Entre o fascínio pela inovação e o apego à segurança do julgamento humano, o baiano escolhe a cautela. A pesquisa AtlasIntel/ A TARDErevelou que 50,9% da população da Bahia prefere especialistas humanos para decisões críticas em áreas como medicina e finanças, enquanto 44,2% aceitam o suporte da Inteligência Artificial (IA) apenas de forma complementar.
O dado reflete um cenário de “confiança seletiva”, embora a tecnologia seja vista como uma aliada promissora, o medo do viés algorítmico e a busca por responsabilidade ética mantêm o fator humano como o pilar central das escolhas de vida no estado.
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Humano vs. Algoritmo
A divisão quase simétrica nas respostas revela que a Bahia está em um estágio de “transição cautelosa”. Não há uma rejeição total, mas uma exigência de curadoria:
- A barreira do especialista (50,9%): Mais da metade da população do estado estabelece uma “linha vermelha” em temas que envolvem o patrimônio financeiro e a integridade física. Aqui, a empatia, a ética e a responsabilidade civil (o CPF por trás da decisão) são insubstituíveis.
- A abertura tecnológica (44,2%): Uma fatia robusta já enxerga a IA como um copiloto. Esse grupo não descarta a máquina, mas a valida como uma ferramenta de suporte que agiliza processos antes da decisão final.
Essa divisão pode ser analisada através de quatro fatores principais extraídos das fontes:
A reportagem questionou ao psicoterapeuta, professor universitário, mestre em História, doutorando em mitologia, consultor de empresas e palestrante, Luiz Hosannah Pinto, se a resistência de 50,9% das pessoas em preferir humanos à IA em decisões médicas ou financeiras seria apenas uma questão geracional, que mudaria com o tempo, ou um traço intrínseco da natureza humana. Hosannah afirma categoricamente que se trata de um traço intrínseco da condição humana.
Áreas como medicina e finanças mexem com sentimentos profundos e vulnerabilidades, como o medo da morte, o risco de falência e o sofrimento
Para o psicólogo, a tecnologia é vista apenas como um complemento, pois não possui a capacidade de oferecer o que o ser humano busca em momentos de crise.
“A impessoalidade da máquina não substitui a necessidade de um direcionamento focado no humano, algo que a evolução tecnológica dificilmente vai mudar por completo”, emendou.
Em análise sobre como as ferramentas digitais afetam o processo de tomada de decisão, o psicólogo destaca que a tecnologia não é inerentemente estressante ou libertadora; o resultado depende da intenção do uso.
Ainda de acordo com o psicólogo, a dependência excessiva da tecnologia em áreas sensíveis como saúde, finanças e relacionamentos pode levar a quadros psicopatológicos. Ele argumenta que a evolução do indivíduo exige o contato com o “outro”, um ser dotado de alma, vida e contradições.
Para ser sujeito tem que ter o outro, e esse outro tem que ter alma, tem que ter vida, tem que ter contradições humanas e não uma imperfeição
Até onde vai a IA?
Os dados pesquisa revelam ainda que a Inteligência Artificial na Bahia vive um estado de “testes” por parte da população. A barreira da confiança total ainda é altíssima:
- Os entusiastas (11,6%): Apenas uma pequena parcela da população confia “totalmente” nos resultados gerados por algoritmos. Este grupo geralmente é composto por usuários de tecnologia (Early Adopters) e jovens da Geração Z.
- Cautelosos (54,8%): A maioria absoluta dos baianos “confia um pouco“. Isso significa que a IA é vista como uma ferramenta de consulta, e não como uma fonte de verdade absoluta.
- Veredito do Público: Para 2026, a IA na Bahia é uma assistente, nunca a voz final. Em temas sensíveis como saúde e patrimônio, a “voz final” precisa ter um rosto e um registro profissional (CRM, CORECON, etc.).
Decisões tendenciosas
Um motivo central para a resistência em delegar decisões importantes à IA é o medo do viés algorítmico. De acordo com os dados, 50% dos entrevistados estão “extremamente preocupados” com a tomada de decisões tendenciosas ou injustas, como em concessões de crédito.
Essa preocupação impacta diretamente a área financeira, onde a imparcialidade é fundamental para o usuário.
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A análise demográfica mostra que a rejeição à IA para decisões importantes não é uniforme, enquanto apenas 24,5% dos jovens (16-24 anos) preferem exclusivamente humanos, esse número sobe para 74,6% na faixa de 45 a 59 anos.
Escolaridade
Entre quem possui apenas o ensino fundamental, 63,2% preferem humanos, comparado a 52,2% entre os que possuem ensino superior. Isso sugere que a familiaridade e o entendimento técnico — que são maiores entre os mais jovens e mais escolarizados — reduzem a resistência ao uso da tecnologia
Reconhecimento de benefícios x medo da autonomia
O fato de 44,2% aceitarem o auxílio “em alguns casos” reflete a percepção de utilidade da IA em áreas específicas, uma vez que 31% dos baianos acreditam que a saúde e medicina são áreas que mais podem se beneficiar da IA
No entanto, essa percepção de benefício convive com o medo da violação de privacidade pessoal, 51% de extrema preocupação.
Em resumo, os baianos parecem enxergar a IA como uma ferramenta de suporte valiosa, mas o fator humano ainda é visto como o único capaz de oferecer o julgamento ético, a responsabilidade e a segurança necessários para decisões que podem mudar o curso de uma vida.
O que os números da pesquisa desenham não é uma rejeição à modernidade, mas uma insistência na humanização do erro e do acerto. Enquanto a Inteligência Artificial é celebrada pela agilidade e capacidade de processamento, especialmente em áreas complexas como o diagnóstico médico e a análise de dados financeiros, ela esbarra em um limite estritamente humano, que é a responsabilidade ética.
Para o baiano, a máquina pode até sugerir o caminho, mas o julgamento final ainda exige um rosto, um nome e, sobretudo, a capacidade de empatia e discernimento que nenhum código, por mais sofisticado que seja, conseguiu mimetizar.
No equilíbrio entre o algoritmo e o coração, a Bahia sinaliza que a IA é uma ferramenta de suporte valiosa, mas que o curso de uma vida ainda deve ser decidido por quem compreende as nuances do que é ser humano.
AtlasIntel
A pesquisa da AtlasIntel, realizada em parceria com o Grupo A TARDE, examina as percepções e os impactos da Inteligência Artificial na Bahia. O estudo utilizou a metodologia de Recrutamento Digital Aleatório (RDR) para coletar dados anonimizados de diversos perfis demográficos e regionais.
No geral, as fontes oferecem um diagnóstico estatístico sobre como os baianos encaram as oportunidades e riscos dessa inovação.
A pesquisa ouviu 1.718 pessoas, via recrutamento digital aleatório (Atlas RDR), entre 20 e 25 de março de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais (2±2 p.p.), e o nível de confiança é de 95%.
Fonte: A Tarde



