Nessa velha cidade do Salvador, assim como em toda Bahia, permanece uma dança coreografada por grandes mestres e que se pratica em todos os cantos da cidade (das cidades). Parece que os elementos que compõem a peça se renovam e se aprimoram a cada dia. Nem estou a falar da capoeira, do samba de roda, do maculelê, nem da “Dança da Bundinha”. Trata-se da “Dança do Atendimento”. Algo criativo, performático e, em até certo ponto, interativo.
Somos espectadores passivos e protagonista involuntários, existindo até uma regra essencial para participar. E o público-ator que fique atento.
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Trata-se do você entra, você espera. Você pede, você espera mais. E se reclamar, aí mesmo que você vai conhecer o nosso conceito de “eterna espera”. Vamos ver os palcos e seus detalhamentos, pois são várias arenas.
Taxi: a senhora, o senhor, entra, dá o destino, e o motorista, sem desviar o olhar do horizonte, esquece o cumprimento e se possível dá uma volta para chegar ao local designado como se fosse um pião doido. A chamada “Volta Turística”. Se brigar, o passageiro pode até perder um dente por que a maioria parte da frota de táxi pertence a policiais ou ex-policiais e basta um chamado para se ver cercado.
Bares e restaurante: você se instala. O garçom passa e nem olha, some. Vários minutos depois ele volta sem bloco, sem caneta, com a memória de um peixe. “O que vai ser? ”. Você solicita uma bebida, ele lá vai e você fica com o resto do pedido na ponta da língua. Quando ele voltar dá tempo pedir o restante. A impressão é que o cliente só foi ali para causar amolação. E quando ele esquece o pedido? E se você ficar buscando sua atenção com movimentos, lenhou de vez.
Nas barracas de praia, esqueça garçom, está pensando que é Ibiza? Você que não pise fundo na areia e não cole no rapaz que está sozinho pelando o pé no areal fervente e servindo a vinte mesas ao mesmo tempo. Não tem como fazer contato visual. Se passar junto e chamar, ouve o velho “já vai! ”. O dono do negócio na sombra e na pior vontade para fazer uma caipirinha. Nem reclame se o peixe chegar quase cru. Daí ele sai do seu conforto e o pau pode quebrar. Nem vou falar se o senhor ou a senhora sentou na mesa com cadeiras e sombreiros, acertou pagar um valor e, no fim do uso, a importância já mudou como se obedecesse à subida do Dólar ou à Taxa Selic. Na hora de pagar, não tenha pressa. Espere-o atender a namorada no celular.
Você vai dizer que exagero, que estou dando ousadia ao pessoal de fora que se queixa de qualquer coisa, mas acredite que até a Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel-BA), em um ato de coragem coletiva, lançou uma “Cartilha de Atendimento”. Claro, um verdadeiro manual visando “ensinar” ou dizer a quem atende ao público: “Sorria! ”, “Anote os pedidos! ”, “Não fique no celular! ”, “Seja gentil”. Diga se a entidade fazendo uma cartilha não é puxão de orelha e até, digamos, confissão de um pecado em busca da redenção. Uma atitude louvável.
Mas tempos depois do documento lançado fui numa churrascaria em Itapuã e parecia coisa marcada, de pura escrotidão dos garçons. A sala dividida pelo tradicional buffet que é feito para você encher logo a barriga de penduricalhos e comer pouca carne. Quem estava do lado direito tinha um atendimento perfeito e os garçons passavam à toda hora com o churrasco de rodízio. Do outro lado parecia área do inferno. Mesmo com alguns clientes se esguelhando não aparecia ninguém ou só vinha com espeto cheio de restos. Claro que deu confusão pois muitos clientes se levantaram para ir embora e a equipe tentou cobrar. Eu dei sorte de estar no lado certo e minha fome não permitiu solidariedade ao que estavam noi lado dark da força. Como se diz no sertão, “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Então o senhor ou a senhora que estavam achando que é somente táxi, bares e restaurantes e barracas de praias que pecam no atendimento, vá no posto de saúde ou em órgãos públicos. “A Dança do Atendimento” aí, sim, atinge seu nível de perfeição. O bom dia é de má vontade. A informação dada com desprezo e o atendimento…, mas não é só na esfera pública. Fui fazer um exame de urofluxometria, normal, de rotina, numa clínica particular em Nazaré. Minha urina travou por causa do médico que ia fazer o exame pois já atendeu de mal com a vida. E como travei me encheu de bronca. Levei o mijo de volta para casa.
Agora vamos dar um senso científico e factual à esta crônica. Saiba, portanto, que o Procon-BA registra, anualmente, milhares de reclamações. Para se ter uma ideia, em um ano recente, foram mais de sete mil queixosos dos serviços em geral na rua, nos shoppings, aeroporto, rodoviárias e até de baiana de acarajé (fuja das do Rio Vermelho). Então por que que a gente sai de casa para ir onde não chamaram? Acho que acreditamos piamente que amanhã é outro dia. Mas isso vem desde os tempos dos primeiros portugueses na Bahia. Onde está a velha escola Socila de boas maneiras e etiqueta e que ensinava bons modos e civilidade? A Abrasel bem podia ressuscitá-la.
Poxa! Me perdoe…, esqueci de dar bom dia.
Jornalista e escritor. Membro da Academia de Cultura da Bahia (ACB) e conselheiro da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
Fonte: A Tarde



