Casas com arquitetura alpina, varandas repletas de gerânios coloridos e o aroma de apfelstrudel (torta de maçã tradicional austríaca) saindo das confeitarias. Não fosse a placa indicando Santa Catarina, seria fácil acreditar que se está na Áustria, no coração dos Alpes. Mas o cenário faz parte do cotidiano de Treze Tílias (SC), cidade brasileira inspirada no país do outro lado do Oceano Atlântico.
O município de 8.787 habitantes guarda uma história que começa em 1933, quando o ex-ministro da Agricultura do governo austríaco Andreas Thaler escolheu a região para abrigar compatriotas que fugiam da crise econômica após a Primeira Guerra Mundial. Em 8 de setembro daquele ano, 85 pessoas partiram da Áustria a bordo do navio Principessa Maria. Thaler batizou o local de “Dreizehnlinden” — que em português significa Treze Tílias —, inspirado no poema “Die Dreizehnlinden“, de Wilhelm Weber.
Passados 92 anos, a herança austríaca não apenas permaneceu como se fortaleceu no interior catarinense. Treze Tílias é conhecida como “Tirol brasileiro” — nome inspirado na região da Áustria, que faz divisa com a Itália, Suíça e Alemanha — e busca o reconhecimento nacional de cidade mais austríaca do país.
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A gastronomia também foi trazida pelos navios dos imigrantes e segue fiel às receitas alpinas. O schnitzel (bife de porco empanado) e o knödel (bolinho de pão) são pratos obrigatórios nos 25 estabelecimentos de culinária tradicional. O apfelstrudel é servido quente, com nata ou sorvete como acompanhamento da torta de maçã.
A empresa Laticínios Tirol, fundada em 1974 pelo padre Küng, é uma das principais indústrias da região e responde por parte significativa da arrecadação municipal.
Os grupos culturais também são pilares da identidade austríaca na cidade brasileira do interior de Santa Catarina. A Banda dos Tiroleses, criada dentro do navio que trouxe os pioneiros para o Brasil, completará 93 anos em 13 de outubro de 2026. Além dela, a cidade mantém cinco grupos de dança folclórica austríaca, cinco corais e uma banda estudantil.
“No primeiro navio veio a formação da primeira banda. Quando chegaram ao Rio de Janeiro, eles tocaram músicas para alegrar as pessoas. Depois, a banda veio para Treze Tílias e permanece desde então”, relata a secretária municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Empreendimentos Turísticos, Karina Pattis Reiter.

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Desde o final da década de 1970, Treze Tílias abriga um consulado honorário da Áustria, que reforça os laços entre os dois países. A presença do consulado facilitou a aquisição de dupla cidadania para descendentes, permitindo que jovens trabalhassem e estudassem na Áustria.
“Muitos dos nossos jovens e descendentes acabaram tendo a oportunidade de morar na Áustria para trabalhar, adquirir experiência e aprender o idioma. Com o passar dos anos, eles retornam e passam a investir os recursos que trouxeram no município”, comenta Reiter.
A secretária é um exemplo do intercâmbio cultural. Moradora de Treze Tílias desde os 12 anos, ela viveu 11 anos na Áustria e em Liechtenstein, onde trabalhou cuidando de idosos e fez cursos de fundição de vidro. “Voltei em 2006, quando me casei com um descendente de imigrante austríaco. Há 17 anos, trabalho fundindo vidros aqui em Treze Tílias.”
Em 2012, Reiter e a cunhada, que havia retornado da Suíça, compraram uma fábrica de velas. A empresa emprega nove mulheres e trabalha com vidros, velas e artesanato voltados para o turismo.
A valorização da arquitetura austríaca também está viva nas raízes de Treze Tílias, padronizada por meio de uma cartilha desenvolvida pela Câmara Técnica de Infraestrutura, com a participação de arquitetos, engenheiros e voluntários. O documento destaca a arquitetura típica trezetiliense, com forte influência austríaca, orientando construções que mantêm a identidade visual do “Tirol brasileiro”.

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Com um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente R$ 829,4 milhões e PIB per capita de R$ 101.924,63, a economia de Treze Tílias se destaca pela diversificação. Dados de 2024 apontam que o município tem 1.513 empresas ativas, das quais 465 (30,7%) correspondem a empreendimentos ligados ao turismo.
Para o prefeito Armindo Ansilieiro Junior (PP), o diferencial econômico do município é a identidade cultural. De acordo com ele, o turismo se baseia na herança austríaca e movimenta restaurantes, hotelaria, parques e toda a cadeia da gastronomia local.
“A cidade tem um fator cultural forte, um apelo turístico austríaco. Isso permite que as empresas agreguem valor aos seus produtos com o selo de Treze Tílias. O turismo cultural traz um ganho econômico muito grande, gera empregos e melhora a qualidade de vida”, afirma.

O prefeito destaca que empresas locais aproveitam essa identidade como estratégia de mercado. A Laticínios Tirol, por exemplo, comercializa o queijo “Treze Tílias”, associando o produto ao nome e à tradição da cidade. “É um ganha-ganha. A cultura austríaca trouxe ganho econômico, qualidade de vida e nos ajuda a ser uma cidade melhor”, completa.
As empresas ativas são responsáveis pela geração de 4.329 postos de trabalho formais, o que corresponde a 49,2% da população total do município. O número de hospedagens cresceu 40,7% entre 2019 e 2024, passando de 27 para 38 empreendimentos para abrigar os turistas.
Em 2025, o Centro de Atendimento ao Turista registrou 11.975 atendimentos, 28,9% a mais que o ano anterior. O número de hóspedes totalizou 64.171, aumento de 63,6% em relação a 2024.
Fonte: Gazeta do Povo



