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frete da soja sobe 21% na Bahia e ameaça colheita

O agronegócio brasileiro já sente os efeitos da intensificação da guerra no Oriente Médio, marcada pela escalada das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã. Diante da forte dependência externa de insumos estratégicos e da elevada exposição às dinâmicas do comércio internacional, o setor enfrenta um cenário de incertezas, com impactos que vão desde o encarecimento da produção até riscos logísticos e comerciais.

Na Bahia, esses efeitos tendem a ser ainda mais sensíveis, exigindo atenção redobrada às consequências para a produção, os custos e a competitividade no mercado externo.

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Gargalo de Ormuz e a disparada do diesel

Entre os principais marcos do conflito está o bloqueio do Estreito de Ormuz, corredor marítimo que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico, em 28 de fevereiro. A passagem é responsável pelo escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial, o que torna a região estratégica para o abastecimento global.

No Brasil, o fechamento do estreito contribui diretamente para a alta dos combustíveis: o diesel S-10 registrou aumento de 24,5% entre a primeira semana de março (01/03 a 07/03) e a última (22/03 a 28/03), segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Os efeitos desse contexto se intensificam no agronegócio, especialmente em um período de colheita de commodities como soja e milho. Com o escoamento da produção concentrado no modal rodoviário, o encarecimento do diesel eleva significativamente os custos logísticos.

“Em uma rota de cerca de mil quilômetros, por exemplo, o gasto com diesel pode representar até 50% do custo do frete. É uma proporção elevada”, explica Fernando Bastiani, pesquisador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log).

Em uma rota de cerca de mil quilômetros, por exemplo, o gasto com diesel pode representar até 50% do custo do frete. É uma proporção elevada.

Fernando Bastiani, pesquisador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log)

Pressão logística no Oeste Baiano

Por ser um dos últimos estados a iniciar a colheita da soja, em função de condições climáticas e do calendário de plantio, a Bahia enfrenta uma situação ainda mais delicada. “O estado depende fortemente do modal rodoviário, o que eleva custos e reduz competitividade, especialmente em momentos de instabilidade internacional”, diz o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), Humberto Miranda.

No estado, o aumento do preço médio do diesel S-10 é o maior do país, com alta de 29%, segundo a ANP. Como consequência da combinação do avanço da colheita no estado e dos custos mais pressionados, os indicadores de frete e insumos revelam o tamanho do desafio:

  • Alta no frete: A rota Luís Eduardo Magalhães x Salvador saltou de R$ 220/t em janeiro para R$ 267/t em março;
  • Diesel S-10 na Bahia: Registrou a maior alta do país, batendo os 29% de aumento médio;
  • Dependência de fertilizantes: O Brasil importou 45,5 milhões de toneladas em 2025, com o Irã sendo fornecedor estratégico sob risco;
  • Exportação de proteína: 25% da carne de frango exportada pelo Brasil em 2025 teve como destino o Oriente Médio.

O estado depende fortemente do modal rodoviário, o que eleva custos e reduz competitividade, especialmente em momentos de instabilidade internacional.

Humberto Miranda, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb)

Insumos e o gargalo das exportações

O avanço da guerra no Oriente Médio também representa um dos piores momentos para o produtor brasileiro adquirir fertilizantes, segundo Bastiani. A forte dependência externa desses insumos amplia a vulnerabilidade do país em cenários de instabilidade internacional.

Como a região é estratégica na produção de fertilizantes, o conflito compromete a oferta e o escoamento – com destaque para o Irã -, pressionando os preços no mercado internacional e agravando os desafios logísticos de distribuição.

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Para além da importação de insumos, a exportação também é afetada. Com o bloqueio do Estreito de Ormuz, os fluxos marítimos foram reorganizados, exigindo o redirecionamento de rotas e pressionando a disponibilidade de embarcações.

“Isso causa falta de navios, o tempo de viagem aumenta, impactando também no custo do frete marítimo e no seguro, já que existe uma insegurança muito grande com relação à passagem de navios nessas regiões”, explica Bastiani.

Insegurança e perda de competitividade

Além dos impactos imediatos, a persistência do conflito tende a manter a pressão sobre os custos de produção no agronegócio brasileiro, com possíveis reflexos já no próximo ciclo de verão. Para o produtor, o prolongamento desse cenário pode reduzir as margens de rentabilidade, comprometer a capacidade de investimento e influenciar decisões relacionadas à expansão de área e à adoção de tecnologias.

A volatilidade cambial e dos preços internacionais também tende a aumentar, gerando insegurança nos contratos e no planejamento da produção.

Humberto Miranda, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb)

“A volatilidade cambial e dos preços internacionais também tende a aumentar, gerando insegurança nos contratos e no planejamento da produção”, destaca Humberto Miranda. No médio prazo, Miranda alerta para o risco de perda de competitividade relativa frente a países com cadeias logísticas mais eficientes ou menor dependência de insumos importados.

Estratégias para mitigar os impactos

Para mitigar esses impactos, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que mantém monitoramento da cadeia de suprimentos e dialoga com o setor para avaliar alternativas logísticas. Já em âmbito estadual, a Faeb intensificou o diálogo com os governos estadual e federal para pleitear medidas que reduzam os custos de produção, como a revisão de tributos sobre o óleo diesel.

“Reforçamos a atuação junto à CNA para priorizar pautas como crédito rural, seguro agrícola e abastecimento de fertilizantes. Internamente, ampliamos a assistência técnica e gerencial por meio do Senar, orientando os produtores para maior eficiência e melhor gestão de custos”, afirma Miranda. Segundo ele, o momento exige informação qualificada e suporte estratégico ao produtor.

*Sob a supervisão da editora Cassandra Barteló.

Perguntas Frequentes sobre o Impacto da Guerra no Agronegócio Brasileiro

Quais são os principais impactos da guerra no Oriente Médio no agronegócio brasileiro?

A guerra no Oriente Médio, especialmente com o bloqueio do Estreito de Ormuz, está elevando os custos de produção devido ao aumento do preço do diesel e comprometendo a importação de insumos, como fertilizantes.

Como a alta do diesel afeta os custos logísticos na Bahia?

Na Bahia, o custo do diesel S-10 subiu 29%, e em rotas longas, como de Luís Eduardo Magalhães a Salvador, o transporte pode representar até 50% do custo do frete, prejudicando a competitividade do estado.

Qual a importância do Irã no fornecimento de fertilizantes para o Brasil?

O Irã é um fornecedor estratégico de fertilizantes, e a instabilidade na região compromete a oferta e eleva os preços no mercado internacional, impactando diretamente a agricultura brasileira.

Como a guerra está afetando as exportações de produtos agrícolas?

O conflito está redesenhando rotas marítimas e causando falta de navios, aumentando o custo do frete e o seguro, o que prejudica as exportações de produtos como carne de frango para o Oriente Médio.

Que medidas estão sendo tomadas para mitigar os efeitos da guerra no setor agrícola?

O Ministério da Agricultura está monitorando suprimentos e dialogando com o setor, enquanto a Faeb busca medidas para reduzir custos, incluindo a revisão de tributos sobre o diesel e a ampliação de assistência técnica.



Fonte: A Tarde

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