quinta-feira, abril 9, 2026
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Espetáculos do interior da Bahia ocupam palco do MAB em mostra histórica

Pariré´, da Cia. Operakata, grupo de Vitória da Conquista –

A partir desta quinta-feira, 9, o palco soteropolitano se abre para além da capital. Isso porque, de 9 a 12 de abril, chega a Salvador mais uma edição da Mostra Teatro de Cabo a Rabo, desta vez no Museu de Arte da Bahia. O evento convida o público a atravessar territórios, sotaques e estéticas ao reunir grupos e artistas de diferentes regiões do estado.

A mostra conta com uma programação que valoriza a diversidade e a pesquisa nas artes cênicas contemporâneas, propondo um mergulho na produção teatral que pulsa fora do eixo da capital. Os ingressos para viver essa experiência custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), disponíveis pela plataforma Sympla e na bilheteria do espaço.

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Ao celebrar 24 anos de trajetória, a mostra reafirma seu papel como espaço de intercâmbio cultural, reunindo trabalhos de cidades como Vitória da Conquista, Ilhéus, Porto Seguro e Lauro de Freitas. Mais do que apresentar espetáculos, o projeto constrói pontes entre territórios e modos de fazer teatro na Bahia.

Para a coordenadora da mostra, Chica Carelli, a iniciativa cumpre a função de ampliar o olhar sobre a cena teatral baiana. “Ele tem trazido público, e a última edição que fizemos, no ano passado, em outubro, teve uma recepção muito boa. Esperamos que este ano também tenha essa mesma acolhida. Estamos esperando todos com muito carinho”, afirma.

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Programação

Ao longo desses 24 anos de trajetória, a mostra impactou diversos artistas da capital e do interior, como é o caso do ator, diretor e dramaturgo Daniel Arcades. Segundo ele, a mostra foi responsável por proporcionar o primeiro contato com o teatro produzido na capital. Essa admiração se tornou uma pesquisa na qual ele se debruça sobre a história do evento e dos artistas que passaram por suas edições, muitos dos quais seguem em atividade.

Outro ponto destacado pelo artista é o potencial do intercâmbio entre interior e capital, especialmente no formato original do projeto, nos anos 2000, quando havia uma troca mais direta entre os territórios. Ele relembra a importância das visitas do Teatro Vila Velha às cidades do interior, promovendo encontros, processos criativos e circulação de trabalhos.

A memória desse encontro segue viva em sua trajetória. “Essa visita foi muito forte para mim há 22 anos, quando eu vi aquela trupe do Teatro Vila Velha chegar em Alagoinhas e mobilizar toda a cidade”, lembra. Para o artista, a continuidade da mostra nos últimos anos abre caminho para que o projeto recupere integralmente suas ações e fortaleça ainda mais as conexões que marcaram sua origem.

Segundo Arcades, a pesquisa sobre a mostra permitiu não apenas revisitar arquivos e registros das edições anteriores, mas também acessar memórias pessoais. “O ato performático de abertura da Mostra é muito mais um relato de como isso impactou na minha vida”, afirma, ao lembrar do contato com o Teatro Vila Velha, que descreve como uma “injeção de criatividade” em sua trajetória.

Espetáculo Metamorfose, de Lauro de Freitas | Foto: Divulgação

Ao analisar esse percurso, o artista aponta que houve um aumento na visibilidade da produção do interior ao longo dos anos. “Não é que o interior tenha produzido melhor do que antes, mas tem tido mais visibilidade”, avalia, ressaltando que esse movimento ainda está aquém do necessário para representar plenamente o teatro baiano, mas já indica uma mudança de olhar.

Apesar dos desafios, Arcades reconhece avanços na construção da imagem e da representatividade do teatro produzido no interior. Para ele, uma das principais contribuições da Mostra Teatro de Cabo a Rabo está na ampliação da visibilidade da produção artística fora da capital, especialmente no campo da divulgação.

Ele acredita que a pesquisa pode ajudar a olhar para um passado ao acessar um acervo, e observar esse presente para propor caminhos para um futuro. “Acredito que pesquisar um evento como esse faz com que a gente perceba que o interior sempre produziu, mas sempre carece de visibilidade, perceber como os modos de produção se modificam também dentro de uma realidade para além da capital”.

Abertura

Além da pesquisa, Daniel também é o responsável pela abertura da programação, hoje, às 19h. O artista vai apresentar uma performance inédita, com duração de 10 minutos.

A obra parte de vivências interioranas para refletir sobre a criação do artista do interior em diálogo com a capital, tomando como base a pesquisa sobre os espetáculos que integraram o projeto Teatro de Cabo a Rabo em 2004.

Em cena, um poeta revisita memórias de mais de duas décadas depois. A apresentação também se conecta ao solo Árcade, Versos para Olhar o Tempo, estreado em 2022, no qual o artista investiga a relação entre o fazer artístico no interior e a construção de linguagem e estética própria.

“Eu dialogo justamente sobre essa realidade do artista interiorano, de sua relação com a cidade e de sua produção de linguagem e estética”, explica.

O evento também contará com um bate-papo sobre artistas no interior e o lançamento do primeiro volume do novo selo do Vila: Provocações Abertas, resultado do projeto “Provocações”, realizado nos últimos quatro meses de trabalho e que estará disponível na plataforma do teatro.

Depois da performance de Daniel Arcades, é a vez da Cia. Operakata, grupo de Vitória da Conquista com uma trajetória de 20 anos de pesquisa. Pariré, obra vencedora do Prêmio Braskem de Teatro 2017 na categoria Espetáculo do Interior, narra o percurso de duas mulheres que compartilham o mesmo espaço-tempo: uma mãe prestes a ser avó e uma filha que se prepara para a maternidade.

Entre presenças, silêncios e projeções, ambas são atravessadas por expectativas sociais e pela figura do filho que virá. A obra investiga, com delicadeza e criticidade, as camadas de desejo e transformação que compõem essas trajetórias, resultando em uma experiência poética que articula dramaturgia e visualidade. Além de hoje, o grupo se apresenta na sexta-feira (10) e no sábado (11), no Museu de Arte da Bahia (MAB).

Para Ricardo Fraga, ator e diretor da companhia, abrir a programação da Mostra representa responsabilidade e alegria. “Entendemos esse lugar como uma oportunidade de dar visibilidade à produção artística do interior da Bahia, que é potente, diversa e vibrante, embora muitas vezes ainda pouco acessada pelo público da capital”.

O grupo busca representar não apenas a própria trajetória, mas também uma rede de coletivos que constroem teatro fora dos grandes centros.

Segundo Fraga, encontros e intercâmbios ampliam o olhar sobre o fazer artístico e permitem que o teatro encene, de forma mais ampla, o cotidiano do ser baiano em sua diversidade.

Sobre Pariré, ele adianta que o público pode esperar um espetáculo que transita entre leveza e profundidade, articulando humor e poesia para abordar temas sensíveis das relações humanas.

“Pariré convida o espectador a refletir sobre escolhas, expectativas e heranças emocionais que nos constituem enquanto indivíduos e sociedade”, afirma Ricardo Fraga.

Diversidade em cena

Dando continuidade à Mostra, a multiartista Naiara Gramacho, de Ilhéus, apresenta, nos dias 10 e 11 de abril, às 11h, o espetáculo de teatro de sombras Um Corpo de Palavras. A montagem propõe uma reflexão sobre o poder do discurso na construção da identidade, a partir da história de Paula, uma menina cujo corpo é coberto por rótulos ouvidos dos adultos. A obra aborda como marcas simbólicas da infância influenciam a autopercepção ao longo da vida.

Também integra a programação o grupo Ereoatá Teatro de Bonecos, de Lauro de Freitas, com o espetáculo Metamorfose.

A obra acompanha um senhor sertanejo que vive entre a seca e o isolamento e, em seu universo imaginário, cria um mundo onde realidade e fantasia se entrelaçam para lidar com a dor da perda e a possibilidade de transformação.

Imagem ilustrativa da imagem Espetáculos do interior da Bahia ocupam palco do MAB em mostra histórica

| Foto: Divulgação

Encerrando a programação, o grupo A Patela Banda, de Porto Seguro, apresenta O Catador de Histórias. Fundado em 2000 pelo pesquisador Robson Vieira, o grupo propõe uma experiência cênica para todas as idades, celebrando a oralidade.

Inspirado na tradição oral, o espetáculo acompanha um velho pássaro cabaça que costura memórias, reunindo contos como Tá Limpo, A Roupa Nova do Rei e A Menor História do Mundo.

Segundo Chica Carelli, a curadoria desta edição priorizou a qualidade dos espetáculos, a diversidade de territórios e de linguagens. Entre os destaques estão a presença de curadores convidados e a ampliação do olhar sobre a produção do interior.

Para ela, a mostra segue tendo papel fundamental na circulação dos trabalhos, possibilitando que artistas e grupos ampliem seus diálogos e alcancem novos públicos.

“Sem dúvida, essa mostra é importante para dar visibilidade ao trabalho desses grupos que estão fora do centro da capital, permite a circulação, permite que outros diretores de festivais tenham acesso e possam ver o trabalho”, afirma Carelli.

O evento é realizado pelo Teatro Vila Velha, dentro do programa “O Vila Ocupa o MAB”, que leva suas atividades ao Museu de Arte da Bahia durante a reforma de sua sede. Criada em 2002, a Mostra reafirma o compromisso com a democratização do acesso e a valorização da cena teatral fora da capital, com apoio do IPAC.

Mostra Teatro de Cabo a Rabo / A partir de hoje até domingo (12) / Museu de Arte da Bahia (MAB) / R$ 30 e R$ 15 / Programação: instagram.com/teatrovilavelha

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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