para isso: uma semana não só para rezar mais ou refletir mais, mas para viver melhor a fraternidade.
Dom Sergio, mesmo diante do avanço das igrejas evangélicas, a Igreja Católica mantém uma presença ampla e capilarizada no Brasil, com milhares de paróquias. Como a Igreja tem buscado se reposicionar para enfrentar esses desafios e manter sua relevância na sociedade brasileira?
A sociedade mudou e muito. Nós estamos vivendo cada vez mais uma sociedade plural, no sentido cultural e religioso. Mas a Igreja continua a ter seu papel, que é histórico, sua responsabilidade. Em outras épocas a Igreja tinha uma atuação ainda maior, se poderia falar até de hegemonia.
Mas hoje nós temos ainda, e graças a Deus, uma atuação imensa na sociedade e em todo o país. Nós procuramos traduzir aquele ‘ser sal da terra e luz do mundo’ através de trabalhos que nós chamamos de pastorais sociais, mas também outras iniciativas que as comunidades têm.
Isso é muito importante porque não é uma relevância na linha de assumir o poder político. A Igreja já teve no passado essa atitude. Isto é, teve um período em que se participava da vida política do país, ou também outros países, de uma maneira mais direta.
Participando diretamente do poder político, ainda que fosse com as melhores intenções, como deve ser, ou pelo bem do povo, como deve ser. Mas historicamente a Igreja foi refletindo e chegamos a esta compreensão de que a participação da Igreja se dá através do chamado laicato, dos leigos e leigas. Dos que se dispõem a assumir, a atuar na política.
E não ela diretamente assumindo como instituição o poder político, nem interferindo indevidamente. A Igreja incentiva nos seus ensinamentos a participação política dos cristãos e, claro, dos fiéis católicos, inclusive por via partidária.
O fato da Igreja não adotar posição institucional político partidária não significa que ela não estimule, não valorize a participação política. Ao contrário, nós temos insistido na necessidade de ter leigos e leigas preparados para atuar no campo da política e fazemos isso iluminados pela doutrina social da Igreja, por valores do Evangelho.
Então não é de hoje que há uma insistência na participação política. O que tem mudado é a maneira de fazer isso.
Veja que o papa atual assumiu o nome de Leão XIV e ele mesmo explicou, em grande parte, que foi por causa de Leão XIII. E Leão XIII foi quem escreveu o primeiro grande documento a chamar a doutrina social da Igreja, o ‘Rerum Novarum’ em latim.
Isso no final do século XIX, e ele estimula a participação na sociedade. Porque nós cuidamos como instituição, acima de tudo, da vida espiritual, da vida religiosa. Mas isso não exclui as dimensões política, econômica, cultural.
Nós precisamos atuar nesse campo. Só que, ao invés de uma atuação em que a Igreja assume o papel político partidário ou assume o poder político, ela estimula para que isso aconteça através dos leigos e leigas.
Agora, eu sinto que nós precisamos avançar nisso. Porque por mais que nós procuremos valorizar, enfatizar a importância dessa participação política, não temos conseguido ainda como deveria.
Precisamos ainda mais, sem excluir, como eu dizia há pouco, as diversas formas de participação política, mas também sem excluir a via partidária de participação política. Isso não significa que a Igreja, enquanto instituição, ou às suas comunidades, vão ter uma posição política partidária. Nós respeitamos a diversidade que existe nesse âmbito, mas insistimos na vivência de princípios, de valores inspirados no Evangelho.
Arquidiocese de São Salvador da Bahia iniciou em fevereiro o Jubileu Arquidiocesano celebrando 475 anos de criação da diocese e 350 anos de elevação à condição de Arquidiocese Primacial do Brasil. Qual é o significado espiritual e histórico desse momento para a Igreja na Bahia e no país?
Este Ano Jubilar Arquidiocesano, a celebração dos 475 anos de Diocese e 350 de Arquidiocese, têm um significado muito especial, não só para a Igreja, mesmo porque a história da Igreja no Brasil está entrelaçada com a história do próprio país. Nós somos herdeiros de uma história muito bonita.
Claro que temos, na história, suas ambiguidades. Mas a presença da Igreja ao longo da história é importantíssima no Brasil. Contribuiu e muito, e continua a contribuir para a cultura, para a religiosidade, para a fé, mas também para a vida das nossas famílias. Para a construção da paz, enfim.
Nós temos uma importância muito grande em ambos, seja no evento da criação da Diocese, seja no da criação da Arquidiocese. Essa importância deveria ser reconhecida ainda mais para além dos muros da Igreja. Porque são momentos especiais, e diria até na Independência do Brasil, da autonomia do país.
Uma vez que dependíamos inteiramente de Portugal também nas questões religiosas. Ora, quando demos passos como esse, ainda que à época ainda fosse regime de padroado, passamos a ter uma liberdade maior, sobretudo quando a Diocese de São Salvador da Bahia foi elevada à condição de Arquidiocese, há 350 anos. Porque ela se tornou sede de uma província eclesiástica.
É desligada de alguma forma da dependência que havia com a Igreja de Portugal, particularmente de Lisboa. E tivemos um caminho a percorrer, tanto que na mesma época foram criadas as dioceses chamadas sufragâneas. Para criar uma Província eclesiástica, além da sede em Salvador, foram criadas as dioceses em Olinda, Recife e no Rio de Janeiro.
Isso tudo mostra que esse momento é especial para Igreja Católica, mas também para o país. Por isso que estamos procurando neste ano desenvolver também iniciativas para o conhecimento e reflexão histórica.
Nós devemos por primeiro valorizar nossa história, nossa cultura. Quando digo nós, estou dizendo nós aqui da Bahia, aqui de Salvador. No Brasil se reconhece sempre a importância cultural, histórica, artística, religiosa da Bahia e de Salvador. Isso é muito importante. Mas nós devemos fazer isso primeiro.
Nós, baianos, é quem devemos em primeiro lugar valorizar essa herança cultural, religiosa, histórica, artística riquíssima que nós recebemos e que devemos transmitir para as gerações que vem. É o momento de fazer memória da história, mas também de olhar para o amanhã com esperança e para o dia de hoje com responsabilidade.
Raio-X
Sérgio da Rocha nasceu em Dobrada, interior de São Paulo, em 21 de outubro de 1959, e foi ordenado padre em 1984.
É mestre em Teologia Moral pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, e doutor pela Academia Alfonsiana da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma.
Em 2007, foi nomeado arcebispo coadjutor de Teresina pelo papa Bento XVI e, em 2008, assumiu a arquidiocese como Arcebispo Metropolitano.
Em 2011, tornou-se Arcebispo Metropolitano de Brasília. Durante o pontificado de Francisco, em 2016, foi elevado ao cardinalato. Em março de 2020, foi nomeado Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. No início de 2023, tornou-se o primeiro brasileiro indicado para o Conselho de Cardeais.