domingo, abril 5, 2026
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Ana Lúcia Torre abre intimidade em espetáculo inédito na capital baiana

“Imagine o artista num anfiteatro onde o tempo é a grande estrela”. Assim começa Tempo e artista, de Chico Buarque, e a ideia ajuda a situar Olhos nos Olhos, espetáculo com temporada em Salvador no próximo final de semana.

Em cena, Ana Lúcia Torre revisita a própria trajetória a partir das letras do compositor, retomando um encontro que remonta ao início da carreira de ambos, na década de 1960, quando participaram da montagem de Morte e Vida Severina (1966).

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Seis décadas depois, essa interseção reaparece em cena. Olhos nos Olhos chega à capital baiana para celebrar os 80 anos de vida e 60 de carreira da atriz, com apresentações de 9 a 12 de abril, no Teatro Casa do Comércio.

Dirigido e escrito por Sérgio Módena, o espetáculo parte de um impulso comemorativo para construir uma experiência íntima, em que memórias pessoais se entrelaçam às letras de Chico. Aqui, as canções não são cantadas, mas ditas, deslocadas para o campo da palavra e abrindo novas possibilidades de escuta.

Memória em cena

O espetáculo nasceu do desejo de celebrar datas simbólicas, mas tomou forma como um exercício de exposição pessoal. “Resolvemos pela primeira vez na vida falar sobre a minha vida. Eu sou uma pessoa que não tem rede social, nunca expus filho, marido, neto, eu, nada. E aí eu pensei bem e falei assim, por que não? Eu acho que está na hora de falar um pouco, né?”, comenta Ana Lúcia.

O processo de criação, conduzido em encontros frequentes entre atriz e diretor, resultou em uma dramaturgia que equilibra lembrança e construção. No palco, Torre assume o risco de falar de si a partir de um território que domina: o teatro.

“Bom, sim, é um espetáculo autobiográfico. Memória pessoal. E, como a gente costuma dizer, eu sou uma pessoa que sou cria do teatro. A minha formação é toda teatral. E eu não teria lugar melhor para falar da minha vida que não fosse o palco, porque ali a gente constrói tudo. O palco, eu digo, é um lugar onde tudo que se diz é de verdade”, explica a atriz.

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A palavra de Chico

| Foto: Divulgação

Se a memória conduz a narrativa, a obra de Chico Buarque estabelece o diálogo com o público, e junto dela, a passagem do tempo.

Retomando Tempo e artista, a canção sugere que a obra é moldada pelo tempo e que a permanência do artista se dá por meio do que ele produz. No espetáculo, essa ideia aparece na aproximação entre Ana Lúcia Torre e Chico Buarque.

Contemporâneos, eles iniciaram suas trajetórias no mesmo período e atravessaram contextos históricos semelhantes. O primeiro trabalho da atriz, ainda como amadora, foi ao lado do compositor.

“Eram pessoas de várias faculdades da PUC que formaram um grupo, o Tuca (Teatro da Universidade Católica). Chico fez parte. Chico nessa época, com 21 anos, já começava a compor, e ele compôs em cima dos poemas. Do poema Morte e Vida Severina, do João Cabral de Melo Neto”, relembra.

Em Olhos nos Olhos, essa relação se traduz na forma como as letras acompanham os relatos da atriz, conectando experiências individuais a temas mais amplos.

“O que o público encontra é o seguinte: a história de uma mulher que atravessa a história do país nesses 80 anos, e essa história é a história que o Chico nos conta sobre o nosso país e sobre o nosso povo. Então, a cada trecho que eu conto da minha história, sempre tem uma, duas, três, ou sei lá quantas canções do Chico que falam exatamente sobre aquilo. Eu acho o Chico o grande historiador da nossa época, mas mais do que isso, o Chico é a alma do nosso povo”, elucida Ana Lucia.

Encontro com o público

A escolha do repertório, entre dezenas de possibilidades, foi um dos desafios centrais do processo, buscando alinhar momentos da vida da atriz a temas recorrentes na obra do compositor, como amor, política e cotidiano.

Mais do que um solo biográfico, Olhos nos Olhos se constrói como uma conversa direta.

Sob direção musical de Pedro Lobo, em cena, acompanhada pelo pianista Diógenes Junior, Torre conduz esse encontro com delicadeza e humor, transformando lembranças individuais em experiência compartilhada.

“Eu só quero apresentar ao público a mim mesma. Eu me apresento ao público do jeito que eu sou e do jeito que o público não conhece”, sintetiza Torre.

Em circulação

A passagem por Salvador integra a programação do Catálogo Brasileiro de Teatro, iniciativa que há décadas promove a circulação de produções do eixo Rio-São Paulo pelo país. Nesse contexto, o espetáculo amplia seu alcance, ao mesmo tempo em que preserva sua essência: a do encontro direto.

Ao fim, é essa dimensão que sustenta a permanência da atriz em cena: “O que me move em cena hoje é poder tocar o coração ou a cabeça do público”, conclui.

OLHOS NOS OLHOS / Dias 10, 11 e 12 de abril / Horários: Sexta-feira 20h, Sábado 19h, Domingo 17h / Teatro Casa do Comércio / Ingressos entre R$ 60 e R$ 140 / Vendas: Sympla e na bilheteria do teatro / Classificação etária: 10 anos

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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