Fotógrafo lança obra sobre mulheres que quebram pedra no interior da Bahia –
No mês da mulher, o fotógrafo e jornalista Alexandre Augusto lança o livro Mulheres de Pedra e Seu Universo (Editora Noir, 138 pgs., R$ 119,90), que revela a dura realidade das pedreiras da Chapada Diamantina. A obra retrata mulheres que realizam uma atividade marcada por extremo esforço físico, baixa remuneração e invisibilidade social, com jornadas que começam ao amanhecer e se estendem até o fim do dia. Para ver as fotografias de perto e adquirir o livro, o lançamento acontece hoje, às 19h, na Galeria Paulo Darzé.
Nas 58 fotografias que compõem a obra, o artista revela o cotidiano de mulheres que, sob sol intenso e em condições precárias, quebram rochas brutas com o corpo coberto de pó para transformá-las em paralelepípedos. Pelo trabalho, recebem apenas R$ 0,15 por unidade produzida.
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“Na Chapada, essas mulheres trabalham na pedreira sob o sol forte, cuidam da casa, dos filhos e, quando a noite chega, ainda há comida pronta na mesa. Foi isso que encontrei. Minhas fotos tentam guardar essa força silenciosa, que resiste sem aplauso, sem discurso e sem proteção”, afirma Alexandre Augusto.
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Primeiros registros
Em 2016, Alexandre Augusto descobriu as chamadas “mulheres de pedra” na Chapada Diamantina, nas cidades de Itatim, próxima a Milagres, e Itaetê. “Descobri essa atividade secular que, em pleno século XXI, ainda subsistia: mulheres que ganham a vida trabalhando em pedreiras e esculpindo, com suas famílias, paralelepípedos”, relembra.
Na ocasião, o fotógrafo lançou o livro Stone Women. À época morando na Inglaterra, ele publicou a obra em inglês e português.
“Antes do livro, teve a exposição Mulheres de Pedra, em Salvador e em São Paulo, e na sequência eu acabei escrevendo o livro”, detalha Alexandre.
Em 2025, o jornalista e editor baiano Gonçalo Júnior, da Editora Noir, responsável pela nova publicação, convidou Alexandre a retornar à região para reencontrar as famílias e observar como estavam vivendo quase uma década depois.
A ideia era produzir uma nova obra, com mais fotografias e um olhar atualizado sobre aquela realidade.
Segundo o fotógrafo, um dos objetivos também era lançar o trabalho em um formato menor, e, consequentemente, mais acessível, para ampliar o alcance do livro.
“Ele disse que, na época, muita gente teve interesse no livro original, mas por ser uma edição grande, em formato de luxo, acabou ficando muito caro. Muitas entidades ligadas a mulheres e a trabalhadoras rurais tinham interesse em adquirir o livro, mas não conseguiam por isso”, conta.
Alexandre aceitou a proposta e, no final do ano passado, pegou a estrada para revisitar as pedreiras que havia fotografado dez anos antes.
O retorno

Para a nova edição, o fotógrafo e jornalista Alexandre Augusto voltou a percorrer cidades da Chapada Diamantina, como Itatim e Milagres.
Durante a viagem, hospedou-se em um hotel improvisado em um posto de gasolina e seguiu pela BR-116, estrada que margeia dezenas de pedreiras e que acaba se tornando quase um personagem à parte na narrativa.
Nesse percurso, registrou também elementos do cotidiano local: barracas de farinha, panelas de barro, conservas de pimenta e os tradicionais “chapéus de bruxa”.
Montadas ao lado das casas das famílias que vivem da pedra, essas barracas ajudam a complementar a renda e atraem caminhoneiros e turistas que passam pela rodovia.
“Foi com uma felicidade muito grande que encontrei as famílias mais prósperas, com casas decentes, que continuam trabalhando com muito orgulho nessa atividade. É um trabalho pesado, brutal, mas do qual elas se orgulham: quebrar pedra”, conta.
Segundo ele, a nova obra amplia o olhar apresentado na primeira publicação. “Dessa vez, o livro virou Mulheres de Pedra e seu Universo. Além das personagens principais, que são as trabalhadoras das pedreiras, procurei mostrar também a família, os pais, os filhos, todo o entorno, os lugares, a estrada, a vida na BR e o comércio que se desenvolve ao longo dela”, explica.
Resultado

De acordo com o editor Gonçalo Júnior, da Editora Noir, a nova edição de Mulheres de Pedra dialoga com obras marcantes do jornalismo do século XX. Uma delas é Hiroshima, de John Hersey, considerada uma das maiores reportagens do século passado.
No livro, o autor acompanha seis sobreviventes da bomba atômica lançada sobre a cidade japonesa em 1945, retornando duas décadas depois para revelar os rumos de suas vidas.
Outra referência é o clássico documentário brasileiro Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, que retrata a trajetória de João Pedro Teixeira, assassinado em 1962, na Paraíba.
O filme começou a ser produzido em 1964, mas só foi concluído duas décadas depois, durante a redemocratização do país. Anos mais tarde, Coutinho ainda retornaria ao local para reencontrar a viúva do protagonista.
Para o editor, Alexandre Augusto segue uma linha semelhante, ao revisitar personagens fotografados dez anos antes. “Algo nessa direção acontece aqui, no momento em que o livro completa uma década: a curiosidade sobre como estão os personagens que ele conheceu, entrevistou e fotografou – não necessariamente nessa ordem”, afirma.
“O resultado não deixa dúvidas de quanto essa experiência foi enriquecedora para ele – e também para quem vai conferir as novidades incluídas neste volume revisto”, conclui.
Lançamento: ‘Mulheres de Pedra’, de Alexandre Augusto / Hoje, 19h / Paulo Darzé Galeria (Rua Dr. Chrysippo de Aguiar, 8 – Vitória)
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
Fonte: A Tarde



