domingo, abril 5, 2026
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esse suspense vai te deixar aflito do início ao fim

Gabriel Leone investiga passado obscuro em ‘Barba Ensopada de Sangue’ –

O pai de Gabriel (Gabriel Leone) está prestes a morrer. Não por doença ou fatalidade, ele quer deixar a vida mesmo. Antes disso, em uma conversa franca com o filho, ele conta um pouco da história de seu próprio pai, avô do rapaz, que morreu na vila de pescadores onde vivia, possivelmente assassinado por outros moradores locais.

Os detalhes sobre essa morte são nebulosos e, diante dos descaminhos e incertezas de sua própria vida, Gabriel resolve ir para Armação de São Joaquim. Trata-se de uma cidade fictícia que reproduz o litoral de Santa Catarina, mas é ali que ele busca retomar suas raízes e tentar desvendar o mistério em torno da vida e morte do avô que ele nem sequer conheceu.

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Essa é linha narrativa de Barba Ensopada de Sangue, novo longa-metragem de Aly Muritiba, adaptação do livro homônimo de Daniel Galera. O escritor nasceu em São Paulo, mas é radicado no Rio Grande do Sul, enquanto o diretor é nascido aqui na Bahia, mas estabelecido no Paraná.

Muritiba contou em entrevista para A TARDE que teve de enxugar muita coisa do livro, em especial a linha do tempo, que era bem maior. Porém, quis preservar a essência do material original.

“O Gabriel é um personagem formatado dentro do signo da violência masculina. Talvez ele nem compartilhe dessa forma de pensar e, por isso, ele seja um personagem tão deslocado, tão quebrado. Ele tem um pai que foi vítima do avô, e a gente sabe que esse avô foi uma pessoa abusiva. E para estancar essa violência, os homens da vila exerceram violência sobre esse cara também”, pontuou o diretor.

Esse ciclo vicioso, portanto, está no cerne da linhagem familiar que o personagem investiga ao longo da trama. “Meu filme reflete muito sobre uma geração de homens contemporâneos cuja personalidade é forjada dentro da lógica da violência. É algo muito comum no nosso país, talvez na América Latina inteira. Nós somos formados para sermos duros, brutos, resistentes e, por consequência, opressores”, concluiu Muritiba.

E essa violência persiste. Assim que Gabriel chega à vila para ocupar a antiga propriedade que pertencia a seu avô, ele passa a ser hostilizado e mesmo perseguido pelos moradores locais.

Ninguém ali esconde o ódio e o desprezo que sentia por seu Galdério, que muitos tacham como louco, mas também ninguém confessa que o velho tenha sido morto pelos próprios habitantes da vila. Os silêncios e os não-ditos perseguem Gabriel.

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Caça às baleias

| Foto: Divulgação

“Existem muitas praias com este nome em várias partes do Brasil. Todos os lugares onde houve caça de baleias recebiam o nome de Armação”, informou o diretor. Não é diferente da vila de pescadores onde o filme se passa.

Atualmente, esse tipo de caça predatória não é mais permitida, mas isso serve como metáfora para o próprio filme na medida em que o avô de Gabriel – e, consequentemente, ele também – passam a ser perseguidos pelos locais como criaturas a serem abatidas.

Daí surge uma outra personagem fundamental do filme. Jasmine (Thainá Duarte) é uma jovem guia de turismo e mergulho que explica como era feita a caça às baleias no passado. Eles também se envolvem afetivamente, embora ambos tenham suas dores e cicatrizes que parecem demandar rumos diferentes de vida.

Enquanto Jasmine almeja sair daquele ambiente opressor, Gabriel passa a ser cada vez mais atraído pelo lugar, a despeito das ameaças e do clima de perigo iminente. Mais que isso, ele começa um processo de transformação que o aproxima muito do avô, inclusive fisicamente – daí a referência à crescente barba do título que o personagem passa a cultivar.

“Na trama, as mulheres servem como uma voz da razão. A Jasmine fala para ele: ‘Vai embora dessa cidade antes que ela te engula’. Porque ela sabe que o ciclo de violência pode ser atualizado. Gabriel não quer se brutalizar, mas as violências que vão infligindo contra ele fazem com que os fantasmas do passado desse avô violento apareçam”, apontou o cineasta.

Tetralogia do despedaçado

Imagem ilustrativa da imagem Brutal e claustrofóbico: esse suspense vai te deixar aflito do início ao fim

| Foto: Divulgação

A partir do clima de apreensão que Gabriel vive no vilarejo, acrescido do mistério cada vez mais nebuloso que envolve a morte de seu avô, Barba Ensopada de Sangue adentra no caminho do suspense psicológico, o que de alguma forma remete ao primeiro longa-metragem de Muritiba, Para Minha Amada Morta (2015).

Essa associação faz muito sentido porque, segundo o próprio diretor, ele se interessou pelo livro de Galera quando estava escrevendo Para Minha Amada Morta. Os projetos, portanto, têm sua gênese no mesmo período, mas a produção de Barba – que deveria ter sido seu primeiro longa – teve que ser adiada por inúmeros motivos.

Ambos os filmes possuem um tom sombrio, sobre homens reelaborando traumas do passado a partir de entes falecidos – no caso, a esposa no primeiro filme. Mas Muritiba consegue enxergar uma aproximação maior com outros de seus trabalhos.

“A gente pode imaginar uma espécie de tetralogia minha de filmes sobre homens aquebrantados que se deslocam no espaço numa tentativa de curar uma dor ou de preencher um vazio”.

“Isso está no Ferrugem (2018), sobre um jovem que tenta sarar uma dor provocada por ele mesmo. E também em Deserto Particular (2021), sobre um homem que cruza o Brasil para encontrar a mulher amada. Esses filmes fazem parte de uma espécie de tetralogia do homem despedaçado”, arrematou o diretor.

Barba Ensopada de Sangue / Dir.: Aly Muritiba / Com Gabriel Leone, Thaina Duarte, Ricardo Blat, Roberto Birindelli, Teca Pereira, Ivo Müller, Otávio Linhares, Nelson Diniz / Salas e horários: cinema.atarde.com.br



Fonte: A Tarde

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