domingo, fevereiro 8, 2026
spot_img
HomeDestaquesA rua de trás

A rua de trás

O 2 de Julho não é um bairro: é um bar.Todos os dias chegam caminhões e caminhões de cerveja que congestionam as ruas, abastecem os botecos e vão embora com centenas de vasilhames aparentemente vazios. Não há dúvida, porém, de que os frascos levam palavras e pensamentos, sonhos e lágrimas gerados pelos boêmios em volta das mesas noites adentro.Mas não há mais glamour. O 2 de Julho tem um problema crônico de lixo, principalmente à tardezinha, quando o comércio descarrega suas sobras. As mesas dos bares avançam para as calçadas e para as pedras onde os carros trafegam, e para as calçadas de frente. A única força que contém essa expansão são os camelôs que montam barracas de pastéis, churrasquinho e outros petiscos pelo caminho. Os moradores transitam nas dobras.Então por que falar desse cenário minúsculo, uma praça, dez ruas tortas e pedaços de praia no Centro tão abandonado de Salvador? Porque algo o fez bombar no gosto popular, e isso ganhou mais volume recentemente.Os cientistas sociais dizem que depois da pandemia as pessoas quiseram recuperar o tempo perdido e veio a onda do overturismo, com gente desesperada em sair mais e viajar para qualquer canto, querendo postar fotos.Aqui no 2 de julho, durante a pandemia, somente numa ruazinha estreita e escondida abriram quatro bares. Com tantas praias e outros espaços fechados, também vinha um pessoal se banhar nas praias da Gamboa e do Museu de Arte Moderna (MAM), e logo outros treinavam canoagem nas águas da Preguiça. Quando as autoridades liberaram a circulação geral, o burburinho estava formado e o bairro virou uma potência, um tigre asiático.Na área do MAM e também no Largo se destacaram alguns restaurantes bem temperados, principalmente os menos vistosos. E vale a máxima de que a cerveja é mais gelada onde o piso é mais feio.Porém a conversa aqui não é sobre qualidade, mas sobre incongruências. Um público que brinda a causas progressistas em botecos arcaicos. Homens paupérrimos arrastando 15 cachorros fiéis atrás de si. Dezenas de barbeiros ao ar livre, em cada sombra possível. Madrugadas de atletas correndo entre drags embriagadas. Livros e CDs vendidos no chão, aos montes.Cada centímetro tem dono, e existem muitos centímetros mal iluminados, inóspitos, de dia e de noite. Sabe aquela história dos pais do Batman, que foram num teatro e depois entraram por engano num bairro escuro? Às vezes imagino que o teatro foi o Castro Alves, e o bairro…Quando o sufoco é muito, desço à praia da Preguiça. Mas vou cedo, pois a partir das 10 horas começa o crowd, a cheia, barracas para todos os lados, vêm carros de aplicativos e chegam lanchas, e berram caixas de som. Dia desses estava ali quando Índia Potira, um morador do bairro, me avisou:— Caetano está aí!Rolou aquele zum-zum-zum na multidão, mas eu não vi os caracóis dos seus cabelos, nem Irene dar risada. Até hoje não garanto que Caetano foi. O 2 de Julho é meio Arembepe, com os mesmos mitos. Na hora que saí da praia, avistei Thiago Luna, influenciador de 600 mil seguidores, pisando na areia.O movimento segue intenso até o carnaval. Ou até aprontarem a ponte de Itaparica. Ou até o arrebatamento com Baby do Brasil numa quarta de cinzas. Tudo passa por aqui.*Franklin Carvalho é autor do livro Tesserato – A Tempestade a Caminho (Ed. Noir)

Fonte: A Tarde

- Advertisment -spot_img

Mais lidos