O silêncio das ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia escondia um perigo invisível. O que se seguiu à violação foi uma sucessão de erros, curiosidade e tragédia que colocou o estado de Goiás nas manchetes internacionais.
Reconstituição da contaminação
Descuido e curiosidade
13 de Setembro: dois catadores, em busca de metal para revenda, entram no prédio abandonado do IGR. Eles removem uma peça de chumbo e aço de uma máquina de radioterapia e a levam para casa.
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15 de Setembro: os primeiros sintomas aparecem. Os catadores sentem tonturas e náuseas. Um deles apresenta uma queimadura grave na mão, mas o diagnóstico médico inicial ignora a radiação.
Fascínio pelo azul
18 de Setembro: A peça é vendida a Devair Ferreira, dono de um ferro-velho na Rua 26-A. Ao abrir a cápsula, Devair encontra um pó que emite uma intensa luz azul no escuro. Encantado, ele leva o material para dentro de casa.
21 a 24 de Setembro: O “pó brilhante” vira atração. Amigos, vizinhos e familiares visitam o local. Fragmentos da substância são passados de mão em mão, colocados em bolsos e até passados no corpo como adorno.
Tragédia familiar
25 de Setembro: Ivo Ferreira, irmão de Devair, leva um pouco do pó para sua casa. Sua filha, Leide das Neves, de 6 anos, manipula o material enquanto lancha. A ingestão do pó sela o destino da criança.
26 de Setembro: Maria Gabriela, esposa de Devair, percebe que todos ao seu redor estão adoecendo simultaneamente. Ela começa a suspeitar que o metal do ferro-velho é a causa.
Alerta e isolamento
28 de Setembro: Em um ato de coragem, Maria Gabriela coloca a cápsula em uma sacola e a leva, de ônibus, até a Vigilância Sanitária. O médico local suspeita de algo grave e isola o objeto.
29 de Setembro: um físico chega com um contador Geiger. O aparelho “estoura” a escala de medição. O governo é notificado: Goiânia está sob emergência nuclear.
“A gente não sabia que o brilho era a morte. Parecia coisa de Deus, de tão bonito.”
— Relato de um dos contaminados durante a triagem no Estádio Olímpico.
Balanço
A operação de limpeza e contenção gerou números que ainda impressionam os técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN):
Hoje, o material recolhido repousa em um depósito fortificado em Abadia de Goiás, onde deverá permanecer isolado por, no mínimo, 300 anos até que a radioatividade do Césio-137 caia a níveis seguros.
A cidade ainda luta para apagar o estigma e garantir assistência médica vitalícia aos sobreviventes.
Fonte: A Tarde



