Elisabeth Rothers atuou por muito tempo na área da restauração de obras de arte em cerâmica –
Adentrar o espaço de moradia e trabalho de uma artista é revelador. No sítio onde Elisabeth Rothers Coutinho (Salvador, 1944) concebe sua obra artística, paredes, mesas e móveis exibem suas pinturas em óleo sobre tela e suas esculturas em cerâmica. Também há pinturas e desenhos do seu marido, há muito falecido, Riolan Coutinho, professor da Escola de Belas Artes da Ufba.
Em um dos cômodos fica o ateliê, onde podemos ver peças prontas, outras à espera da queima; peças inacabadas, material e instrumentos de trabalho, molduras, panos. Tudo organizado para o ato da concepção de uma obra desenvolvida na maturidade da artista.
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Elisabeth Rothers, como hoje prefere ser tratada, atuou por muito tempo na área da restauração de obras de arte em cerâmica, porcelana e azulejaria. Para tanto, buscou habilitação específica em cursos extras na própria escola e na Faculdade de Arquitetura da Ufba, após o bacharelado em Artes Plásticas e a Licenciatura em Desenho e Plástica realizados na EBA (1960-70).
Introduziu-se em uma área ainda inexplorada na Bahia, a da restauração em cerâmica, azulejos e esculturas, atuando por 32 anos no Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), no Governo do Estado. Nesse instituto, desempenhou diversos trabalhos nos acervos de museus e bens tombados. Lembra da intervenção feita em uma escultura de Cristo, em marfim, pertencente ao Museu do Recôncavo Wanderley Pinho.
“A escultura estava toda perfurada e precisei traduzir um livro sobre a restauração de marfins em língua inglesa. O resultado foi muito positivo, restituindo a integridade e longevidade da peça”.
Ações contínuas
Desenhar e pintar foram ações contínuas, mas a criação em argila (barro) modelada iniciou cinco anos antes de sua aposentadoria (2017), embora o contato com o material e a técnica tenha ocorrido desde a formação universitária.
Em relação a essa formação, afirma: “Na minha formação a cópia era um princípio, mas éramos conduzidas a criar livremente. Aprendíamos a técnica, a cópia de referenciais da História da Arte, inclusive da arte modernista, mas estava incluída a criação livre”.
Costuma identificar seu trabalho em três linhas de produção, o ser humano, pedras e tótens. Cerca de 70 esculturas em cerâmica foram reunidas em 2017 na exposição Formas e sentimentos, no antigo Palacete das Artes, atual Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC), onde foi possível verificar os fundamentos da concepção da artista.
Suas peças se inspiram em esculturas de Henri Moore (Reino Unido, 1898-1986), que conheceu por meio de um livro e da escultura Vênus de Hohle Fels, e na estatueta em marfim encontrada em 2008 perto da cidade de Schelklingen, na Alemanha, datada de cerca de 35.000 a 40.000 anos de idade.
De um e de outro obteve ensinamentos da flexibilidade das formas e do esquematismo figurativo. Tais influências foram reelaboradas, concorrendo para uma poética identificada com os desígnios de Elisabeth.
Dentre as esculturas destacam-se as cabeças que brotam das massas de argila com esmerada resolução, conferindo identidades variadas e olhares, às vezes ausentes, noutras, provocadores. As caras estão localizadas quase sempre nas extremidades dos blocos; os narizes, bocas, sobrancelhas e faces se projetam em volumes e conexões expressivas, lembrando a tradição da cerâmica marajoara.
Por vezes essas caras recebem um tratamento multifacetado, cubista, de franca referência às máscaras africanas. A relação da figura com o bloco de argila do qual emerge, ao tempo em que se destaca pela modelagem límpida da artista, incorpora as reentrâncias, furos e acasos do bolo argiloso que foi amassado para a modelagem.
Composição final
Dessa maneira, a mão precisa da criadora encontra a imprecisão e o acidental da matéria, inclusive as frestas, assumindo-as na composição final. “Perfeito” e “imperfeito” convivem, pois, para a artista, “certas faces da escultura decorrem dos ajustes que faz na matéria”. Faz marcas e incisões como se escrevesse em algumas peças com signos ilegíveis.
Elisabeth dispensa especial cuidado na escolha da argila, adquirindo-as em São Paulo, em lojas especializadas, e dá o tratamento necessário para que a peça não venha a estourar na queima e para que sejam alcançadas as formas e o acabamento pretendido.
Seleciona argila de várias colorações, utilizando-se do recurso da cor para a obtenção de maior expressividade, seja realçando os volumes através das sombras, seja no uso de esmaltes simulando o metal. O desbaste e afagos à matéria são feitos com os instrumentos tradicionais, estecas de vários formatos.
Explica o que faz com essas palavras: “Na construção do meu trabalho eu uso muito a pedra, me aproprio da forma plástica que a massa de argila oferece, e ajusto intervindo em vários graus. Agrego o que a natureza está me oferecendo. Trabalho com a figura humana, cabeças e figura inteira, faço totens inspirada nos pássaros. As formas do acaso são ajustadas na construção por mim de terminada. Me agrada muito a escrita cuneiforme dos antigos povos da Mesopotâmia e faço inscrições em algumas peças. As pedras, suas formas, texturas, também influenciam muito na minha obra, assim como os tótens, que remetem à espiritualidade, aos antepassados”.
Elisabeth trabalhou bastante com pintura a óleo sobre tela, mas teve que suspender por conta de crises alérgicas. Prefere a técnica a óleo à acrílica, por causa dos efeitos que se pode obter com a sobreposição de camadas de cores diferentes, beneficiando os efeitos do impasto. Seu trabalho pictórico alinha-se ao expressionismo abstrato, mais precisamente ao tachismo.
Passado longínquo e passado próximo afluem em formas distintas configurando a contribuição de Elisabeth Rothers para a arte do nosso século, a arte de todas as idades.
*O conteúdo assinado e publicado na coluna Olhares não expressa, necessariamente, a opinião de A TARDE
*Doutor em História da Arte, professor da Escola de Belas Artes (Ufba) e museólogo
Fonte: A Tarde



