Orla de Itapuã, véspera da lavagem –
A quinta-feira que antecede o Carnaval de Salvador não é apenas uma data no calendário para os moradores de Itapuã; é o pulsar de uma identidade que resiste ao tempo.
A tradicional Lavagem de Itapuã, um dos festejos populares mais tradicionais da Bahia, que este ano completa 121 anos, vive hoje um dilema: enquanto os moradores celebram o retorno das tradições “raiz”, quem vive do comércio de rua enfrenta o desafio de uma festa que já não brilha tanto no bolso quanto no passado.
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Resgate

Baleia Rosa
Para quem viu o bairro crescer, como Cristóvão de Jesus Santos, 64 anos, a lavagem é um espelho da comunidade. Morador do Alto do Coqueirinho desde 1981, Cristóvão recorda com saudosismo as origens da festa.

Cristóvão de Jesus Santos / morador
“Antigamente era uma lavagem mais raiz, composta por moradores, marchinhas e bandas”, relembra.
Após um período dominado pelos grandes trios elétricos, o ele observa de perto um movimento de retomada. Personagens lúdicos, como a Baleia Rosa, voltam a ocupar o cenário, devolvendo à celebração o caráter de “brincadeira de rua” que unia as famílias.
Para Cristóvão, o significado da lavagem está justamente nesse encontro espontâneo do povo.
O lado B: a Luta pela sobrevivência

Sandra Livramento / ambulante
Sandra Livramento, que trabalha no bairro há 15 anos, traz o contraponto de quem vê a festa através do balcão improvisado. Para ela, o brilho da lavagem perdeu força para o comércio.
“Já ganhamos muito dinheiro trabalhando aqui. Hoje em dia não”, desabafa Sandra. Ela aponta três fatores cruciais para essa queda: a violência, que afasta o público; o preço elevado das mercadorias; e a rigidez dos patrocínios.
Segundo ela, a exclusividade de marcas de bebidas, imposta por grandes cervejarias, limita o que o ambulante pode oferecer, transformando o que deveria ser o “grande dia” em um dia comum de trabalho, com custos mais altos e margens menores.
Transformação

Se por um lado o cortejo das baianas e a lavagem da Igreja de Nossa Senhora da Guia mantêm o sagrado intacto, o profano sofre com as mudanças da economia urbana.
A “elitização” de alguns setores e a migração do público para eventos privados têm esvaziado o asfalto, impactando diretamente trabalhadores como Sandra, que estão ali “com lavagem ou sem lavagem”.
Futuro

O desafio de Itapuã hoje é equilibrar esses dois mundos: preservar a memória nostálgica de moradores como Seu Cristóvão e garantir que a festa continue sendo uma oportunidade digna de renda para trabalhadores como Sandra.
Fonte: A Tarde



